Oriente Próximo

Quem suspenderá as sanções contra a Síria: Trump ou Biden?

Por Steven Sahiounie, via Mideast Discourse, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Barack Obama, Joe Biden e Donald Trump, três dos responsáveis pela destruição da Síria. Foto por Paul J. Richards.
Barack Obama, Joe Biden e Donald Trump, três dos responsáveis pela destruição da Síria. Foto por Paul J. Richards.

Quando Barack Obama começou seu ataque contra a Síria em março de 2011, ele imaginava que o presidente sírio Bashar al-Assad seria retirado do cargo, assim como Ben Ali da Tunísia e Mubarak do Egito. Mais que isso, Obama subestimou o apoio a Assad, tanto interno quanto externo. Muitos analistas afirmaram que foi a comunidade sunita na Síria que segurou o país e preservou sua unidade ao apoiar Assad durante os dez anos de conflito. As democracias ocidentais gostam de ressaltar o fato de Assad fazer parte de uma seita minoritária em meio a uma maioria sunita de 80%, o que prova que não compreendem a Síria e nem sua sociedade, além de expor seu preconceito contra minorias enquanto as inclusivas democracias ocidentais fingem ser justas. A Síria é uma nação secular composta de 18 seitas e liberdade religiosa. Judeus, cristãos e muçulmanos vivem lado a lado; ao menos até a chegada dos terroristas em Daraa através da fronteira com a Jordânia, em março de 2011.

O objetivo da guerra da OTAN contra a Síria, a “mudança de regime”, era romper a aliança Teerã-Bagdá-Damasco-Beirute (TBDB). Assad e a maioria dos sírios são comprometidos com a resistência contra a ocupação da Palestina. Essa ideologia de resistência está entranhada na memória nacional síria. Algumas nações árabes abandonaram a causa palestina, como a Jordânia, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes. A Síria, Líbano, Iraque e seu vizinho Irã possuem um comprometimento de longa data com a resistência. A Síria sofreu a ocupação das Colinas de Golan e diversos ataques balísticos sem retaliação. A pequena nação do Líbano, entretanto, foi provavelmente a que mais sofreu, com a brutal ocupação militar do sul do país por 23 anos, com os muros da Prisão de Khiam marcados com tenebrosas história de milhares de homens, mulheres e crianças que sofreram anos de tortura, muitos até a morte.

A aliança TBDB é o “balão de oxigênio” da resistência e poderia se tornar instantaneamente em uma via principal de comércio e turismo caso “Israel” garantisse aos palestinos seus direitos humanos e civis. Um ou dois estados, o que ambos os lados concordem, e o conflito iria diretamente às páginas dos livros de história.

Se o plano no ocidente é romper a aliança TBDB, o plano do oriente deve ser então romper a ligação que une Estados Unidos e Israel. A contínua exposição da opressão criminosa e desumana do povo palestino nas mãos do aliado dos Estados Unidos, “Israel”, penetrará nas mentes dos eleitores democráticos do ocidente até que exijam que o Congresso pressione Israel que liberte a Palestina.

Trump concorreu em 2016 com a promessa de trazer a tropas americanas de volta para casa e acabar com o envolvimento estadunidense na Síria, iniciado por Obama. Muitos cristão acreditavam que o dias de apoio estadunidense aos terroristas filiados ao radicalismo islâmico, uma ideologia política, haviam chegado ao fim. Após tomar posse Trump cumpriu muitas de suas promessas, e em 2017 deu fim ao “Timber Sycamore”, programa secreto da CIA. Obama destruiu a Síria e é responsável por centenas de milhares de mortes, mas ele nunca invadiu o país. Ele teve a chance em 2013, mas após o laboratório britânico de Portadown informá-lo que as amostras do gás em Ghouta Oriental não eram de fontes do governo sírio, ele recuou o ataque planejado. Isso provou que a procuradora da ONU, Carla del Ponte, estava correta quando afirmou que foram os terroristas oportunistas que jogaram a carta da “linha vermelha” de Obama.

Trump ordenou a invasão da Síria sob a justificativa de combate ao ISIS. Enquanto o aliado de Trump, o turco Erdogan, apoiava o ISIS, os Estados Unidos, Rússia e Síria os combatiam. Trump recusou uma parceria com a Rússia e Síria, que já estavam no campo de batalha, mas insistiu em um custoso plano para treinar e apoiar separatistas curdos no nordeste da Síria, apenas para abandoná-los ao final do conflito.

O ex-vice-presidente Joe Biden pode não tem sido o idealizador da guerra contra a Síria, mas foi um dos líderes da parceria que devastou o país e o deixou sem perspectiva, graças às sanções impostas pelos EUA, que impedem sua reconstrução, a compra de suprimentos para combate a pandemia e medicamentos para quimioterapia. O secretário-geral da ONU, António Guterres disse, “Eu estou incentivando a suspensão de sanções impostas contra países para garantir o acesso a alimentos, suprimentos e apoio médico para a Covid-19. Este é um momento de solidariedade, e não exclusão”, e acrescentou, “Lembremos que somos tão fortes quanto o sistema de saúde mais frágil em nosso mundo interconectado”.

Caso Trump seja reeleito em novembro de 2020, ele suspenderá as sanções e removerá as tropas da Síria? Sua reeleição permitiria que a Síria realizasse suas eleições presidenciais de 2021 em paz? Com as sanções suspensas, a Síria poderia importar os medicamentos e suprimentos que necessita para combater a pandemia e ter acesso a outros produtos que não são produzidos internamente, e que agora são proibidos de serem comprados por civis sírios.

Seymour M. Hersh escreveu The Red Line and the Rat Line, onde detalhou as rotas de abastecimento de armamentos estadunidenses de ponta da Líbia à Turquia. O assassinato brutal do embaixador americano Christopher Stevens, no dia 11 de setembro de 2012 em Benghazi, expôs o envolvimento do governo Obama no armamento de terroristas da Al-Qaeda para lutarem na Síria, pela mudança de regime. Joe Biden confrontou o monarca do Qatar, Sheikh Hamad bin Khalifa Al-Thani, que supostamente disse, “Se eu pudesse escolher entre Assad e Nusra, eu ficaria com Assad”.

Na Harvard’s Kennedy School of Government, em 2014, Biden afirmou, “Nossos aliados na região eram nosso maior problema na Síria. Os turcos eram grandes aliados, e eu tenho uma ótima relação com Erdogan, com quem eu passei muito tempo, e os sauditas, os Emirados, etc. O que eles estavam fazendo? Estavam tão determinados em derrubar Assad, e ter essencialmente uma proxy war entre sunitas e xiitas, que fizeram o que? Jogaram centenas de milhões de dólares e dezenas de toneladas de armas em qualquer um que lutasse contra Assad – que eram, entretanto, a Al-Nusra e a Al-Qaeda, e os jihadistas extremistas que vinham de outras partes do mundo”.

Tanto Trump quanto Biden reconheceram que os Estados Unidos usaram terroristas filiados ao radicalismo islâmico para a mudança de regime na Síria. Não está claro se Trump ou Biden se importam com o fim do sofrimento dos sírios, ou se continuam a ajudar apenas uma pequena província, Idlib. O sofrimento de cerca de 14 milhões de sírios que vivem em Damasco, Hama, Homs, Aleppo e Latakia podem não estar na mente dos eleitores estadunidenses, e nem de ambos os candidatos.

Em novembro de 2020, os eleitores americanos escolherão entre Biden e Trump, e provavelmente, ficarão com Biden.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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