EUA

Os crimes estadunidenses contra a humanidade

Por Bill Hackwell and Alicia Jrapko, via Global Research, tradução de Eduardo Pessine, revisão de Flávia Nobre

Foto aérea da explosão nuclear em Hiroshima, Japão. Foto via Universal History Archive.

Esse mês (agosto) marca dois anos anos desde que o ex-presidente da Bolívia, Evo Morales, anunciou ao mundo uma campanha promovida por um grupo de escritores e acadêmicos latino-americanos, para declarar o dia 9 de agosto como o Dia Internacional dos Crimes Estadunidenses contra a Humanidade. O dia foi escolhido para lembrar a segunda bomba nuclear lançada em Nagasaki, no Japão, em 1945, apenas 3 dias após o primeiro bombardeio nuclear em Hiroshima.

Imagine o quão depravado e sanguinário era o então presidente Truman, um Democrata, para, ao descobrir que havia incinerado 150.000 pessoas em um único dia, tomar a mesma decisão em Nagasaki e assassinar instantaneamente outros 65.000 seres humanos. As narrativas históricas estadunidenses amam revirar a verdade ao dizer quantas vidas foram salvas por aquelas bombas nucleares, quando o Japão já havia sido derrotado antes dos lançamentos, após 67 cidades japonesas terem sido arrasadas por impiedosos bombardeios aéreos dos Estados Unidos.

A população de Hiroshima e Nagasaki foi sacrificada por uma proclamação ao mundo, que anunciava a chegada dos Estados Unidos como a nova superpotência mundial. Também serviu como prova de que os EUA cometeriam quaisquer crimes de quaisquer proporções para manter sua posição de domínio imperial, o que vêm repetidamente demonstrando. Até mesmo agora, em seu declínio, os Estados Unidos nunca se desculparam por esse crime desnecessário, já que isso poderia sinalizar fraqueza e um recuo da política de chantagem nuclear contra as nações de todo o mundo. Obama teve a chance que fazê-lo no seu último ano na presidência, quando não tinha nada a perder em uma visita a Hiroshima, em 2016. Ao invés de desculpar-se ao povo do Japão ou reduzir as tensões mundiais, em uma algaravia eloquente e felpuda, ele disse, “Meras palavras não expressam tamanho sofrimento. Mas nós temos a responsabilidade conjunta de olhar diretamente aos olhos da história e perguntar o que devemos fazer diferente para impedir que tal sofrimento ocorra novamente”.

A responsabilidade pela maioria do sofrimento no mundo era e continua sendo da política imperialista e seu inerente motor neoliberal, que sabota violentamente a capacidade dos países de se desenvolverem de modo a garantir saúde e prosperidade em benefício das maiorias. É, ao final, um sistema insustentável que beneficia apenas uma parcela privilegiada da sociedade.

Os crimes estadunidenses contra a humanidade não começaram ou terminaram com os bombardeios nucleares no Japão. Como apontou anos atrás o militante por direitos civis Jamil Abdullah Al-Amin (anteriormente conhecido como H. Rap Brown), “a violência é tão americana quanto torta de cereja”. Desde sua origem, os Estados Unidos foram radicados com uma força motriz de opressão violenta contra tudo e todos os países que entraram no caminho de sua expansão pelo controle de recursos e seu direito ao acúmulo ilimitado de vastas riquezas para poucos.

As treze colônias originais, que se rebelaram contra a Inglaterra, não eram motivadas apenas pela tributação sem representação, mas mais pelas restrições que Rei George III havia colocado sobre a ganância desenfreada dos colonos brancos de expandir e roubar terras das nações e comunidades indígenas e estabelecer um sistema de escravidão – que foi a principal fonte de acumulação capitalista, especialmente nas colônias do sul. No período da revolução, cerca de 20% da população consistia em escravos negros. A escravidão era contrária à Common Law britânica, então a única forma que a emergente classe colonial de proprietários de terras poderia florescer seria a partir da separação do Império Britânico. Com isso, estabeleceu-se um componente central do DNA original dos Estados Unidos: o racismo estrutural como meio de justificar qualquer nível de discriminação e opressão com uma crença profundamente baseada na inferioridade de qualquer raça não-branca e não-cristã. Os brados de Black Lives Matter nas ruas de todas as grandes cidades nos Estados Unidos são um eco de resistência que vem das plantations e dos navios negreiros que chegaram de África.

