EUA

A fome se alastra na maior potência econômica do planeta

Quase 30 milhões de pessoas nos EUA não tiveram o suficiente para comer na semana passada. A fome absoluta atingiu seu nível mais alto desde que o US Census Bureau começou a rastrear os dados em maio deste ano.

Por Ana Araújo e José Martins, via Crítica da Economia

Campanha voluntária de doação de alimentos em Nova Orleans. Foto por William Widmer.
Campanha voluntária de doação de alimentos em Nova Orleans. Foto por William Widmer.

Quase 30 milhões de pessoas nos EUA não tiveram o suficiente para comer na semana passada. A fome absoluta  – chamada de “insegurança alimentar” nas estatísticas oficiais – atingiu seu nível mais alto desde que o US Census Bureau começou a rastrear os dados em maio deste ano, com quase 30 milhões de pessoas relatando que não tinham o suficiente para comer em algum momento nos sete dias até 21 de julho.

Na pesquisa semanal do órgão, o Household Pulse Survey, aproximadamente 23,9 milhões dos 249 milhões de entrevistados indicaram que “às vezes não têm o suficiente para comer” na semana encerrada em 21 de julho, enquanto cerca de 5,42 milhões indicaram que “frequentemente não têm o suficiente para comer”. A pesquisa, que começou com a semana encerrada em 5 de maio, foi publicada nesta quarta-feira (28).

O número de entrevistados que às vezes tinham comida insuficiente estava no ponto mais elevado das 12 semanas da pesquisa. O número de pessoas que muitas vezes experimentaram insuficiência alimentar estava no máximo desde a semana que terminou em 26 de maio.

Insuficiência alimentar nos Estados Unidos

Esse quadro resulta, em primeiro lugar, das condições estruturais de crescente miséria absoluta (correspondente à mais-valia absoluta) nos EUA, depois de vários períodos de crise e de recuperação do capital nas últimas décadas na maior potencia econômica mundial.

Nos últimos dez anos, no decorrer do último período de expansão global, ocorreu no interior do território dos EUA e no das demais economias dominantes do mercado mundial uma inacreditável multiplicação de espaços de produção de mais-valia absoluta como forma de valorização do capital nacional. Uma “terceiro-mundialização” no interior das metrópoles imperialistas.

Um dos resíduos mais importantes desta nova cena econômica no centro do sistema foi uma rápida corrosão e desmantelamento da globalização que funcionava progressivamente desde o final da Grande Guerra (1945) até a eclosão da última crise periódica mundial (2008/2009). Isso muda completamente a ordem das coisas no interior das economias nacionais e na geopolítica do imperialismo. Quase dez anos atrás, a Crítica da Economia foi uma das primeiras a observar essas mudanças na ordem mundial.

O fato, que pode ser observado a olho nu por qualquer transeunte, é que as favelas e marginalidade de grandes parcelas da população aparecem mais nitidamente do que nunca no centro do sistema capitalista mundial. Fome e desemprego para a classe trabalhadora, diminuição da produtividade econômica e alongamento por um período maior da massa e da taxa geral de lucro no ciclo econômico.

Agora, são essas condições estruturais de miséria absoluta que se aprofundam e se manifestam mais claramente neste primeiro semestre de 2020 nos EUA. Na esteira da explosão da mais profunda depressão dos últimos cem anos, que deixou instantaneamente dezenas de milhões de novos trabalhadores desempregados no país. Miseráveis e sem emprego.

Grande parte destes trabalhadores desempregados nos EUA tem recebido nos últimos meses um benefício extra de US $ 600 por semana. Mas essa ajuda para os pobres deve expirar no final deste mês de julho. Enquanto isso, o Congresso, particularmente o Senado dominado pelo partido republicano, ainda debate um novo pacote de ajuda. Uma renovação da esmola oficial. Os republicanos de Trump resistem em renovar esta ajuda. Ou, o que deve acabar ocorrendo, propõem uma diminuição brutal de dois terços destes US$ 600.

Esta recusa dos republicanos de pelo menos amenizar o explosivo problema social no seu país ensejou uma histórica entrevista de Nancy Pelosi, presidente da Câmara de Deputados dos EUA, no programa Face The Nation, CBS News, no último domingo (26/07), à apresentadora Margaret Brennan. Destacamos algumas passagens desta entrevista.

