Oriente Próximo

A Hiroshima libanesa

A explosão no porto de Beirute foi um acidente decorrente da negligência e corrupção ou – como afirmou Trump – um ataque deliberado?

Por Abdel Bari Atwan, via Raialyoum, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

O dano causado pela mega-explosão, que destruiu o porto de Beirute no dia 4 de agosto. Foto via AFP.
O dano causado pela mega-explosão, que destruiu o porto de Beirute no dia 4 de agosto. Foto via AFP.

A explosão foi um acidente decorrente da negligência e corrupção ou – como afirmou Trump – um ataque deliberado?

Foi a explosão catastrófica, que matou centenas e feriu milhares de pessoas em Beirute na terça-feira, não um horrendo acidente, mas um ataque deliberado, como caracterizou o presidente estadunidense Donald Trump? Se for o caso, os Estados Unidos e Israel provavelmente são os responsáveis, seja diretamente ou através de seus clientes no Líbano. A ‘teoria da conspiração’ não pode ser descartada neste caso: os mesmos envolvidos já se aliaram em muitas conspirações comprovadas ao longo dos anos, tanto no próprio Líbano quanto em todo Oriente Médio, mais notavelmente no Iraque.

Trump foi virtualmente o único líder no mundo a chamar publicamente o incidente de um “terrível ataque”. Quando questionado sobre sua descrição, ele explicou que seus generais o disseram que a enorme explosão não parecia ser “um evento acidental”, mas “algum tipo de bomba”.

Os porta-vozes do Pentágono recuaram posteriormente e ridicularizaram as alegações do presidente. Mas é improvável que Trump estava apenas improvisando. É mais provável que estava revelando algo que sabe. Ele estava, afinal de tudo, falando do Líbano, um país atualmente sujeito a pressões israelenses e estadunidenses inéditas miradas na sua desestabilização interna e em uma renovada guerra civil, para impor o desarmamento da resistência libanesa – tudo isso em favor de Israel.

Logo após a explosão, um canal de televisão saudita transmitiu uma reportagem “exclusiva” “revelando” que o desastre havia ocorrido em um depósito de armas do Hezbollah, ainda que as autoridades libanesas estivessem afirmando que foi um acidente causado por negligência e má gestão. Isso se provou ser o início de uma campanha orquestrada de incitação contra o Hezbollah pela mídia saudita e do Golfo, culpando a organização e seu amplo eleitorado pela explosão na esperança de uma reação adversa – além de desviar as acusações dos Estados Unidos e Israel.

As investigações sobre a explosão apenas começaram, e levarão ao menos 10 dias ou mais para encontrar respostas conclusivas sobre o que precisamente ocorreu e quem estava envolvido. Enquanto isso, as alegações de Trump, que não foram retratadas, soam a muitos libaneses como uma confissão involuntária.

Sem julgar antecipadamente se foi um acidente ou um ataque, muitas questões sobre a explosão continuam sem resposta. Por que mais de 2.500 toneladas de nitrato de amônia, altamente explosivo, estavam estocados no porto de Beirute? Se, como relatado, a carga foi confiscada de um navio moldavo seis anos atrás, quem era seu dono e por que estava sendo importada, em primeiro lugar? Ela seria enviada à oposição síria, como sugerem alguns relatos? Ou ela seria utilizada para terrorismo no próprio Líbano, para fabricar explosivos e carros-bomba?

E de onde ela veio? Israel possui milhares de toneladas dessa perigosa substância armazenadas no porto de Haifa. Uma remessa foi enviada ao Líbano por terceiros e estocada no porto de Beirute por colaboradores locais, esperando o momento certo para ser usada? Esses agentes locais estavam, deliberadamente ou não, envolvidos no desrespeito às repetidas ordens judiciais para destruição ou realocação da carga?

Nós obviamente ainda não temos respostas para essas questões, mas o governo libanês acertou em deter os altos-funcionários do porto e impedi-los de sair do país durante a investigação.

Este desastre – que devastou metade da capital libanesa, deixou 300.000 pessoas sem teto, e destruiu a maioria de seus estoques de grãos e trigo – era a última coisa que o país precisava. Os libaneses já sofriam com uma terrível crise socioeconômica, o colapso de sua moeda nacional, o surto de coronavírus, as sanções estadunidenses, a frágil situação política interna, e o consequente empobrecimento da vasta maioria da população.

Os corações de centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo estão com o Líbano, especialmente os árabes, que conhecem-no como um farol de liberdade e criatividade e um lugar seguro aos exilados e refugiados que fogem da opressão. Este é certamente o momento para que os ricos estados árabes dêem o apoio que o país tanto necessita, sem as usuais exigências políticas. Isso, no entanto, é dito com mais esperança do que expectativa. Mas a calamidade poderá ter um efeito positivo para o Líbano no longo prazo: poderá ser o prelúdio da remoção dos corruptos e sectários líderes que pilham o país e sugam o sangue e suor de seus cidadãos há mais de um século.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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