Europa

O tráfico de drogas colonial e o Império Britânico

Por Michel Chossudovsky, via Global Research, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Usuários de ópio na China. Gravura de G. Paterson, meados do século XIX.
Usuários de ópio na China. Gravura de G. Paterson, meados do século XIX.

Através da resolução 42/112 de dezembro de 1987, a Assembléia Geral da ONU decidiu definir o dia 26 de junho como o Dia Internacional contra o Abuso e Tráfico de Drogas, como uma expressão de sua determinação em fortalecer a ação e cooperação no objetivo de uma sociedade internacional livre do abuso de drogas.

Conscientizar?

Apesar de raramente reconhecido, o tráfico de drogas (“legal”) foi iniciado pelo Império Britânico. E há continuidade. O rótulo colonial foi abandonado. Hoje, o comércio de drogas (“ilícitas”) é uma operação multibilionária.

Os dois principais centros de produção atuais são:

• O Afeganistão, que produz aproximadamente 90% do ópio do mundo (transformado em heroína e outros opióides). Houve um programa bem-sucedido de erradicação das drogas em 2000-2001, que foi iniciado (com apoio da ONU) anteriormente à invasão estadunidense em outubro de 2001. Desde a ocupação militar, de acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, em inglês), a produção de ópio aumentou em 50 vezes, chegando a 9.000 toneladas em 2017.

• A região andina da América do Sul (Colômbia, Peru e Bolívia), produtora de cocaína. A Colômbia é um narco-estado apoiado pelos Estados Unidos, e sua cocaína abastece o mercado estadunidense, com uma grande parte transitando através do México. Os cartéis mexicanos cumprem um papel central neste comércio.

A economia da droga é uma parte integrante da construção imperial, e o tráfico de drogas é protegido pelas Forças Armadas e pelo aparato de inteligências estadunidense.

O papel do Império Britânico

Historicamente, o tráfico de drogas foi elemento constituinte do colonialismo britânico. Ele era “legalizado”.

O ópio produzido em Bengala pela British East India Company (BEIC) embarcava para Cantão, no sul da China.

“A exportação de ópio patrocinada pelo Estado, da Índia britânica à China, foi possivelmente a maior e mais duradoura operação de tráfico de drogas da história. Em seu pico, em meados do século XIX, ela totalizava cerca de 15% do total das receitas coloniais e 31% das exportações da Índia. Para suprir esse comércio, a East India Company (EIC) – e posteriormente o governo britânico – desenvolveu um sistema de cultivo altamente regulado no qual mais de um milhão de produtores estavam sob contrato para cultivar papoulas de ópio por ano.

(…)

O sistema garantia que os produtores não partilhassem dos grandes lucros do comércio de ópio. Dado seu poder monopsonista, as agências de ópio podiam ‘manter o preço do ópio bruto na beira da viabilidade econômica’”. (Jonathan Lehne, 2011)

“Pesagem do ópio em uma fábrica estatal, Índia”
“Pesagem do ópio em uma fábrica estatal, Índia”

Apesar da fatia de terras agricultáveis alocadas ao ópio ser relativamente pequena, sua produção sob o jugo colonial foi todavia condutora do empobrecimento da população indiana, desestabilizando o sistema agrícola, além de causar diversas fomes.

De acordo a uma reportagem incisiva da BBC:

“O cultivo de ópio ocupava entre um quarto e metade das terras dos camponeses. Ao final do século XIX, a produção do ópio impactou a vida de cerca de 10 milhões de pessoas, onde hoje se encontram os estados de Uttar Pradesh e Bihar.

O tráfico era controlado pela East India Company, a poderosa corporação multinacional de comércio que detinha uma carta real que lhe cedia o monopólio dos negócios na Ásia. Esse comércio gerido pelo estado foi conquistado através de duas guerras, que forçaram à China que abrisse as portas ao ópio britânico-indiano.

As rígidas metas de produção definidas pela Agência do Ópio também significava que os produtores – tipicamente pequenos camponeses – não podiam decidir se produziam ou não o ópio. Eles eram forçados a entregar parte de sua terra e trabalho à estratégia de exportação do governo colonial”.

Fábrica e estoque de ópio da Companhia Britânica das Índias Orientais (BEIC) em Patna, Índia, meados do século XIX.
Fábrica e estoque de ópio da Companhia Britânica das Índias Orientais (BEIC) em Patna, Índia, meados do século XIX.

A China e as Guerras do Ópio

Quando o Imperador Daoguang, da dinastia chinesa Qing, ordenou a destruição dos estoques de ópio no porto de Cantão (Guangzhou) em 1838, o Império Britânico declarou guerra à China sob a justificativa de que ele estava obstruindo a “livre circulação” de mercadorias.

O termo “tráfico” se aplica aos britânicos. Ele foi admitido e apoiado durante o reino da Rainha Vitória (1837-1901). Em 1838, 1.400 toneladas de ópio foram exportadas por ano da Índia à China. Na esteira da Primeira Guerra do Ópio, o volume de exportações (que continuaram até 1915) aumentou dramaticamente.

A chamada Primeira Guerra do Ópio (1838-1842), que representou um ato de agressão contra a China, foi seguida pelo Tratado de Nanquim (1842), que não só protegeu as exportações britânicas de ópio à China, mas também garantiu direitos extraterritoriais à Inglaterra e outras potências coloniais, levando à “abertura dos portos”.

Os lucros massivos do comércio de ópio foram usados pelo Império Britânico para financiar suas conquistas coloniais. Atualmente isso seria chamado de “lavagem de dinheiro do tráfico”. O dinheiro do ópio também foi usado para financiar o Hong Kong and Shanghai Banking Corporation (HSBC), estabelecido pela BEIC em 1865 na esteira da Primeira Guerra do Ópio.

Em 1855, Sir John Bowring negociou, em nome do Império Britânico, um tratado com o Rei Mongkut (Rama IV) do Sião, intitulado Tratado Anglo-Siamês de Amizade e Comércio (abril de 1855), que permitiu a importação irrestrita de ópio ao Reino do Sião (Tailândia).

Ainda que o comércio britânico de ópio na China tenha sido abolido em 1915, o seu monopólio sobre o tráfico de drogas continuou até a independência da Índia em 1947. Companhias filiadas à BEIC, como a Jardine Matheson também desempenharam papel importante no comércio de drogas.

Racismo, Narcóticos e Colonialismo

Os historiadores se focaram no Comércio Triangular do Atlântico: escravos exportados da África pelas potências coloniais às Américas, seguido pela exportação de matérias-primas das plantations escravistas de volta à Europa.

O tráfico de drogas colonial britânico tinha estrutura triangular semelhante. O ópio produzido em plantações coloniais por camponeses miseráveis em Bengala era exportado para a China, cujo lucro (pago em moedas de prata) eram utilizados largamente para financiar a expansão imperial britânica, incluindo a mineração na Austrália e África do Sul.

Nenhuma compensação foi paga às vítimas do tráfico de drogas do Império Britânico: os camponeses empobrecidos de Bengala, o povo indiano e chinês.

Junto com comércio atlântico de escravos, o tráfico de drogas colonial constitui um crime contra a humanidade.

Ambos os tráficos de escravos e de drogas foram sustentados pelo racismo. Em 1877, Cecil Rhodes apresentou um “projeto secreto” que consistia na integração dos impérios britânico e estadunidense em um único Império Anglo-Saxão “Supremacista Branco”:

“Eu defendo que somos a raça mais fina do mundo… Observe aquelas partes do mundo atualmente habitadas pelas mais repugnantes espécies de seres humanos… Porque não deveríamos formar uma sociedade secreta… para tornar a raça anglo-saxã um único Império…

África se mantém pronta para nós, e é nosso dever tomá-la… É nosso dever tomar qualquer oportunidade de adquirir mais territórios, e devemos manter em mente a idéia de que mais território significa mais da raça anglo-saxã, mais da melhor, da mais humana, mais honrada raça que o mundo possui.”

Existe uma continuidade entre a “guerra às drogas” colonial liderada pelo Império Britânico e as atuais estruturas do narcotráfico: o Afeganistão sob ocupação militar estadunidense, o narco-estado na América Latina.

Atualmente, o tráfico de drogas é um negócio multi-trilionário. O UNODC estima que a lavagem de dinheiro de drogas e outras atividades criminais são da ordem de 2 a 5% do PIB mundial, entre 800 bilhões e 3 trilhões de dólares, que são lavados através do sistema bancário global.

Lembremos do escândalo do crack revelado em 1996 pelo jornalista Gary Webb. O crack era vendido às comunidades afro-americanas de Los Angeles.

Desde 2001, a venda de heroína e opióides tem sido cada vez mais utilizada como arma para a manutenção do racismo, pobreza e desigualdade social. Enquanto o tráfico de drogas atual é fonte de enriquecimento, o vício em drogas, incluindo o uso de heroína, opióides e sintéticos explodiu em 2001, com 1.779 americanos mortos como resultado de overdoses de heroína. Em 2016, o vício em heroína resultou em 15,446 mortes.

Essas vidas poderiam ter sido salvas caso os Estados Unidos e seus aliados da OTAN não tivessem invadido e ocupado o Afeganistão em 2001.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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