Ásia

Por que a cópia de Modi da Nova Rota da Seda está fadada ao fracasso

O plano de Modi promete fazer essencialmente o que o Império Britânico fez com o mundo por décadas: garantir que não haja crescimento industrial, de infraestrutura ou soberania nacional.

Por Matthew Ehret, via Strategic Culture Foundation, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Seria o OSOWOG a nova investida contra a BRI chinesa? Imagem via strafasia.com
Seria o OSOWOG a nova investida contra a BRI chinesa? Imagem via strafasia.com

A Índia já foi conhecida como a “jóia mais cara” do Império Britânico, antes de conquistar sua independência em 1946. Infelizmente, assim como grande parte da história do pós-Segunda Guerra, aquele salto à independência foi manchado por uma boa dose de propaganda.

É claro, muitos grandes patriotas atingiram altas posições na Índia durante as últimas sete décadas, como Homi Babha (o pai da ciência nuclear indiana), primeiros-ministros como Indira Gandhi e seu filho Rajiv Gandhi (assassinados em 1984 e 1991, respectivamente). Mas também ascenderam lacaios britânicos mais leais à agenda da inteligência inglesa do que ao bem-estar de seu próprio país.

Desde que o primeiro-ministro Narendra Modi assumiu o poder em 2014, o líder populista do partido Bharatiya Janata tem vacilado entre esses dois extremos, ocasionalmente se opondo à pressão anglo-americana para tratar a China, Paquistão ou a Nova Rota da Seda como inimigos, mas frequentemente se dobrando às ordens geopolíticas do império.

A resposta ‘verde’ de Modi à Nova Rota da Seda

Um caso recente de comportamento servil pode ser visto com o chamado renovado de Modi pela contenção na Nova Rota da Seda chinesa (Belt and Road Initiative, BRI) com uma estranha cópia denominada One Sun, One World, One Grid (OSOWOG). Este plano global de três fases foi primeiramente anunciado em 2018 e promete uma transição mundial para uma única rede internacional de energia limpa até 2050, visando realizar as metas da COP-21 para redução massiva de dióxido de carbono. Parte do plano também envolve a criação de um “Banco Solar Mundial” para se contrapor ao Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura e ao Novo Banco de Desenvolvimento, dominados pela China.

O OSOWOG tem como alvo uma vasta região que encapsula duas amplas zonas que recebem muita luz solar: 1. O extremo-leste da Ásia e o Oriente Médio, e 2. o norte de África. Em essência, o plano visa a disseminação de infraestrutura para energia limpa nas regiões ensolaradas e a geração de uma nova rede de energia “verde” integrada como forma de contrabalancear a Nova Rota da Seda da China. A primeira fase visa reunir o Oriente Média, o sul e o sudeste da Ásia em uma rede, seguidos pelo norte de África e, finalmente, o mundo todo. O secretário indiano do Ministério da Cultura, Anand Kumar, afirmou: “isso seria central para os sistemas de energia renovável globais do futuro. A criação de redes regionais e internacionais interconectadas podem permitir o compartilhamento de energia renovável através das fronteiras”.

Atualmente recebendo capital inicial do Banco Mundial, o OSOWOG é administrado por outra entidade criada durante a Conferência COP-19 em 2015 e sediada em Nova Déli, chamada Aliança Solar Internacional (uma organização guarda-chuva de 66 países).

De acordo com as licitações do projeto, “a visão por trás do mantra do OSOWOG é ‘o sol nunca se põe’ e é uma constante em alguma localidade do globo, em qualquer momento’.

Isso pode parecer belo na superfície, mas ao observar os parceiros do OSOWOG e as dinâmicas geopolíticas anti-BRI de seu desenvolvimento, parece que o ainda existente controle do Império Britânico tem mais a ver com o mantra do que a presença dos raios solares no planeta.

Em junho de 2019, a Aliança Solar Internacional (ISA) de Modi assinou uma declaração de intenções com a Commonwealth britânica, que engloba 52 nações do “antigo Império Britânico” (incluindo a Índia), e que ainda é liderada pela própria rainha Elizabeth. De acordo com a nota de imprensa, esses países “concordaram em trabalhar em parceria para promover o desenvolvimento e a ampliação da energia solar dentre os membros comuns de ambas organizações”. O chefe da ISA afirmou: “Juntos, a ISA e a Commonwealth poderão criar estratégias internacionais para promover o Acordo de Paris e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 7 e 13 sobre energia limpa e acessível, e ações ambientais.

Por que a Nova Rota da Seda chinesa funciona

O fato é que, sob a crescente Nova Rota da Seda, nações que sofreram décadas de neocolonialismo e pobreza extrema encontraram uma esperança tangível para o crescimento sustentável e para suprir suas necessidades.

O paradigma de ganha-ganha da China não é baseado na escravidão por dívida praticada por detratores da BRI, mas sim no desenvolvimento de infraestrutura no longo prazo e em larga escala, que simplesmente beneficia todos os participantes.

