África

O tabuleiro africano: a República Francesa

Por Laura Revenga, via Descifrando la Guerra, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

O presidente francês Emmanuel Macron, à esquerda, e o presidente chadiano Idriss Déby, em N’Djamena, capital do Chade, em dezembro de 2019. Foto por Ludovic Marin.
O presidente francês Emmanuel Macron, à esquerda, e o presidente chadiano Idriss Déby, em N’Djamena, capital do Chade, em dezembro de 2019. Foto por Ludovic Marin.

“O tabuleiro africano” é uma série de artigos (publicados pelo Descifrando la Guerra) sobre a crescente disputa pela influência política no continente africano.

Durante os últimos anos, estamos presenciando a reentrada de um antigo ator na disputa pelo continente africano. Há alguns anos, a França tem sido golpeada pela ameaça do terrorismo internacional e pela emergência e consolidação de novos atores na região, sobretudo a República Popular da China (RPC). Essas duas dinâmicas fizeram com que a França voltasse a olhar ao continente africano como uma potencial solução para as tendências mencionadas previamente.

Os vínculos entre Paris e África remontam ao século XVII, quando em 1638 os franceses construíram uma estação comercial no estuário do Rio Senegal na África Ocidental1. Não obstante, o principal período de expansão colonial se produziu no século XIX, com a invasão da Argélia otomana em 18302. Após essa primeira invasão, a França conquistaria a África ocidental e equatorial durante a chamada “Partilha de África” (1880-1912)3, e, com a Conferência de Berlim de 1884-85, as principais potências européias (França, Reino Unido, Bélgica, Portugal e, em menor medida, Alemanha e Espanha) dividiram o continente africano4. Entre 1960 e 1970, a França presenciou o processo de independência de suas antigas colônias africanas5.

Entretanto, Paris nunca perdeu de vista seus interesses na região6, que tem sido visto como uma nova forma de “colonialismo 2.0”, como é o caso, por exemplo, do franco CFA. Ao final de 2017, o atual presidente francês Emmanuel Macron, em um discurso em Burkina Faso, revelou uma nova estratégia francesa para África7.

A estratégia de Paris vai de acordo com sua maneira de conceber as relações internacionais, e também se baseia no soft power. Os estados africanos enfrentam uma população em crescimento e uma carência de infraestruturas para desenvolver uma economia competitiva.

Por um lado, Paris tem usado sua ajuda ao desenvolvimento (ODA, em inglês) no continente. Cabe mencionar que a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD, em francês) firmou um acordo de cofinanciamento de US$ 1,5 bilhões com o Banco Africano de Desenvolvimento em 2015. Este acordo tem por objetivo aumentar o cofinanciamento entre ambas instituições e compartilhar conhecimentos especializados para cumprir os prazos dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável8. Este movimento poderá ser ofuscado, já que a China superou a França, convertendo-se no maior sócio econômico da maioria das antigas colônias francesas em África, em particular os países da zona onde se emprega o franco CFA9.

Consequentemente, a França se esforça para manter seu legado cultural (Françafrique), e uma parte importante do financiamento ao desenvolvimento se destina à educação, bolsas de estudo e institutos culturais10. A promoção do francês se centra com a forte conexão francesa entre sua língua e os valores e cultura do mundo “latino”, distinto do mundo anglo saxão e seus aspectos menos admiráveis11. Isso permite que a França possa prolongar sua influência sem resistências por parte da população local.

O restante dos atores em África também realizam investimentos em diversos âmbitos, como infraestrutura, comércio, entre outros. Porém, Paris possui uma vantagem frente a outros atores, como a China. Os laços pessoais e as redes políticas entre os líderes franceses e africanos tem contado muito. Caberia mencionar as recentes viagem do ex-presidente Sarkozy às antigas colônias com equipes públicas e privadas para realizar negócios12.

A diplomacia e colaboração têm sido outros pontos vantajosos para os interesses franceses. Durante o ano de 2019, o atual presidente francês Emmanuel Macron realizou 7 viagens internacionais ao continente africano13. Ao mesmo tempo, outros altos-funcionários do governo francês têm mantido viagens no continente em diversas áreas. Além disso, a França tem se aproximado de uma variedade de países africanos, através de projetos com a União Africana. Em 2016, celebrou-se o evento Rencontres Campus France para fomentar os intercâmbios universitários entre França e os países participantes14.

No setor de infraestrutura, assim como outros atores, como Turquia, Indonésia e Rússia, a França não dispõe de uma iniciativa ao nível da Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative, BRI) ou do projeto do Corredor de Crescimento Afro-Asiático (AAGC, em inglês). A China está ganhando terreno em relação a Paris em matéria de infraestrutura no continente. Entretanto, isso não tem sido um impedimento para os investimentos franceses no setor. A empresa francesa Eiffage firmou um contrato de US$ 35 milhões para a construção de um terminal de contêineres no Togo, em 201415. As corporações francesas, como a construtora Bolloré e o gigante petroleiro Total16, mantém uma presença considerável neste setor na região. Da mesma forma, juntamente aos Emirados Árabes, Alemanha, Reino Unido e Itália, Paris está negociando com a Índia para colocar em marcha projetos conjuntos de infraestrutura em África17.

As empresas francesas seguem no continente, atraídas por novos mercados para suas exportações, negócios e para a obtenção de recursos naturais. O grosso das exportações de África à França são os diamantes, urânio e outros recursos energéticos, metais preciosos e produtos como o café, açúcar, chá, algodão e pescado18.

Enquanto isso, a França exporta maquinários e equipamentos de transporte, aviões, plásticos, produtos químicos, fármacos, ferro, aço e bebidas19. Em junho de 2019, os legisladores franceses votaram o primeiro artigo de um pacote de medidas sobre o clima e energia que estabelece os objetivos do país para reduzir suas emissões de gases do efeito estufa20. Dessa forma, Paris também está investindo no setor energético em África. Cabe destacar que a subsidiária da empresa Vinci SA financiou a maior planta de energia solar do oeste africano, em Burkina Faso21.

A disputa em África. Comércio (esquerda) e investimento estrangeiro direto (direita). Imagem via tralac.org
A disputa em África. Comércio (esquerda) e investimento estrangeiro direto (direita). Imagem via tralac.org

No plano militar, a França tampouco fica para trás. Entre os países europeus, a França tem os níveis mais altos de compromisso militar com África22. Destaca-se que a França interveio militarmente em África 19 vezes entre 1962 e 1995. A maioria das operações visava ostensivamente proteger cidadãos franceses ou reprimir levantes contra os governos da região23. Após a independência das ex-colônias francesas, Paris firmou acordos de defesa com a Costa do Marfim, República Centro-Africana, Djibuti, Gabão, Senegal, Camarões e Comores, e muitos destes acordos têm sido revisados24. Assim, a França mantém numerosas bases militares desde Senegal até o Chife de África25. Há de se acrescentar que a luta contra o terrorismo é outra prioridade estratégica tanto para os estados africanos quanto para França. Por exemplo, Japão e França têm aprofundado uma associação nesta matéria26.

Paris está se envolvendo cada vez mais em missões de paz. Segundo dados de 2007, dos 12.000 soldados franceses que participam de missões de paz em todo o mundo, quase metade estão em África, tanto como militares quanto assessores27. Atualmente, a cifra tem aumentado para mais de 100.000 em 2019. A França tem focado seus esforços em missões como a MONUSCO na República Democrática do Congo, a UNMISS no Sudão, a MINUSMA no Mali e a MINUSCA na República Centro-Africana28, entre outras. Até hoje, a França é o segundo maior provedor de tropas dentre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU29.

Tropas africanas da MINUSMA respondem a um oficial francês, 1º de julho de 2013, em Bamaco. Imagem via worldpoliticsreview.com
Tropas africanas da MINUSMA respondem a um oficial francês, 1º de julho de 2013, em Bamaco. Imagem via worldpoliticsreview.com

O 28º Fórum África-França ocorre em junho de 2020, na França. Este fórum é um acontecimento político, com a participação de mais de 50 chefes de estado e cerca de 500 empresas francesas. Essa reunião será o maior encontro diplomático desde sua primeira edição desde 1973, e celebrada a cada dois anos desde 198930. O foco desta próxima reunião são as cidades sustentáveis, no âmbito político, econômico e ambiental31.

O afloramento das potências emergentes, sobretudo da China, tem feito com que certas regiões esquecidas como a África voltem a cobrar relevância por parte de Paris. Esses novos atores tem dado um fim às antigas práticas de vantagem efetiva das potências frente aos estados africanos. Igualmente, a estratégia da França em África tem crescido para que o país possa manter sua influência no continente em diversas esferas, desde infraestrutura, passando por recursos energéticos, entre outros. Paris terá que manter um hábil equilíbrio no continente africano. Entretanto, a China tem se convertido em um sócio comercial para muitos países da região32. Da mesma forma, alguns países africanos podem, em troca, favorecer sócios emergentes como a Índia, Brasil, Turquia e outros países do Oriente Médio33, reduzindo a esfera de influência francesa.

Outro aspecto de longo prazo, que poderia limitar o poder francês em África, é a futura aplicação da Zona de Livre Comércio Continental Africana34, que pode fazer com que os acordos de cooperação econômica negociados entre a União Européia, o que inclui a França, e os grupos de países de África sejam revisados35. Entretanto, a França tem o potencial de restabelecer sua relação com as nações africanas com base no benefício mútuo e no desenvolvimento da região. Isso faria com que certas potências, como os Estados Unidos, corram o risco de perder seus aliados em África, caso não se adaptem às novas dinâmicas regionais.

Leia mais: série de artigos O tabuleiro africano.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


1  https://www.oxfordreference.com/view/10.1093/acref/9780191737596.timeline.0001

2  https://www.oxfordbibliographies.com/view/document/obo-9780199846733/obo-9780199846733-0029.xml

3  Ibid.

4  https://www.descifrandolaguerra.es/el-tablero-africano-vi-la-union-europea/. Tradução em: https://novamargem.com.br/2020/04/13/o-tabuleiro-africano-a-uniao-europeia/

5  https://descolonizaciondeasiayafrica272.blogspot.com/2015/04/descolonizacionde-africa-y-asia-quees.html

6  https://www.dw.com/en/why-are-ex-colonies-in-africa-so-important-to-france/a-38680154

7  https://africasacountry.com/2017/11/should-africans-care-for-emmanuel-macrons-africa-speech-in-ouagadougou/

8  https://www.afdb.org/en/countries/non-regional-member-countries/france

9  https://www.diplomatie.gouv.fr/en/country-files/africa/health-africa-a-high-priority-continent/

10  https://www.e-ir.info/2011/06/11/the-ongoing-relationship-between-france-and-its-former-african-colonies/

11  Ibid.

12  Ibid.

13  https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_international_presidential_trips_made_by_Emmanuel_Macron

14  https://au.int/en/pressreleases/20161109-0

15  https://www.brookings.edu/blog/africa-in-focus/2019/02/05/france-africa-relations-challenged-by-china-and-the-european-union/

16  https://www.dw.com/en/why-are-ex-colonies-in-africa-so-important-to-france/a-38680154

17  https://economictimes.indiatimes.com/news/economy/infrastructure/europe-japan-us-uae-prefer-india-for-joint-infrastructure-projects-in-africa/articleshow/66780251.cms

18  https://www.waystocap.com/blog/what-do-european-countries-import-from-africa/

19  https://www.economywatch.com/world_economy/france/export-import.html

20  https://www.reuters.com/article/us-france-energy/france-sets-2050-carbon-neutral-target-with-new-law-idUSKCN1TS30B

21  https://www.reuters.com/article/africa-renewables-idUSL8N1NZ45O

22  https://www.brookings.edu/blog/africa-in-focus/2019/02/05/france-africa-relations-challenged-by-china-and-the-european-union/

23  https://archive.nytimes.com/www.nytimes.com/cfr/world/slot2_20070209.html?_r=0

24  https://www.brookings.edu/blog/africa-in-focus/2019/02/05/france-africa-relations-challenged-by-china-and-the-european-union/

25  Ibid.

26  https://www.ifri.org/sites/default/files/atoms/files/pajon_japan_security_policy_africa_2017.pdf

27  https://archive.nytimes.com/www.nytimes.com/cfr/world/slot2_20070209.html?_r=0

28  https://onu.delegfrance.org/Peacekeeping-10194

29  Ibid.

30  https://www.ifri.org/sites/default/files/atoms/files/bnafrica0207.pdf

31  Ibid.

32  https://www.brookings.edu/blog/africa-in-focus/2019/02/05/france-africa-relations-challenged-by-china-and-the-european-union/

33  Ibid.

34  A Zona de Livre Comércio Continental Africana foi aprovada em 2018 e pretende reduzir tarifas para 90% dos produtos e criar um mercado liberalizado de serviços entre os estados-membros da União Africana. O objetivo é aumentar o comércio intra-africano, calculado em menos de 20%, até 25% até 2023. Para maiores informações: https://www.politicaexterior.com/articulos/afkar-ideas/la-nueva-zona-libre-comercio-continental-africana-perspectivas-desafios/

35  https://www.brookings.edu/blog/africa-in-focus/2019/02/05/france-africa-relations-challenged-by-china-and-the-european-union/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s