Brasil

A ‘terceirização’ da formação política: o caminho do fracasso

Por Eduardo Pessine, revisão de Flávia Nobre

Mônica Sodré (diretora-executiva da RAPS), Fernando Henrique Cardoso e Guilherme Leal (presidente da RAPS), durante evento de formação das “lideranças RAPS”. Foto via raps.org.br
Mônica Sodré (diretora-executiva da RAPS), Fernando Henrique Cardoso e Guilherme Leal (presidente da RAPS), durante evento de formação das “lideranças RAPS”. Foto via raps.org.br

No último dia 10 de agosto, o PSOL do Rio de Janeiro aprovou uma resolução sobre os critérios para definição das chapas para as eleições municipais deste ano, reafirmando a importância da independência financeira das candidaturas em relação aos instrumentos de financiamento da burguesia. Essa decisão inclui a proibição de candidaturas de pessoas vinculadas às novas formas de organização política da burguesia – como RAPS, RenovaBR e similares.

Essa resolução gerou uma (falsa) polêmica sobre o papel dessas instituições na viabilização de campanhas e candidaturas, principalmente vinculadas ao liberalismo de esquerda. Dizemos que é uma falsa polêmica pois, desde os debates acerca do financiamento empresarial de campanha, já havia um certo consenso no campo popular de que a dependência econômica em relação a mega-empresários têm consequências diretas na construção política dos partidos. Estas novas organizações são nada mais que formas paralelas de financiamento privado, que não passam pelas instâncias decisórias internas dos partidos. Sendo assim, nada mais natural que não sejam admitidas candidaturas com este tipo de vínculo para garantia da independência política dos partidos e seus candidatos.

Esse texto visa explicitar algumas formas pelas quais os candidatos que mantém vínculos com estas instituições – neste caso, mais especificamente a RAPS (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade) – têm sua independência fragilizada, gerando laços que podem se sobrepor à fidelidade partidária.

Antes de tudo, é importante ressaltar que não mantemos nenhum tipo de vínculo ao PSOL, e acreditamos que suas decisões internas dizem respeito aos seus militantes. O que visamos aqui é fazer uma reflexão política mais ampla, que trata das implicações gerais dessa nova forma de financiamento privado.

O que é a RAPS?

A Rede de Ação Política pela Sustentabilidade é uma “organização suprapartidária” que, segundo seu site, “busca contribuir para a melhoria da democracia e do processo político brasileiro, por meio da formação, conexão, apoio e desenvolvimento de lideranças políticas comprometidas com a sustentabilidade”.

Foi fundada pelo bilionário Guilherme Leal, atual presidente da organização e co-presidente da Natura & Co, que é composta pelas marcas Natura, Avon, The Body Shop, etc. Leal também compôs a chapa de Marina Silva em 2010, como candidato à vice-presidência. Já o vice-presidente da RAPS é Álvaro de Sousa, presidente do Conselho de Administração do Santander, além de ter sido membro do Conselho do WWF Brasil, Ambev, Gol, etc. Em outras palavras, a organização é liderada por dois membros proeminentes da burguesia interna.

A pauta central da organização é a “sustentabilidade” – um ambientalismo difuso no discurso, mas que, na prática, se reflete na promoção e aliança ao Partido Novo, integrante do governo Bolsonaro no Ministério do Meio-Ambiente de Ricardo Salles, conhecido por “passar a boiada” da destruição ambiental. O compromisso com a “sustentabilidade” parece ficar somente no discurso.

Além disso, como mostra o vídeo acima, é central na sua ideologia a fictícia divisão entre “velha” e “nova” política. Não há nenhum conteúdo concreto nas propostas apresentadas pela organização, apenas a boa e velha disputa por hegemonia de classe. E vem funcionando: sua rede já representa quase 7% do parlamento, com 33 deputados e 7 senadores.

