África

O tabuleiro africano: Israel

Israel tem visto no continente africano uma oportunidade para expandir sua influência, entretanto tem encontrado a resistência dos países muçulmanos.

Por Andrea Chamorro, via Descifrando la Guerra, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Protestos em apoio à Palestina na África do Sul. Foto via AiSur.
Protestos em apoio à Palestina na África do Sul. Foto via AiSur.

“O tabuleiro africano” é uma série de artigos (publicados pelo Descifrando la Guerra) sobre a crescente disputa pela influência política no continente africano.

O continente africano não vive alheio aos processos que se dão nas regiões ao seu redor. As dinâmicas de competição entre as potências do Oriente Médio cada vez mais envolvem um número maior de países africanos como aliados ou que influenciam nos conflitos que se dão em seus territórios.

Israel tem feito grandes esforços para expandir sua influência em África. O porta-voz do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu declarou, “A expansão das relações entre Israel e os países africanos é de grande importância. É uma prioridade importante para o primeiro-ministro aproximar-se dos países que romperam relações com Israel na década de 1970”. Os objetivos do governo se baseiam em conseguir novos aliados no cenário internacional, aumentar seu mercado de exportações e diminuir os apoios à Palestina. Atualmente sua atividade é muito específica e discreta, portanto, não há muitos dados e números sobre suas movimentações.

As ações israelenses em solo africanos passam atualmente por empresas de segurança, ONGs e doadores privados, já que o próprio governo não detém os recursos suficientes para realizar um projeto em larga escala, e por isso tem sido terceirizado. Israel é um grande exportador de armamento e vê em África um mercado em crescimento. Países africanos como o Chade, Níger, Mali, Nigéria e Camarões têm se convertido em compradores de sua tecnologia com a finalidade de combater o terrorismo. A tecnologia para a luta antiterrorista também inclui o assessoramento, pois a mídia queniana assegura que, após o ataque ao shopping Westgate em 2013, Israel assessorou a divisão contraterrorista do país. A tecnologia agrícola também se converteu em um dos principais produtos de exportação, já que os estados africano têm uma grande demanda por tecnologia avançada neste setor.

Entretanto, Israel não tem facilidade para ganhar aliados no continente, já que uma grande parte dos países são de maioria muçulmana e apoiam a Palestina. Todos os países do continente, exceto Camarões e Djibute, reconhecem a Palestina como estado legítimo, e 48 deles mantém relações diplomáticas. A maior parte dos países de maioria muçulmana nunca reconheceram Israel ou removeram seu reconhecimento. A África do Sul também demonstra uma posição hostil contra Israel por suas políticas em relação à população palestina.

Reconhecimento de Israel e Palestina pelos estados africanos. Via Descifrando la Guerra.
Reconhecimento de Israel e Palestina pelos estados africanos. Via Descifrando la Guerra.

Os países de maioria muçulmana constituem um bloco de oposição em organizações internacionais, como a ONU, que dificulta os planos de Israel. Além disso, a estratégia de expansão israelense provoca receios nos países africanos com os quais teve um passado conflituoso, como o caso do Egito. Entretanto, isso não impede o governo de Netanyahu, que busca a normalização das relações diplomáticas com países como o Sudão, de maioria muçulmana e aliado do Egito. Nos dias anteriores ao primeiro tour do primeiro ministro israelense, o jornal Times of Israel traduzia as intenções de Netanyahu, declarando seu desejo de “desmantelar o gigante bloco de 54 países africanos que sempre tornam possível uma maioria automática contra Israel nas Nações Unidas e outras organizações internacionais”.

Nos anos anteriores Israel vinha focando nos países de maioria cristã, que se encontram na região sul do continente, aos quais têm realizado vários viagens. O Quênia foi durante muito tempo seu principal enclave, mas agora tem ampliado seu raio de ação a países como Etiópia e Ruanda. As políticas de aproximação aos países africanos têm tido um relativo êxito, já que retomaram relações diplomáticas com Guiné, assim como a visita do presidente do Chade, Idris Debi, a Tel Aviv e a lenta abertura de embaixadas em treze países africanos.

