Ásia

Denunciar “ambos os lados” no conflito EUA-China é uma falácia

Para desafiar seriamente a Nova Guerra Fria contra a China, a esquerda deve abandonar as equivalências juvenis e trabalhar incessantemente na desestabilização da máquina de guerra estadunidense.

Por Qiao Collective, via Passage, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

As lideranças dos dois países no centro da atual disputa geopolítica, Donald Trump e Xi Jinping. Foto por Damir Sagolj.
As lideranças dos dois países no centro da atual disputa geopolítica, Donald Trump e Xi Jinping. Foto por Damir Sagolj.

Para desafiar a Nova Guerra Fria contra a China, a esquerda deve abandonar as falsas equivalências e desestabilizar a máquina de guerra estadunidense.

Em meio à pandemia e o tortuoso período eleitoral de 2020, os Estados Unidos ensaiam um conflito contra a China. A grosseira retórica trumpiana do “vírus chinês” apenas torna óbvio o existente consenso da classe dominante estadunidense, que por anos tem incentivado uma profunda reorientação da política externa que identifique a China como uma ameaça existencial.

O governo de Barack Obama liderou uma estratégia de “giro à Ásia”, que previa ter 60% da capacidade da Marinha dos Estados Unidos deslocada à frente do Pacífico até este ano. Sob o governo Trump, esse “giro” apenas se intensificou: em abril de 2020, uma lista orçamentária do Comando do Indo-Pacífico pedia por mais de US$ 20 bilhões para manter uma “vantagem militar sobre a China” através de uma expansão massiva de “redes de ataques de precisão”, mísseis e radares ao redor das Ilhas do Pacífico e Oceania.

A todo momento, o governo Trump visou isolar, sancionar e desprezar a China, ordenando os aliados europeus que rejeitem investimentos e tecnologias chinesas, alertando sobre a suposta “guinada agressiva” da China. Enquanto isso, a alegação da campanha presidencial do Democrata Joe Biden de que Trump teria “abanado o rabo” para a China mostra a natureza bipartidária dessa Nova Guerra Fria.

A “ameaça chinesa” tem emergido como a contradição determinante frente a um império americano cada vez mais consciente de seu próprio e presumido declínio. Em resumo, estamos presenciando a disputa entre as classes dominantes de ambos os partidos sobre quem pode ser o “mais forte” no combate contra a China.

Socialistas e anti-imperialistas, especialmente aqueles que vivem em bastiões imperiais como os Estados Unidos e Canadá, têm uma grande responsabilidade em desestabilizar essa agressão em escalada. Entretanto, a esquerda ocidental tem amplamente se unido em torno de uma “terceira via” que não só vê uma escalada mútua no confronto EUA-China, mas também uma “rivalidade inter-imperialista”.

Por exemplo, um ensaio polêmico do principal jornal do Democratic Socialists of America denunciou a China como uma ditadura capitalista, e alegou – sem evidências – que a China está embarcando em nefastas “ambições imperialistas”. Similarmente, a Jacobin prefaciou uma entrevista com o professor e autor Eli Friedman com um advertência aos socialistas, que “rejeitem o nacionalismo tanto de trajes chineses quanto americanos”, enquanto Friedman enquadrou as relações EUA-China como uma “competição étnico-nacional” – uma assombrosa equivalência entre a hegemonia imperialista mundial e uma nação do Sul Global com seu próprio histórico de vitimização nas mãos das potências imperialistas.

O perigoso enquadramento da agressão imperialista estadunidense contra a China como uma escalada mútua entre duas nações supostamente equivalentes mais obscurece do que esclarece, e é na prática um consentimento à propaganda, sanções e escaladas militares anti-China que se manifestam perante nossos olhos.

Uma análise realista dos fatos deixa claro que as tensões entre Estados Unidos e China não são uma batalha por hegemonia, mas uma luta entre a dominação imperialista americana e a soberania e o multilateralismo chinês. É necessário compreender que a escalada americana é parte de uma história de séculos de esforços imperialistas ocidentais para dominar, moldar e controlar a China para seu benefício próprio.

Hegemonia vs. Multilateralismo

Apesar de serem as duas maiores economias do mundo e membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, os Estados Unidos e a China têm poucas semelhanças em termos de sistemas de governo, ideologias dominantes e orientações em relação ao restante do mundo. Até mesmo uma olhada rápida sobre a política externa de ambos os países revela como são diametralmente opostas.