Em resumo, a RAPS é uma instituição de hegemonia burguesa de caráter neoliberal, que se infiltra nos partidos políticos de esquerda através do financiamento de “lideranças” com discurso pasteurizado. Através dessa vantagem econômica, aqueles candidatos financiados pela RAPS atingem proeminência dentro e fora dos partidos, funcionando como porta-vozes do discurso aceito pela burguesia interna (o ultra-liberalismo de esquerda).

Não há menção a qualquer projeto de soberania nacional ou popular, revolução, propriedade privada, reformas estruturais, soberania tecnológica, imperialismo, etc. Pelo contrário, as “lideranças RAPS” participam de eventos e seminários que contam com presenças ilustres como de Fernando Henrique Cardoso – que tratou da “crise e reinvenção da política brasileira” com os aprovados em 2019 – e Rogério Chequer, co-fundador do Movimento Vem Pra Rua, membro do Partido Novo e também “líder RAPS”, uma das principais lideranças dos protestos que culminaram na destituição da presidente Dilma Rousseff em 2016.

Líderes RAPS aprovados em 2019 posam em foto junto a Fernando Henrique Cardoso. Foto via raps.org.br
Líderes RAPS aprovados em 2019 posam em foto junto a Fernando Henrique Cardoso. Foto via raps.org.br

Racismo?

A primeira acusação feita à resolução do PSOL carioca é de que ela seria “racista”, já que algumas candidaturas afetadas pela decisão são lideradas por pessoas negras. Além da inconsistência explícita desse tipo de acusação – a resolução não faz nenhuma distinção ou menção a quaisquer questões raciais – é necessário também observar a própria composição racial dos candidatos vinculados ao RAPS.

Imagem via raps.org.br
Imagem via raps.org.br

No relatório de atividades de 2019 do RAPS (imagem acima), indica-se que apenas 31% dos “líderes RAPS” aprovados no ano passado são negros e negras, ou seja, quase 70% são brancos (sendo que a composição étnica brasileira aponta uma população branca de 47,51%, de acordo com o censo de 2010). Há uma enorme discrepância de representação racial dentro do próprio RAPS, o que demonstra claramente que, majoritariamente e desproporcionalmente, os candidatos afetados pela resolução são brancos, e não negros.

A acusação não passa de uma instrumentalização oportunista da questão racial, que ao que parece, também não se apresenta como prioridade tanto no discurso quanto na prática da rede em questão.

Doutrinação neoliberal

A RAPS apresenta “lideranças” de diversos partidos (18, dentre eles, por um lado, Partido Novo, Cidadania, PSDB e PP, e por outro, PT, PDT e PCdoB). A primeira questão que surge frente a isso é: que tipo de compatibilidade política existe entre os programas de partidos tão divergentes e distantes do espectro político?

A resposta é simples: a formação política destas lideranças se dá na organização suprapartidária, e não em seus partidos. E a formação fornecida pela organização burguesa, como já dito anteriormente, é de forte caráter neoliberal. Ela gira em torno de cursos e palestras de temáticas rasas e puramente “técnicas” – marketing político, gestão de redes sociais, gestão pública, atuação parlamentar, etc. Não se trata da realidade brasileira, de sua inserção no sistema capitalista mundial e na divisão internacional do trabalho, do imperialismo, da superexploração do trabalho, do genocídio da população negra. Tudo isso é deixado de lado. A solução é pura e simplesmente moral: ensina-se às lideranças que sejam “éticas” e “tolerantes”, e principalmente, que respeitem e fortaleçam a “democracia”. Em outras palavras: sejam inofensivas à República Rentista e à dominação burguesa e imperial.