O genocídio do povo indígena dos Estados Unidos foi sua primeira onda de crimes contra a humanidade, conforme se expandiram ao oeste, destinados por Deus para exercitar seu Destino Manifesto. A história inicial deste país está recheada de centenas de massacres contra os zeladores originais desta terra. E esse crime continua até hoje, com os indígenas sofrendo das maiores taxas de infecção por Covid-19 no país, como resultado direto da negligência do governo e da quebra de acordos que mantém as reservas em brutal situação de pobreza – com algumas áreas até mesmo sem acesso à água encanada.

No dia 21 de julho, o Congresso aprovou um orçamento militar de US$ 740 bilhões, o maior da história e US$ 2 bilhões acima do anterior. Os Estados Unidos têm mais gastos militares do que as próximas 11 maiores forças armadas do mundo combinadas. Uma bem-intencionada, porém débil tentativa de grupos do Partido Democrata de reduzir os gastos militares em 10% e destiná-los à saúde e serviços humanitários fracassou, pois em última instância, o financiamento de 800 bases militares estadunidenses em mais de 70 países ao redor do mundo é mais importante do que algo tão básico e humano como programas de subsídio alimentar. Enquanto isso, aproximadamente 20% das famílias deste país têm dificuldades em obter alimentos nutritivos cotidianamente, apenas como um exemplo das crescentes necessidades sociais e sanitárias.

Guerras e ocupações são caras e seus gastos são um desperdício. Estes gastos não são reciclado através da economia, mas são equipamentos e operações destinadas à destruição e terrorismo, cuja única parte reutilizada é a militarização das forças policiais internas, com equipamentos de guerra não vistos nem mesmo nos cenários de guerra mundo afora.

Ao assumir o cargo após Bush, Obama prometeu dar um fim à guerra no Afeganistão, mas ao contrário, deixou o cargo com a distinta marca de manter o país em guerra durante todos os dias de seus 8 anos de governo. Ele lançou ataques aéreos e invasões militares contra ao menos sete países: Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia, Iêmen, Somália e Paquistão, com Trump dando continuidade à guerra de morte, destruição e desestabilização do Afeganistão até seus 20 anos. O Pentágono sabe que seus dias de fáceis vitórias acabaram, e agora depende de guerras híbridas, que são talvez até mais criminosas. São guerras de atrito com exércitos contratados e mercenários, bombardeios aéreos e sabotagem de infraestruturas que se tornam guerras intermináveis, cujo objetivo é garantir que o país se mantenha desestabilizado e não seja independente para desenvolver e utilizar seus recursos em benefício de seu povo.

Isso não é, é claro, o único tipo de arma criminosa no arsenal do Império. As sanções econômicas são um crime contra humanidade tanto quanto os ataques militares. Ninguém deve esquecer dos 10 anos de sanções da ONU, orquestradas pelos EUA, contra o Iraque na década de 1990, que foram responsáveis pela morte de 500.000 crianças iraquianas. Trump já impôs, primariamente através de ordens executivas, algum tipo de sanção a cerca de um terço dos países do mundo, que variam em severidade, desde o bloqueio unilateral de 60 anos contra Cuba pelo “crime” de insistir em sua soberania, até o bloqueio de medicamentos e alimentos contra a Venezuela, causando a morte de 40.000 pessoas, o roubo descarado de bilhões de dólares em ativos depositados em bancos, e tentativas de golpes contra o presidente democraticamente eleito, Nicolás Maduro.

Agora as galinhas voltaram ao poleiro, com Trump enviando unidades militares obscuras de agentes federais em cidades como Portland, Seattle, e outras, como uma invasão militar de algum pobre país, se intrometendo não para restabelecer a ordem e paz, mas para brutalizar, escalar e provocar manifestantes que demandam justiça e igualdade real há meses. A combinação do fracasso do governo Trump em confrontar a pandemia com qualquer tipo de ímpeto ou plano nacional, a existente crise econômica com sua notória concentração de renda, e o assassinato interminável de negros como política policial comum expôs o sistema como nunca antes. A crescente consciência de uma grande parte da população estadunidense, que parece entender agora que é necessária uma mudança estrutural, será a faísca para que uma mudança real aconteça. Ela não virá de um governo que não reflete seus interesses, mas apenas através de uma unidade na luta, e assim poderemos caminhar em uma direção onde os crimes estadunidenses contra a humanidade, dentro e fora do país, se tornarão coisa do passado.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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