O governo estadunidense – juntamente aos seus think tanks e mídias corporativas auxiliares – se mantém comprometido a uma doutrina dogmática da Guerra Fria, na qual a ascensão de outra “grande potência” que contraria a agenda hegemônica do império americano significa inevitavelmente a competição e o conflito.

No século XX, esta ideologia transformou os Estados Unidos na maior força policial e militar de ocupação do mundo. Até hoje, os Estados Unidos mantém uma incontestável dominância militar do mundo, com um orçamento militar previsto em US$ 750 bilhões para 2020 – mais de três vezes maior que o chinês – e mantendo o número inigualável de 800 bases militares em mais de 70 países.

Por outro lado, a China tem continuamente se comprometido com uma visão de multilateralismo definida por sua teoria de uma “comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade” – um conceito consagrado na constituição por uma emenda de 2018. Essa teoria tem como premissa o respeito mútuo da soberania e integridade territorial, não-agressão, não-interferência, igualdade e vantagens mútuas, e coexistência pacífica. Enquanto a Conferência de Segurança de Munique de 2020 presenciou o Secretário de Estado Mike Pompeo agitando uma confrontação a la Guerra Fria, sua contraparte chinesa, o Ministro Wang Yi, insistiu que os participantes “superassem a divergência oriente-ocidente e a divisão norte-sul”.

Estes princípios não são meramente teóricos, mas estão forjados na própria experiência chinesa de semi-colonização, libertação nacional e solidariedade internacional ao Sul Global. Mao Zedong conhecidamente chamou o movimento de libertação nacional da China de um “internacionalismo aplicado”, reconhecendo que a soberania da China estava ligada intrinsecamente aos movimentos anti-coloniais e proletários ao redor do mundo.

O internacionalismo chinês na prática

É claro, estes nobres princípios não significariam nada além de retórica estatal vazia caso fossem solapados na prática. Entretanto, a China tem consistentemente buscado uma “escalada pacífica” apesar da hostilidade ocidental.

A China não participou de uma guerra em mais de quatro décadas, um período no qual o império americanos têm guerreado aberta e clandestinamente no Iraque, Afeganistão, Líbia e Iugoslávia, entre outros países. Quando os Estados Unidos bombardearam a embaixada chinesa em Belgrado, em 1999, o governo chinês negociou um acordo monetário pacífico, apesar dos massivos protestos anti-americanos em todo o país. E enquanto os gastos militares da China aumentaram significativamente na última década, qualquer anti-imperialista convicto concordaria que a história provou que a manutenção de forças armadas formidáveis é um dos únicos fatores que impedem que o beligerantes império americano realize assassinatos, mudanças de regime ou até mesmo invasões diretas.

A pandemia de Covid-19 revelou que as diferenças entre o imperialismo americano e o multilateralismo chinês são ainda mais severas. Enquanto os Estados Unidos recusaram-se a suspender as cruéis sanções contra o Irã, Coreia do Norte e Venezuela, apesar de seus graves esforços para dar uma resposta à pandemia enquanto estão excluídos dos mercados financeiros globais, a China e Venezuela criaram uma ponte aérea especial para facilitar o fluxo de toneladas de kits de teste, equipamentos de proteção e outros suprimentos médicos para os venezuelanos. A China também enviou múltiplos carregamentos de suprimentos e equipes médicas ao Irã. Uma semana após os ataques aéreos conduzidos pelos Estados Unidos no Iraque, uma equipe médica chinesa desembarcou no país para ajudar no combate à pandemia, treinando médicos em nove províncias e mais do que triplicando a capacidade de testagem do país. Equipes e auxílios similares foram enviados para a Palestina, Síria e muitos outros países.

Apenas este registro deveria dar um fim à falsa equivalência entre as duas nações. Se os socialistas ocidentais não apreciam essa diferença, os povos das nações esmagadas e sancionadas pelos Estados Unidos, porém auxiliados pela China, certamente o fazem.

Ademais, no dia 17 de junho, o presidente Xi Jinping prometeu acelerar a construção conjunta de novos Centros de Controle e Prevenção de Doenças em África, além de uma rede de Hospitais da Amizade China-África – um enorme gesto de solidariedade, que foi apontado cinicamente pelos Estados Unidos como “espionagem”. O anúncio veio semanas após a China se comprometer a aumentar em US$ 30 milhões o financiamento da Organização Mundial da Saúde, após o governo Trump retirar seu apoio, ato que foi criticado pelos líderes da União Africana por erodir o trabalho epidemiológico de longa data da organização no continente.