Tudo isto é refletido no Código de Ética da instituição, que aponta os princípios e valores que devem ser seguidos por seus membros: diversidade, diálogo, ética, etc. Todos vagos porém girando em torno da moderação política e do descompromisso ideológico e partidário, como aparece na página 5:

“Amizade Cívica: colocaremos de lado nossas diferenças ideológicas, eleitorais, partidárias e de quaisquer outros tipos para, respeitosamente, dialogar e cooperar com outros membros da rede, bem como outras pessoas, organizações da sociedade civil, organizações sem fins lucrativos, empresas, entidades governamentais do país e órgãos nacionais e internacionais, na busca de soluções concretas para os principais desafios políticos, ambientais, econômicos e sociais do Brasil.”

Eleitoralismo individualista

A formação política oferecida pela RAPS incentiva o mais alto grau de cretinismo parlamentar, até mesmo na fase de campanha. O documento “Manual de campanhas eleitorais: Estratégia, eleitorado e financiamento” é um verdadeiro guia de “como ganhar eleições” através de técnicas de engenharia social, marketing político e estratégias de atração do eleitorado.

O documento ensina os candidatos a traçar perfis do “público-alvo” da campanha, construir sua “mensagem”, realizar cursos de “media training” – como se portar em entrevistas e aparições públicas, por exemplo – compreender os “tipos de voto”, como constituir uma equipe de campanha (com quê dinheiro?), etc.

Em outro documento, intitulado “Construindo Campanhas: O Caminho para a Eleição”, recomenda-se, por exemplo, que na fase de pré-campanha, o candidato faça uma “análise sobre os concorrentes”, o que inclui os “concorrentes partidários” (!). Segundo o próprio documento (pág. 65):

Concorrente partidário – são aquelas candidaturas que devem ser superadas dentro do mesmo partido, já que os eleitos serão aqueles que receberem mais votos dentro da composição partidária. Há de se analisar as chances dos candidatos dentro do mesmo partido para se compreender a viabilidade de uma campanha. Assim como é feito com sua própria candidatura, analisando qualidades e defeitos, é importante que o mesmo seja realizado com candidaturas de adversários. Recomendamos que sejam avaliados elementos como histórico de realizações locais, histórico profissional e acadêmico (com especial ênfase para candidatos com foco temático), representatividade de tradição ou inovação, relação com o partido e militância, relacionamento com lideranças locais e alcance das mídias sociais.”

É um verdadeiro “dividir para conquistar”: a organização incentiva que seus candidatos disputem candidaturas com seus camaradas (referidos no documento como “adversários”), e não ajudem na construção conjunta do partido e de uma estratégia política mais ampla – um eleitoralismo individualista no mais elevado grau. É a “nova política”.

Assim, se fortalece uma lógica puramente mercadológica dos mandatos – que já existe em certo grau, mas pode se tornar ainda mais agressiva – onde a construção política dos partidos não passa por um enraizamento social, por trabalho de base, organização comunitária, formação política de uma vanguarda da classe trabalhadora e disputa pelo poder, mas sim uma mera aplicação de técnicas de marketing para maximizar o potencial eleitoral do partido, ainda que isso signifique um total esvaziamento social e político da organização.

O que por si só é uma expressão do pensamento neoliberal: o enquadramento da emancipação no âmbito puramente individual através do discurso meritocrático, e não na organização de classe e na luta política. Dessa maneira, o neoliberalismo se infiltra cada vez mais nos partidos de esquerda e drena parte substancial de seus recursos em contratos (gordos) de assessorias de “marketing político” – recursos esses que poderiam ser usados na própria construção do partido e em aparatos de hegemonia da classe trabalhadora: centros comunitários, editoras, meios de comunicação, etc, mas que acabam direcionados ao aprofundamento do cretinismo parlamentar.

Compromisso suprapartidário

Outra questão grave dessas organizações é o aparato de compromisso suprapartidário. No Termo de Compromisso para as lideranças RAPS, se expressa uma série de responsabilidades que norteiam as ações da instituição e das lideranças, em sua “atuação institucional e política”:

“Considerando que a Liderança RAPS tem o compromisso de cooperar com outras Lideranças RAPS e compartilhar com a rede suas experiências;

Considerando que a Liderança RAPS se compromete, por fim, a participar presencialmente de no mínimo 50% das atividades de formação e também a se engajar de forma efetiva nas demais atividades promovidas pela RAPS, como aquelas do Centro de Estudos, de participação em campanhas e mandatos das lideranças RAPS, de fomento à amizade cívica, entre outras;”

De acordo com o Código de Ética (pág. 11):

5. Penalidades por infração ao Código de Ética RAPS

5.1. O membro da RAPS que infringir qualquer dispositivo, estatutário normativo ou o Código de Ética RAPS, praticar atos incompatíveis com os princípios, valores e objetivos institucionais poderá ser penalizado com as seguintes sanções:

I – Advertência;

II – Suspensão de 30 (trinta) a 180 (cento e oitenta) dias;

III – Exclusão do quadro social.”

Ou seja, aquele candidato vinculado à RAPS será pressionado a descumprir decisões partidárias caso elas não sejam compatíveis com o Código de Ética, princípios, valores e objetivos institucionais da organização. E se, como apareceu recorrentemente na recente polêmica, o vínculo implica na viabilidade econômica da campanha ou mandato, não é difícil imaginar qual determinação – a da RAPS ou do partido – será seguida.

É preocupante também a referência à “participação em campanhas e mandatos das lideranças RAPS” como exigência obrigatória, com ao menos 50% de presença. Se esse vínculo de fato existe, ele fortalece uma cooperação suprapartidária completamente desligada de qualquer compromisso ideológico e político, mas meramente formal. Isso implica também na obrigatoriedade de uma “formação continuada” de políticos da esquerda, que está completamente desvinculada dos partidos pelos quais exercem o mandato. Há de se perguntar: que tipo de influência essa “formação continuada” e “grupo de estudos” têm na atuação política dessas figuras? Os membros da RAPS estão dispostos a se desvincular da organização (e abrir mão de quaisquer bônus financeiros, como por exemplo, bolsas de estudo no exterior no valor de R$ 160 mil) caso o compromisso partidário se mostre incompatível, como é o caso da resolução aprovada pelo PSOL carioca?

Em suma: São candidatos de seus partidos, ou candidatos da RAPS?

Terceirização da formação política?

O problema mais grave, no entanto, é não apenas a aceitação de vínculos com tais instituições dentro dos partidos de esquerda, mas uma relativa dependência que parece se criar em relação a elas, não só no âmbito econômico, mas na própria formação política de seus militantes.

O fato de membros dos partidos buscarem esse tipo de organizações demonstra um problema grave com os atuais partidos hegemônicos de esquerda e como se dá a sua formação política interna. Por qual motivo seus membros não se sentem satisfeitos com a formação política oferecida por seus partidos (se é que a oferecem), e buscam instituições externas para se preparar para disputa eleitoral?

É uma clara expressão da falência teórica e política dos partidos da esquerda liberal. O desprezo total pela teoria, pela crítica, e pelo estudo, abrem espaço para que instituições da burguesia não só se infiltrem na constituição ideológica do partido, mas para que tenham poder de decisão e definição de candidaturas – e suas chances de sucesso ou fracasso. Além de uma forma paralela de financiamento, a aceitação de vínculos com organizações como a RAPS e RenovaBR significa uma “terceirização” da formação política, que pode, caso continue se ampliando, aprofundar cada vez mais o abismo teórico e ideológico da esquerda brasileira.

Por isso acreditamos que a decisão do PSOL carioca não é somente acertada, como é algo IMPRESCINDÍVEL para que exista independência política nas organizações da classe trabalhadora, tanto no âmbito financeiro quanto ideológico. É inaceitável que aparatos da burguesia tenham qualquer poder decisório e de influência sobre os partidos de esquerda – um fato tão óbvio e primário, mas que em meio à miséria moral e política da esquerda liberal, se mostra infelizmente necessitado de reafirmação.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s