Ásia

A Huawei e o mantra da segurança

Por Xulio Ríos, via Observatorio de Política China, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

A ‘segurança’ se tornou a narrativa do imperialismo para barrar a expansão da infraestrutura chinesa do 5G. Foto por Mark Schiefelbein.
A ‘segurança’ se tornou a narrativa do imperialismo para barrar a expansão da infraestrutura chinesa do 5G. Foto por Mark Schiefelbein.

O repetido argumento da segurança nacional para encurralar a tecnologia da Huawei parece um conto chinês, e dá a impressão de que qualquer tecnologia desenvolvida pela China tem problemas desta natureza. Mas onde estão as provas? Dentre os quase 200.000 funcionários da empresa, não conseguiram subornar nenhum que vazasse essas informações? Não há evidências, apenas suspeitas intencionadas, cuja busca ocorre muito intensamente. E, paradoxalmente, isso ocorre após 2012, quando Edward Snowden confirmou a presença de espiões nas equipes estadunidenses enviadas à China e a existência de um massivo programa de espionagem coordenado pela NSA. Isso sim está provado. A única evidência concreta é que a tecnologia da Huawei é altamente competitiva e coloca a China na frente da disputa – e é isso que buscam impedir, classificando-a como uma “ameaça de segurança”.

Os antecedentes dos Estados Unidos em relação à repressão de qualquer empresa estrangeira que desafie sua liderança tecnológica são compatíveis com a contundência de sua pressão. Mas isso é política comercial, e não de segurança. Neste contexto, a prisão de Meng Wanzhou no Canadá, a diretora financeira da empresa chinesa, é semelhante ao caso de Frederic Pierucci, ex-diretor da francesa Alstom, um gigante da eletricidade e transporte. Pierucci foi preso em 2012 nos Estados Unidos pelo envolvimento em um caso de corrupção na Indonésia (e não em território estadunidense). Foi o gatilho para uma sequência de litígios que culminou na aquisição parcial da Alstom pela estadunidense General Electric, bloqueando a possibilidade de uma fusão entre a empresa francesa e a Shanghai Electric Company. Dessa forma, os Estados Unidos obtiveram o controle da manutenção de todas as centrais nucleares francesas… e nada foi dito. A prisão de Meng Wanzhou não é coincidência, é parte desta mesma política. Na época, Trump chegou a propor intervir em seu processo de extradição caso a China melhorasse sua oferta para alcançar um acordo comercial. Pierucci, que contou sua experiência no livro The American Trap, reconheceu há alguns meses que os Estados Unidos estão usando uma estratégia similar contra a Huawei, comportando-se como um verdadeiro assassino de empresas rivais.

A gravidade do caso nos remete à imposição de um bloqueio científico e tecnológico crescente para obstaculizar o desenvolvimento da indústria chinesas de tecnologia de ponta. Se esse caminho continuar, a dissociação e o desacoplamento tecnológico podem se tornar uma realidade inevitável. Consciente do risco e da ameaça que supõe para a sobrevivência da empresa, a Huawei se “desamericaniza” a passos largos. A China já está investido fortemente para produzir chips de última geração para evitar a atual dependência em relação aos fabricantes estadunidenses (no último abril, a desenvolvedora de chips HiSilicon da Huawei superou a Qualcomm e se tornou pela primeira vez a principal fornecedora de chips para smartphones na China e espera-se que em 2025, 70% dos microprocessadores utilizados na China sejam produzidos localmente).

Os Estados Unidos têm mantido sua posição tecnológica dominante durante décadas, e acusa a China de tentar desbancá-los com práticas abusivas. Mas o certo é que a China tem realizado enormes investimentos e desenvolvido políticas audaciosas que tem contribuído significativamente para o salto que testemunhamos atualmente, e por isso está prestes a eclipsar os EUA na rápida implementação de tecnologias como o 5G. No final de 2019, a China já contava com 150.0000 estações de 5G (160.000 no final de fevereiro deste ano), contra apenas 10.000 nos Estados Unidos. O uso comercial do 5G em grande escala dentro da rede de telecomunicações de 50 cidades já tem fidelizado cerca de 13 milhões de usuários.

A estratégia da China para ampliar seus talentos em ciência e tecnologia tem se baseado na melhora da educação e a atração de talentos do estrangeiro. A reforma educacional neste campo se evidencia na quadruplicação do número de engenheiros qualificados, que passou de 360.000 em 2000 para 1,7 milhões em 2015. Não é uma simples pirataria, existe uma clara sustentação política.

A decisão da União Europeia

Apesar de tudo, a coerção estadunidense funciona. O que fará a União Européia? Podemos imaginar, após a decisão do Reino Unido de reverter a permissão de participação parcial da Huawei na implantação de sua rede 5G. Tudo que o ex-diretor da CIA, Mike Pompeo, pede, Boris Johnson tem de fazer. A decisão de Londres terá amplas implicações nas relações com Pequim. Não se trata apenas sobre as milhares de libras e do custo adicional pela atraso no lançamento da rede 5G, mas da grande brecha na confiança entre as duas partes, já também afetada pela crise em Hong Kong. Tudo isso afetará também as decisões finais da Alemanha e da França.

No entanto, a “autonomia estratégica” que a União Europeia agora reivindica para si deveria traduzir-se em tomadas de decisões independentes, ao largo das coerções. Imagine só o contrário, se fosse a China que estivesse pressionando-os como fazem os Estados Unidos? Mas ninguém qualifica os diplomatas estadunidenses como “lobos guerreiros”. Se os EUA querem embarcar a Europa em sua estratégia anti-China, pois não permitem nenhuma ameaça a sua hegemonia, a União Europeia deve ter em mente que a China não é uma ameaça a sua segurança, e que sua estabilidade depende da preservação de seu modelo sócio-político e econômico. E neste sentido, a cooperação econômica com a China é tão vital quanto o distanciamento transatlântico em certas questões. É a única maneira de fortalecerem-se caso aspirem evitar seu declínio.

Diversos grupos europeus continuam fabricando seus produtos para o mercado internacional na China, incluindo os competidores da Huawei, como a Nokia e Ericsson. A Huawei sugeriu construir uma fábrica na Europa, que serviria para minimizar as preocupações dos europeus em relação à segurança e ajudaria a relativizar esta idéia de representar uma ameaça. Para todos, a segurança nacional é uma prioridade. Mas não existem evidências que sustentem uma proibição das tecnologias da Huawei. Há de se lembrar que a Huawei já dispõe de um laboratório de cibersegurança na Alemanha, cuja finalidade é demonstrar que suas tecnologias não possuem backdoors. Há outro no Reino Unidos e se planeja outro na Polônia.

Talvez derrotar a Huawei seja equivalente a derrotar simbolicamente a China. Mas será equivalente também, mais uma vez, a submissão da Europa.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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