O que torna esse projeto tão bem-sucedido é que, ao contrário dos 50 anos de promessas da globalização que apenas criaram um mundo neocolonial de escravidão por dívidas, a China faz as coisas acontecerem, como as 800 milhões de pessoas que foram tiradas da pobreza comprovam. Frustrando os exércitos de economistas ocidentais em suas torres de marfim, a BRI não é uma “fórmula” e utiliza práticas que possuem características tanto “capitalistas/orientadas ao mercado” quanto “socialistas/protecionistas”.

Em suma, a BRI desafia o formalismo, pois a realidade não é formal. Se você se preocupa em ajudar nações a se tornarem auto-suficientes enquanto elevam as condições materiais/cognitivas/culturais do povo, o caminho para atingir esses objetivos pode tomar muitas formas, mas a substância é a mesma. Eu a caracterizaria nos termos mais simples nas seguintes formas:

1. Ter um plano para cada estado-nação com quem visa cooperar.

2. Garantir que estes planos estão em harmonia com um plano unificador mais amplo, que organiza as partes locais e regionais, de cima a baixo.

3. Garantir que os frutos da construção destes planos beneficiem a todos – entes privados, públicos, ricos, pobres, rurais, industriais.

Esta é a essência da Nova Rota da Seda.

Ao construir as maiores barragens, trens de alta-velocidade, redes elétricas, portos e pontes da história, o concreto, aço, alumínio, ferro e terras raras têm sido usadas em quantidades muito maiores do que qualquer feito estadunidense dos últimos 60 anos. Estes feitos requerem energia. Muita energia.

Mas nem toda energia é criada igualmente.

A fraude imperial da energia ‘verde’

Se medirmos a energia simplesmente como calorias, de um ponto de vista puramente matemático, poderíamos dizer que 1 caloria de energia nuclear, 1 caloria de carvão e 1 caloria de energia solar são equivalentes. Entretanto, se analisarmos a qualidade de organização da energia, estas três não são iguais, com 1 grama de combustível nuclear realizando a mesma quantidade de trabalho de 3 milhões de gramas de carvão (que é em si muito mais eficiente e barata do que energia solar).

Ainda que seja inegável que a China tenha se tornado a líder mundial em projetos de energia limpa, e Xi Jinping fale muito sobre “energia verde”, o impulso chinês nos projetos internacionais não é bem-sucedido devido e essas formas de energia, mas sim por vastos investimentos em energia nuclear, carvão, energia hidrelétrica e gás natural – todos considerados anátema pelos tecnocratas verdes do ocidente, que pregam uma “descarbonização” global para nações em desenvolvimento que afetam o meio-ambiente.

Para aqueles na esquerda que ainda acreditam na idéia desinformada de que aerogeradores e painéis solares podem substituir os “sujos” combustíveis fósseis e a energia nuclear, vale a pena assistir o documentário recente de Michael Moore, Planet of the Humans, que levou muitos ambientalistas a crises existenciais desde seu lançamento em abril de 2020. [Alerta: o filme de Moore mostra bem a fraude da energia limpa, mas ainda cai na cínica crença neomalthusiana de que a única chance de sobrevivência para a humanidade é reduzir sua população].

Apesar de sua narrativa misantrópica, o filme de Moore captura efetivamente o fato que, enquanto a energia solar e eólica podem parecer boas no papel (ou nas fantasias matemáticas dos tecnocratas), a realidade é que tais energias não são “sustentáveis”… já que aerogeradores e painéis solares não podem ser criados utilizando energia solar e eólica!

Aqui é onde começa a fraude da iniciativa “o sol nunca se põe” de Modi.

Ao tentar criar um cinturão verde através da Ilha Mundo de Mackinder, da Ásia, até o Oriente Médio e África, o OSOWOG promete fazer essencialmente o que o Império Britânico fez com o mundo por décadas: garantir que não haja crescimento industrial, de infraestrutura ou soberania nacional, enquanto mantém todos países ingênuos o suficiente para embarcar na idéia em eterna escravidão por dívida e sem os meios de produção necessários para pagá-las. Essa lição foi tomada pelos patrocinadores da Desertec no Clube de Roma, que prometeu converter o Saara em uma super planta de energia solar para abastecer eternamente a Europa, e que o CEO da Siemens, Peter Loscher, afirmou em 2009 que seria “o projeto Apollo do século XXI”, mas acabou fracassando em 2013 conforme os países decidiram que seu futuro seria melhor garantido ao participar da Nova Rota da Seda.

Com a Covid-19 sendo utilizada pelas mais poderosas forças financeiras do planeta como justificativa para impor um Green New Deal sob o Pacto Global da ONU (que possui o apoio das maiores corporações ocidentais e bancos do mundo), está claro que o OSOWOG é apenas outra tentativa patética de reviver o Império Britânico como uma estratégia anti-desenvolvimento para o século XXI.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: