Europa

A ácida reação da mídia ocidental à nova ‘Sputnik’ russa

Via Sputnik, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

A Rússia nomeou a primeira vacina aprovada contra a Covid-19 como Sputnik 5, em homenagem ao satélite soviético, o primeiro a ser enviado ao espaço. Foto via RDIF Press Service.
A Rússia nomeou a primeira vacina aprovada contra a Covid-19 como Sputnik 5, em homenagem ao satélite soviético, o primeiro a ser enviado ao espaço. Foto via RDIF Press Service.

No dia 11 de agosto, a Rússia anunciou a primeira vacina para o coronavírus, chamada de “Sputnik 5”, em uma aposta para inibir a pandemia que já matou mais de 737.000 pessoas ao redor do mundo. Observadores internacionais detalham por que esse marco tem sido recebido pela mídia ocidental com silêncio e rejeição.

Desenvolvida pelo Gamaleya Research Institute of Epidemiology and Microbiology, a vacina russa passou por uma série de testes lançados no dia 18 de junho de 2020, e provou-se eficiente.

Ao contrário de um sentimento de alívio, o anúncio – feito pelo presidente Vladimir Putin na terça-feira – provocou incômodo e ceticismo na mídia hegemônica ocidental: “Moscou está cortando caminhos na testagem para marcar pontos políticos e de propaganda”, alegou o New York Times. O Wall Street Journal expressou preocupação em relação à “segurança” e “eficácia” da vacina russa, enquanto o Guardian afirmou que “o desenvolvimento da Sputnik 5 tem sido marcado por preocupante opacidade e problemas éticos”.

“Uma combinação de inveja e constrangimento”

“Essa reação pode ser caracterizada como um caso de ‘dor de cotovelo’ – significa uma combinação de inveja e constrangimento de que a Rússia se provou muito mais audaciosa do que seus competidores globais, especialmente os Estados Unidos e a Europa, ao enfrentar diretamente a ameaça do vírus à saúde humana e à economia, sem perder tempo”, opinou Gilbert Doctorow, um analista político independente sediado em Bruxelas.

De acordo com Doctorow, muitos dos céticos são geralmente russófobos e detratores, já que conhecem pouco do país e não fazem idéia das conquistas da comunidade científica russa na última década, precisamente na área da imunologia e combate à doenças infecciosas.

Guy Mettan, um político suíço e diretor executivo do Geneva Press Club, não se surpreendeu com o surto da mídia hegemônica do ocidente:

“A razão para tal visão reducionista é uma consequência da russofobia enraizada e os clichês relacionados à Rússia que estão crescendo há uma década”, notou Mettan. “Publicar notícias ruins e negativas sobre a Rússia se tornou tão comum que muitos jornalistas não conseguem imaginar uma mudança de posição, e estão convencidos de que se a Rússia faz algo de bom, é necessariamente uma mentira”.

Recentemente, a Rússia entrou no radar da mídia hegemônica estadunidense e européia devido ao número relativamente modesto de mortes relacionadas à Covid-19, mesmo que muitos países ao redor do mundo demonstrarem taxas de mortalidade ainda menores.

Dado o atual clima das visões ocidentais sobre a Rússia, não é surpreendente que a vacina seja imediatamente rejeitada antes que seus resultados sejam conhecidos, admite Joe Lauria, editor-chefe do Consortium News. “É uma reação precipitada, porém existem razões para um razoável ceticismo científico, já que vacinas levam geralmente anos para ser desenvolvidas”, ele opina.

Os “céticos” pouco conhecem sobre as conquistas científicas da Rússia

Os cientistas russos fornecem uma explicação clara para a incrível velocidade no desenvolvimento da nova vacina: o centro da questão é que ela foi feita com base em uma pesquisa anterior.

Desde os anos 1980, o Gamaleya Centre tem desenvolvido uma plataforma tecnológica utilizando adenovírus, encontrados em adenóides humanas e normalmente transmissores da gripe comum, como veículos, ou “vetores”, que podem transportar um material genético de outro vírus a uma célula.

“Estes são grandes vírus e vetores – toda a parte patogênica foi removida deles e o novo gene inserido”, disse Pavel Volchkov, chefe do laboratório de engenharia genômica do Moscow Institute of Physics and Technology. “Eles fizeram uma vacina em duas partes. Utilizam um único vírus para iniciar a imunização”.

Este método foi usado para criar a vacina contra o letal Ebola vírus em 2015. Os pesquisadores russos realizaram muitos estudos para a seleção da dosagem e dos efeitos colaterais da vacina de dois vetores. A vacina anti-Ebola foi utilizada em milhares de pessoas nos últimos anos, criando uma plataforma comprovada que foi instrumentalizada para o desenvolvimento da vacina de coronavírus.

“Essa quantidade imensa de trabalho, feito anteriormente nos últimos anos, permitiu que os pesquisadores não perdessem tempos em experimentos de otimização, mas mudassem rapidamente para a produção da vacina necessária na dosagem já selecionada, e fizeram isso com relativa rapidez”, explica Volchkov, tratando do ceticismo em relação ao rápido desenvolvimento da Sputnik 5 e sua eficácia.

A grande competição entre empresas e países

Outro fator é a enorme competição entre empresas e países para ser o primeiro a fornecer uma vacina eficiente, aponta Mettan: “Já que muitos países ocidentais, incluindo os Estados Unidos, administraram muito mal a pandemia de Covid-19, será difícil que admitam que fracassaram também na produção de uma vacina apropriada”.

Ignorar o registro da primeira vacina anti-coronavírus do mundo por parte da Rússia e focar as atenções públicas apenas nos eventuais avanços das vacinas promovidas pelas empresas ocidentais é, também, o viés típico da cobertura midiática ocidental em relação aos eventos na Rússia, de acordo com Mettan.

No tocante ao desenrolar da competição, Doctorow perguntou-se se isso importa mais aos olhos dos dirigentes políticos e da mídia ocidental do que a saúde e o bem-estar humanos em meio a uma letal pandemia.

A decisão russa de lançar a tão antecipada vacina merece aplausos, e não as vaias da mídia ocidental, destaca Doctorow, que lamenta o fato que, da mesma forma, “nenhum estado-membro da União Europeia tenha buscado os comprovados medicamentos russas para o tratamento precoce da Covid-19, ou aqueles para o tratamento de estágios avançados da doença, que apresentam risco de morte”.

“Em meio esta pandemia, não temos tempo a perder”, ele ressalta. “Então a verdadeira questão hoje é, você tem confiança e coragem para proceder com a imunização e fazer o que for possível para conter a propagação do vírus, enquanto ele apresenta uma ameaça letal as nossas sociedades?”

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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