Análise Semanal da Conjuntura Brasileira Brasil

Agora é a vez da direita na gestão da pobreza

O que se desenha é um “social-liberalismo de direita” – uma repaginação do período petista com o sinal trocado e com um alinhamento mais agressivo aos interesses estadunidenses, dado o contexto de declínio do Império.

Por Eduardo Pessine, revisão de Flávia Nobre

A burguesia “nacional” visa criar uma base de massas com um novo social-liberalismo de direita. Foto por Evaristo Sa.
A burguesia “nacional” visa criar uma base de massas com um novo social-liberalismo de direita. Foto por Evaristo Sa.

Já está mais que claro que o maior “inimigo” do rentismo no Brasil atual é o caos social. Afirmamos por aqui anteriormente que a gestão desastrosa da pandemia por parte do governo levaria a um situação econômica insustentável, entretanto, o auxílio emergencial se mostrou suficiente não apenas para segurar a situação social – ainda mais pelo seu prolongamento em mais dois meses – mas também para alavancar fortemente a popularidade de Bolsonaro. A miséria atual é tão grave que um tímido auxílio de 600 reais por mês significou para uma enorme fatia do povo um aumento significativo de renda, o que explica o grande crescimento da popularidade do presidente, como mostra a recente pesquisa divulgada pelo Datafolha.

Isso tudo só ocorre pois não existe oposição ao governo Bolsonaro. As últimas semanas são um retrato da miséria política da “esquerda” brasileira: o sumiço midiático do presidente, que gerou uma trégua nas infinitas discussões inúteis sobre as bobagens presidenciais e ministeriais, expôs a completa ausência de qualquer projeto político de oposição para além da mera reação às atitudes morais de Bolsonaro. O lado bom, porém, foi que houve a quebra da ilusão de que o governo estaria “derretendo”, principalmente pelas tosquices expressas pelo presidente – por outro lado, e ironicamente, esse foi apontado como o principal motivo de seu aumento de popularidade: seu silêncio. A esquerda liberal escolhe assim continuar mergulhada em ilusões.

Parece cada vez mais claro que, das opções que anteriormente supomos como possíveis no futuro próximo – um governo “moderado”, o “frentão” liberal, que faz o projeto de Guedes enquanto gere a pobreza; e o estado policial liderado pelos militares, para imposição do projeto a força – se desenha um “social-liberalismo” de direita, um conservadorismo de massas, que, pelo menos por enquanto, seguirá sendo liderado por Bolsonaro. É a continuidade da República Rentista, agora gerida pela direita.

Assim como nos governos petistas, teremos a manutenção de todas as estruturas de rapina das riquezas nacionais e o alinhamento direto aos interesses imperialistas no Brasil: o fraudulento esquema da dívida dita “pública”, a especulação financeira através da conta de capitais aberta, a especulação de terras e bens naturais através da elite extrativista e das multinacionais, etc. Mas dessa vez, com o pacote completo do neoliberalismo e do Consenso de Washington, de maneira ainda mais agressiva devido ao endividamento do estado durante a crise e a futura necessidade de uma austeridade radical – que já é ensaiada pela mídia hegemônica.

Somado à isso, Paulo Guedes se apropria do legado petista – os programas sociais – como forma de gestão da pobreza, evitando um caos social generalizado e uma taxa de desemprego insustentável. É uma jogada de mestre: ao mesmo tempo eleva a popularidade do governo, dando uma migalha aos miseráveis, e destrói o argumento central da narrativa sebastianista do petismo, que prega um retorno à mítica “era Lula” onde haviam programas de distribuição de renda.

A primeira perna desse projeto é o Renda Brasil, que visa unificar diversos programas sociais e aumentar seu alcance – incluindo os 38 milhões de beneficiários do auxílio emergencial. Como já dissemos anteriormente, esse fato é uma tragédia para o liberalismo de esquerda, que terá sua caridade cristã superada pelo “demônio” Bolsonaro – que atacava, ele próprio, os programas sociais do petismo, como um suposto “incentivo à vagabundagem”, e não como um programa emergencial de segurança alimentar necessário, porém transformado em política eleitoral ao longo de 13 anos.

Por outro lado, há o novo Marco do Saneamento Básico, que segundo Paulo Guedes, destravará a primeira onda de investimentos privados em diversos setores da economia, na casa de R$ 600 bilhões. Isso significará sem dúvidas um aumento marginal no atendimento e alcance de serviços básicos no curto e médio prazo, mas incluirá uma enorme quantidade de privatizações que, no longo prazo, estagnarão o investimento e dilapidarão ainda mais a soberania nacional, já que os investidores privados são estrangeiros (não há capital privado nacional para tal investimento).

Além disso, há também o programa de geração de empregos de Paulo Guedes, que será provavelmente vinculado aos investimentos privados anteriormente citados e também à retomada de obras públicas paradas, tudo isso em associação à Carteira Verde e Amarela, que jogará na lata do lixo diversos direitos trabalhistas conquistados por duras penas pelo movimento operário nacional. Será uma forma de geração de vagas de empregos precarizados, que servirão tanto para conter as taxas elevadas de desemprego e informalidade, quanto para alavancar as taxas de lucros das empresas estrangeiras investidoras. É a manutenção e o agravamento da condição de colônia do Brasil.

Em resumo, o que se desenha é um “social-liberalismo de direita” – uma repaginação do período petista com o sinal trocado e com um alinhamento mais agressivo aos interesses estadunidenses, dado o contexto de declínio do Império. Os programas sociais servirão como válvula de escape e política eleitoral para que a República Rentista, novamente, não entre em colapso completo. Enquanto isso, a “oposição”, completamente desarmada e falida teoricamente, será reservada aos teatros parlamentares e às transmissões nas redes sociais, abrindo caminho nas instituições para a destruição nacional sem um “desmonte democrático”.

A única saída é a construção de um movimento de libertação nacional, que seja intransigente na defesa da soberania brasileira, e a refundação de um radicalismo de esquerda, livre de ilusões e de desvios liberais. Caso contrário, o “social-liberalismo de direita” se perpetuará no poder, e a República Rentista terá vida longa, em prol do sustento do Império decadente.

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