As relações entre Israel e o continente africanos começaram nos anos 1960, quando este buscava aliados para constituir seu estado e isolar a Palestina, e viu nos países recém independentes uma grande oportunidade de expansão. A Guerra do Yom Kippur foi um ponto de inflexão, já que após a acusação egípcia de que os israelenses haviam ocupado solo africano, a maior parte dos países muçulmanos romperam relações diplomáticas com Israel e retiraram seu reconhecimento. Apenas três estados mantiveram relações formais com Israel: Lesoto, Malaui e Suazilândia. Desde então as relações se mantiveram congeladas durante décadas. Durante os anos 1980, Israel começa a dar passos tímidos de aproximação aos países da África Subsaariana, que se mostraram mais receptivos a estabelecer relações comerciais e diplomáticas.

Em 2015, com a visita de Benjamin Netanyahu, marca-se o início das políticas de aproximação israelenses, sendo o primeiro líder a visitar o continente em 50 anos. Sob o lema “Israel voltou-se a África, África regressa a Israel”, o primeiro-ministro realizou um tour pelo Quênia, Uganda, Etiópia e Ruanda. Netanyahu participou de fóruns africanos de desenvolvimento como, por exemplo, o Fórum Econômico Israel-Quênia. Um ano depois participou do fórum da Comunidade Econômica dos Estados de África Ocidental (CEDEAO), sendo um marco histórico, já que foi o único líder não-africano participante, o que gerou críticas por parte da Nigéria, Níger e Senegal. Além de sua participação nestas reuniões, Israel aspira converter-se em membro observador da União Africana, o que provoca grandes resistências. Ao mesmo tempo, Netanyahu foi convidado a participar de cerimônias de posse de presidentes africanos, como é o caso do líder queniano, com quem possui uma ótima relação. Outras partes do executivo israelense têm se envolvido no estabelecimento de relações diplomáticas com o continente, como é o caso do presidente Reuven Rivlin, a Ministra de Justiça e o Ministro de Agricultura, que visitaram a Etiópia em 2018.

O presidente de Uganda, Yoweri Museveni, fala com o primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Foto por Stephen Wandera.
O presidente de Uganda, Yoweri Museveni, fala com o primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Foto por Stephen Wandera.

A progressão de Israel é muito lenta, já que vai de encontro com a forte oposição dos países alinhados com a Palestina. Isso pode refletir-se na tentativa de organizar uma cúpula Israel-África, similar àquelas organizadas pela França e Rússia. Esta reunião contaria com a maior parte dos estados africanos, com exceção do Magrebe, e teria como objetivo aprofundar a cooperação em matéria de segurança, agricultura e relações diplomáticas. A reunião foi cancelada indefinidamente sem um motivo claro. Entretanto, se especulam pressões por parte de África do Sul e países árabes, já que não se vê como correto uma reunião com um agente que ocupa territórios pertencentes à Palestina. O cancelamento desta reunião supôs um golpe muito duro aos planos de expansão de Israel, que teve de readaptar sua estratégia e torná-la mais sutil e discreta.

Israel tem visto no continente africano uma oportunidade para expandir sua influência, entretanto tem encontrado a resistência dos países muçulmanos. Isto tem obrigado o país a desenhar uma estratégia totalmente diferente do restante dos estados que também buscam uma maior influência na região. Porém, parece render frutos, em passos muitos cautelosos, uma vez que já mudou a mente de vários países e estabeleceu laços comerciais, apesar do não-reconhecimento. Os acontecimentos dos próximos anos no Oriente Médio e em África determinarão se Israel poderá alcançar seus objetivos.

Leia mais: série de artigos O tabuleiro africano.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: