EUA

Estejamos atentos ao lobo em pele de cordeiro

Se aproximam as eleições presidenciais nos Estados Unidos e com isto, como é habitual, a possibilidade de eclosão de uma nova guerra e intensificação de outras, alguma agressão através de um atentado direto ou de falsa bandeira.

Por Pablo Jofré Leal, via Rebelión, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

A aproximação das eleições presidenciais dos Estados Unidos representam uma ameaça de guerra contra as nações anti-imperialistas de todo o mundo. Foto por Brendan Smialowski.
A aproximação das eleições presidenciais dos Estados Unidos representam uma ameaça de guerra contra as nações anti-imperialistas de todo o mundo. Foto por Brendan Smialowski.

Se aproximam as eleições presidenciais nos Estados Unidos e com isto, como é habitual, a possibilidade de eclosão de uma nova guerra e intensificação de outras, alguma agressão através de um atentado direto ou de falsa bandeira.

Este é o panorama que ameaça alguns países do mundo: Irã, Venezuela, Coreia do Norte, Rússia e China, principalmente, em confronto com o governo Trump e a política belicista característica dos governos estadunidenses. Uma realidade com fatos concretos, implementados e com efeitos visíveis tais como a intensificação das sanções contra os mencionados governos e povos, catalogados como “perigos para a segurança nacional dos Estados Unidos” ou como uma “ameaça excepcional” com ações violadoras do direito internacional. Somando também o apoio de Washington aos crimes sionistas contra o povo palestino e da monarquia saudita contra o povo iemenita.

No caso específico da chamada “política de pressão máxima” contra a República Islâmica do Irã, esta é uma das linhas centrais da política externa estadunidense, implementada pela violação por parte da Casa Branca do Plano Integral de Ação Conjunta (JCPOA, em inglês), que no último dia 14 de julho completou 5 anos desde sua assinatura na Suíça. Uma pressão máxima que implica em sanções econômicas, tecnológicas, financeiras, sanitárias, congelamento de bens nacionais persas e a ameaça de impedir a suspensão das sanções no campo militar, que devem terminar no próximo mês de outubro, mas se converteu nas mãos de Trump em uma ferramenta eleitoral para satisfazer o complexo industrial-militar, que necessita para seu desenvolvimento e mercado de armas que o mundo esteja em constante desestabilização.

O sintomático é que além das sanções unilaterais que leva a cabo contra o Irã, os Estados Unidos incentivam seus aliados, especificamente os países europeus signatários do JCPOA (França, Reino Unido e Alemanha) para que também se somem a essa política de pressão máxima, sob pena de sofrerem as medidas coercitivas de um governo questionado internacionalmente pelo assassinato do General Qasem Soleimani, comandante das forças Quds da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, morto em território iraquiano por mísseis lançados por bases estadunidenses no país, que receberam resposta contundente do Irã como represália ao crime.

No caso da Federação Russa, a pressão contra a nação euroasiática se expressa de múltiplas formas, das quais a mais perigosa é a militar. Isto, através da exigência de Washington aos seus sócios europeus, agrupados na OTAN, para que aumentem o gasto do PIB em defesa para 2% antes de 2024, e posteriormente para até 4%. Quinze países do total de 29 que conforma a União Européia já apontaram que subirão sua porcentagem do PIB por demanda dos Estados Unidos. Tudo isso com o objetivo de fortalecer a OTAN, o que implica, necessariamente, o aumento da compra de armas, equipamentos e sistemas de segurança estadunidenses. Trump tem sido categórico com os países europeus em obrigá-los a assumir esse custo econômico, incluindo a decisão de diminuir significativamente os efetivos militares estadunidenses em solo alemão, uma redução de 35.400 tropas para 25.000, que seriam enviados à Polônia, parte da estratégia de pressão contra a Rússia.

O plano inescrupuloso foi estabelecido pelo chefe do Pentágono, Mark Esper, que tem feito chamados permanentes aos seus sócios europeus para fortalecer a OTAN com o objetivo de “dissuadir a Rússia e assim potencializar nossos sócios como esperamos”. Um objetivo que implica a ampliação das capacidades de combate da OTAN que deve se assegurar com a contribuição de ao menos 2% de seu PIB destinado à defesa. “Temos progredido muito nisso nos últimos dois anos, mas precisamos ir além”, afirmou Esper, que não tem poupado esforços para que o cerco contra a Federação Russa se amplie através de fronteiras militarizadas e um enfrentamento mais direto entre Rússia e Ucrânia, através de provocações territoriais e sanções que apelam a um suposto apoio de Moscou aos movimentos separatistas do leste ucraniano – dos quais 90% são russófonos.

Esper, como Secretário de Defesa de Trump, delineou uma política que contempla tanto a Federação Russa quanto a República Popular da China como perigos para os Estados Unidos e o mundo. “Está cada vez mais claro que Rússia e China querem perturbar a ordem internacional mediante o veto das decisões econômicas, diplomáticas e de segurança de outros países”. No caso específico da nação norte-americana, Esper consigna que os governos de Putin e Xi são um perigo para a defesa, economia e segurança e que devem ser anulados. A China é considerada uma ameaça em matéria comercial e tecnológica, o que explica as decisões contra a empresa Huawei, as acusações de guerra cibernéticas que Pequim tem impulsionado contra os Estados Unidos e a guerra econômica e tarifária iniciada por Washington desde junho de 2018.

Na mesma região, em relação à Coreia do Norte, os Estados Unidos aumentam sua pressão militar enviando aviões espiões, ao mesmo tempo que trata de mostrar uma cara amável, chamando um diálogo com o governo de Kim Jong Un, que tem se mostrado em vão. Como apoio a essa política de pressão contra a Coreia, Washington se vale também do Reino Unido, que para não ficar para trás, colocou em sua lista negra de indivíduos e entidades sancionadas os escritórios do Ministério de Segurança de Estado e do Ministério de Segurança Popular norte coreanos, participando da política hostil do governo Trump.

Um conflito que também tem elementos de tensão militar, sobretudo quando a referência é o Mar do Sul da China, a península coreana e as pressões exercidas por Washington com ajuda de seus aliados na região (Austrália, Japão e Coreia do Sul), e o apoio estadunidense aos grupos opositores em Hong Kong, acusando a China de esforços expansionistas e de assediar a região administrativa especial mediante a imposição de uma elite que castiga os atos considerados separatistas, o que determinou que Washington retirasse de Hong Kong o tratamento preferencial em matéria econômica.

Pequim contestou, através do Embaixador da China nos Estados Unidos, Cui Tiankai, que afirmou, “Washington deve reconhecer a realidade de uma China forte, onde temos o direito legítimo de converter nosso país em um estado modernizado, forte e próspero, assim como qualquer outra nação do mundo. Estão os Estados Unidos dispostos a conviver em paz com outro país com uma cultura muito diferente, um sistema político e econômico muito diferente, e cooperar nos numerosos desafios globais que seguem crescendo?”. A pergunta ainda não foi respondida, mas foi vista como negativa, principalmente porque a estratégia eleitoral adotada pela equipe de Trump optou por dois focos de ataque: Joe Biden e Pequim, principalmente, e Rússia, Venezuela e Irã como focos secundários, visando conseguir apoio para um regime com baixa adesão popular.

Em relação à Venezuela, a política de pressão máxima já possui diversos retratos que mostram as tentativas de Washington de derrubar o governo do presidente Nicolás Maduro, castigar sua população, executar operações militares através de mercenários e desertores do exército bolivariano, além de ampliar de forma brutal o embargo, as sanções, e inclusive o roubo de recursos financeiros venezuelanos no estrangeiro, como ocorreu com os 1,2 bilhões de dólares em ouro em uma entidade financeira britânica. Recordemos que em março deste ano, coincidente com o aniversário de falecimento do comandante Hugo Chávez, Trump ordenou pelo quinto ano consecutivo, a renovação do decreto que assinala a Venezuela como “uma ameaça excepcional aos Estados Unidos”. Um decreto que teve sua origem no governo do ex-presidente Barack Obama, mostrando que a suposta diferença da política externa entre republicanos e democratas é simplesmente uma fábula.

Em seu trabalho contra a nação sul americana, os Estados Unidos se valem do apoio de regimes como de Boris Johnson, que amparado pela própria justiça britânica, espoliou o ouro venezuelano mantido no Banco da Inglaterra, argumentando o reconhecimento do autoproclamado presidente Juan Guaidó e um suposto poder sobre os bens venezuelanos. Tal como demonstrei no artigo “Gran Bretaña y su esencia de Bucanero”, tornou-se evidente que “a ilha européia mostra que sua monarquia constitucional, o governo presidido pelo conservador Boris Johnson e seus sermões de defesa do modelo ocidental de democracia, em relação ao respeito à legalidade internacional, têm comportamentos similares e até mesmo piores, em nível de delinquência, que seu primo estadunidense”.

Devemos estar alertas, não podemos esperar nada de bom de um política estadunidense baseada na agressão, na busca da submissão e menosprezo à soberania dos povos. Não é possível esperar nada positivo de um governo que pretende enfrentar sua crise sanitária, econômica e social apelando à agressão contra os países que se levantam com dignidade e independência. Um mundo que, através de algumas nações, decidiu combater o imperialismo decadente, com uma hegemonia que não resiste ao ímpeto dos numerosos povos que reivindicam um lugar preponderante no cenário mundial, não com base no poder imposto, mas sim através de relações internacionais onde as mesma leis que concebemos como povos se cumpram. Não é utópico pensar nisto; está estabelecido, é o marco legal que nos rege, entretanto, “dormimos ao sonho embrutecedor de um imperialismo que atua como o ópio, como uma droga que nos paralisa e nos cega”.

A unilateralismo estadunidense exige nosso objetivo de multilateralismo. A agressão exige uma frente comum, e revela que aqueles que se gabam de seu modelo democrático são simplesmente mentirosos, corsários, piratas e violadores das leis internacionais, que exigem sua aplicação em relação aos outros, mas se recusam a cumpri-la quando suas intimidações e violações são expostas. Hoje, mais do que nunca, alguns meses antes das eleições presidenciais dos Estados Unidos, devemos estar atentos ao lobo em pele de cordeiro.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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