Enquanto diversos líderes americanos como Hillary Clinton e Pompeo têm taxado os investimentos chineses em África como “neocolonialismo”, uma olhada rápida nos números deixam claro que esta narrativa serve para naturalizar a hegemonia financeira ocidental no continente: até 2017, 41% do investimento estrangeiro direto tinha origem na Europa Ocidental, 19% na América do Norte e apenas 8% da China. Entretanto, o investimento chinês, que é em grande parte estatal e menos suscetível à volatilidade do mercado privado, tem uma taxa proporcional de geração de empregos cerca de três vezes maior do que o estadunidense. Além disso, a China perdoará empréstimos estatais sem juros aos países africanos que vencem até o final de 2020.

Enquanto o ocidente reproduz a narrativa da “diplomacia do endividamento” da China no Sul Global, lideranças sociais em nações como Zâmbia e Bolívia pré-golpe tem, na verdade, encontrado uma alternativa aos empréstimos e a cartilha do Fundo Monetário Internacional (FMI), e uma oportunidade para nacionalizar recursos e indústrias e desenvolver sua produção de valor agregado nacional. Enquanto o FMI e o Banco Mundial oferecem crédito em troca de ajustes fiscais e austeridade estrutural, Xi insiste que o “modelo chinês” não pode ser exportado, reconhecendo que assim como a China trilhou seu próprio caminho e recusou os modelos ocidentais, as nações em desenvolvimento devem dar respostas às suas próprias condições nacionais.

As falsas equivalências encobrem a agressão estadunidense

Rejeitar a falsa premissa de escalada mútua e de rivalidade inter-imperialista não é o mesmo que dizer que a China é um “paraíso dos trabalhadores” ou uma “utopia comunista”. A China tem certamente muitas contradições, incluindo a desigualdade entre cidade e campo, a dependência em relação aos mercados ocidentais e a desigualdade de riqueza. É o mesmo, entretanto, que insistir que cada uma destas contradições têm mais chances de serem resolvidas quando a contradição primária – o imperialismo estadunidense – for superada.

A “guerra comercial” entre Estados Unidos e China, por exemplo, foi instigada pela tentativa americana e canadense de punir a gigante tecnológica chinesa Huawei por violar as sanções contra o Irã. Isso reflete o fato de que a natureza definidora das relações EUA-China é a agressão imperialista americana. Os pontos centrais da guerra comercial – acabar com a restrições chinesas aos bancos estrangeiros, a participação do estado na economia e impor os direitos de propriedade intelectual e sanções ocidentais – são todos projetados para erodir a soberania econômica da China, isolar sua crescente indústria tecnológica e policiar suas relações independentes com outras nações.

Expressivamente, a guerra comercial fez com que os meios de comunicação salivassem com a possibilidade da China “abrir seu mercado financeiro de US$ 45 trilhões” às empresas ocidentais como a American Express e JPMorgan, que penetraram nas políticas protecionistas após concessões da guerra comercial. Não se engane: isso não é rivalidade, mas sim uma tentativa imperialista de conquistar a China novamente.

Em uma nova roupagem pseudo-socialista do fardo do homem branco, os ocidentais de “terceira via” proclamam sua “solidariedade ao povo chinês” eu sua suposta batalha contra seu governo autoritário. Para além de soar muito parecido às proclamações benevolentes dos tipos como Steve Bannon e Pompeo, essas alegações silenciam os 90 milhões de membros do Partido Comunista Chinês, sem mencionar o imenso apoio e confiança nas instituições governamentais comprovadas em diversas pesquisas feitas com a população chinesa.

Equivalências preguiçosas e contrafactuais entre os Estados Unidos e a China servem para encobrir retoricamente a escalada agressiva americana, não apenas contra a China mas contra todas as “nações inimigas”, às quais a China tem fornecido um crítico suporte diplomático e econômico. Apegar-se à pureza ideológica e ao descomprometimento preguiçoso de condenar “ambos os lados” é uma abdicação do poder e da plataforma que acompanham a cidadania imperial.

Para desafiar seriamente a Nova Guerra Fria contra a China, a esquerda deve abandonar essas equivalências juvenis e trabalhar incessantemente na desestabilização da máquina de guerra estadunidense.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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