MARGARET BRENNAN: O secretário do Tesouro disse nesta manhã que os republicanos apresentarão um projeto na segunda-feira. Quando você espera começar a negociar?

NANCY PELOSI:  Agora eles estão dizendo segunda-feira. E então, eles vem só agora, quando estamos no limite, quando as pessoas estão com fome em nosso país, crianças, milhões de crianças, são crianças famintas. Muitas famílias que nunca pensaram que iriam a um centro de distribuição gratuita de alimentos estão indo a essas distribuições de alimentos. E precisamos de mais dinheiro para cupons de alimentos e programas de nutrição de emergência. E eles estão resistindo a isso. Estamos prontos há dois meses e 10 dias. Eu estive aqui o fim de semana inteiro esperando que eles tivessem algo a nos dar. Eles prometeram esta semana. Não vieram.

MARGARET BRENNAN: Você permanecerá em sessão até que um acordo seja negociado?

NANCY PELOSI: Nós não podemos ir para casa sem ele. É tão triste que as pessoas tenham essa incerteza em suas vidas. Ao mesmo tempo, eles estão reforçando o mercado de ações. E isso não é uma coisa ruim, mas enquanto temos trilhões de dólares do Fed, etc., para reforçar o mercado de ações – vamos ter apenas uma limitada quantia de dinheiro para fortalecer as famílias trabalhadoras da América.

MARGARET BRENNAN: Bem, mas especificamente sobre o que acabou de expirar, esse aumento de US $ 600 para o desemprego federal. Os republicanos e a Casa Branca estão dizendo que querem continuar com algum dinheiro, mas o reduzem para cerca de 70% dos salários anteriores. Isso é algo que você pode aceitar?

NANCY PELOSI: Bem, deixe-me dizer o seguinte. O motivo de termos US $ 600 foi sua simplicidade. E calculando 70% do salário de alguém. Nem todas as pessoas ganham salário. Talvez eles façam. Eles ganham salários e, às vezes, variam. Então, por que não simplificamos as coisas? Benefícios de desemprego e o aprimoramento, que é tão essencial no momento e é muito importante para o povo americano.

 MARGARET BRENNAN: Certo, eu entendo a dificuldade, mas você aceitaria uma quantia fixa? Algo inferior a US $ 600. Existe acordo aqui?

 NANCY PELOSI:  Teremos nossa negociação, mas como podemos – essas são as mesmas pessoas que pagaram imposto – a única coisa que conseguiram no governo Trump, a única coisa que conseguiram foi uma redução de impostos para as pessoas mais ricas na América. E eles se ressentem de US $ 600 para que as mães solteiras possam colocar comida na mesa, para os pais manterem a dignidade de manter suas famílias intactas e com o seguro-desemprego, com assistência para alugar, ter comida. Esta é uma emergência que talvez eles não entendam. Eu não sei o que eles têm contra famílias trabalhadoras na América…

Essa maneira com que se estabelece atualmente o debate político no parlamento dos EUA reflete uma rapidíssima agudização da luta de classes na vida real do país. E o mais importante de tudo na atual situação: a continuidade da atual depressão econômica nos próximos doze meses será absolutamente determinantes para o desenrolar desta luta de classes e ingovernabilidade na maior potência econômica e militar do planeta.

Outros dados de alta frequência da situação econômica atual, incluindo o número de empregos no Household Pulse, indicam que a forte recuperação econômica dos EUA que os capitalistas e seus economistas esperavam para este 2º semestre de 2020 parece estar abortando. E esse preocupante arrefecimento da recuperação do paciente, ao contrário também do que eles imaginavam, não tem nada a ver com o misterioso Covid19.

Aliás, nota-se nos últimos dias que as pessoas mais inteligentes nas principais praças financeiras globais começam a relativizar a fantasiosa determinação absoluta do Covid19 nos rumos da atual depressão econômica. Timidamente, é verdade, começam a considerar que mesmo com a eliminação da pandemia sanitária (com vacinas, etc.) eles não possam mais evitar a livre expansão da pandemia do capital.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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