África

A atualidade do jihadismo no Sahel: o Estado Islâmico

Por Pablo Delgado Mecinas, via Descifrando la Guerra, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

A bandeira do Estado Islâmico (Daesh).
A bandeira do Estado Islâmico (Daesh).

Primeira parte – Segunda parte

O atual conflito no Sahel é marcado por ser um novo campo de batalha entre a Al-Qaeda e o Estado Islâmico através de suas filiais e grupos afins na região. Embora seja verdade que o Sahel tenha sido dominado quase que exclusivamente pelas filiais da Al-Qaeda e tenha ocorrido certa coexistência entre ambos, a região se converteu atualmente em um cenário de intensos enfrentamentos. Mas para compreender essa realidade e a influência do Estado Islâmico em África precisamos nos voltar às suas origens no Iraque.

Tropas estadunidenses colocando uma bandeira dos Estados Unidos sobre uma estátua de Saddam Hussein em 2003. Foto via El Diario.
Tropas estadunidenses colocando uma bandeira dos Estados Unidos sobre uma estátua de Saddam Hussein em 2003. Foto via El Diario.

As origens do Estado Islâmico

Quando a Al-Qaeda mudou sua organização e estrutura após a invasão do Afeganistão por parte dos Estados Unidos, após os atentados do 11 de setembro, o grupo se assentou no Paquistão e voltou à clandestinidade, dando lugar a chamada Al-Qaeda Central. Muitos dos combatentes da jihad afegã retornaram aos seus países de origem, e alguns fundaram filiais da Al-Qaeda, como foi o caso de Abu Musab al-Zarqawi, que fundou a organização islâmica Jun al-Sahm (Soldados do Levante). Pouco depois, a organização de al-Zarqawi passaria a operar na Jordânia e a denominar-se Yama’at Al Tawhid wa al Yihad, até sua desarticulação e posterior fuga do líder à zona norte do Iraque, onde fundou a organização Tanzim Qaidat al-yihad fi-Balid al-Rafidayn, mais conhecida como Al-Qaeda do Iraque (AQI) a partir de 2004.

Com a criação da AQI se constituiu a base ideológica para a criação do Estado Islâmico. A derrubada de Saddam Hussein, fruto da Operation Enduring Freedom, deixou um vazio de poder no país, que permitiu à al-Qaeda expandir suas redes de influência em territórios carentes de controle político. Como consequência deste contexto de expansão do jihadismo no Iraque, al-Zarqawi impôs sua ideologia takfirista, e assim, encabeçou os atentados e ataques principalmente contra à população xiita. Com a morte de al-Zaqawi, a AQI anunciou seu novo líder, o egípcio Abu Ayyub Al Masri.

A liderança de Al Masri não durou muito, devido à celebração de eleições no Iraque, as quais deram poder ao xiita Nusri al-Maliki; ao descontentamento da população em relação à AQI por seus atentados contra outros muçulmanos; a aliança da AQI com outras organizações jihadistas que deram origem à criação do Conselho da Shura dos Mujahidins, para controlar as ações da AQI; e o movimento da população sunita que se levantou em armas contra o governo e a Al-Qaeda, no chamado “Despertar” de Anbar, em 2005.

Abu Bakr al-Baghdadi, ex-líder do Daesh e proclamador do Califado. Foto via El Español.
Abu Bakr al-Baghdadi, ex-líder do Daesh e proclamador do Califado. Foto via El Español.

A proclamação do Califado

Após o descontentamento da população sunita com a AQI, o Conselho da Shura dos Mujahidins elegeu Omar al-Baghdadi em 2006 como seu novo líder, que renomeou a AQI como o Estado Islâmico do Iraque (ISI). As operações e atentados do ISI se circunscreveram quase exclusivamente ao território iraquiano, até a morte de Al Masri e Omar al-Baghdadi em 2010 em uma batida policial no norte do Iraque. O ISI se encontrava já muito debilitado, e com a nova liderança de Abu Akr al-Baghdadi passou à clandestinidade com o objetivo de obter apoio popular.

Após a morte do líder da Al-Qaeda Central, Osama Bin Laden, e a eclosão da Primavera Árabe na Síria, Abu Bakr al-Baghdadi viu a oportunidade de conquista a liderança global da jihad e enfrentou o novo líder da Al-Qaeda Central, Ayman al-Zawahiri. Essa ruptura pode ser vista a partir do número de ataques coordenados realizados pelo ISI; a separação ideológica entre a Al-Qaeda Central e o ISI em relação à aplicação do takfirismo herdado de al-Zarqawi; a incursão do ISI na Síria, o que levou à criação do Estado Islâmico da Síria e do Iraque (ISIS).

Aproveitando a expansão do poder do ISIS nas zonas do Iraque e Síria sob sua influência e o enfrentamento direto com a Al-Qaeda, Abu Bakr al-Baghdadi auto-proclamou o Califado em 29 de junho de 2014. Desde então, o ISIS passou a se denominar Estado Islâmico (EI). Isso levou à ruptura a nível internacional do EI e da Al-Qaeda, desde quando o EI colocou em prática a ideologia salafista e jihadista e pela primeira vez uma organização jihadista chegou a proclamar o Califado.

Membros do Estado Islâmico no Grande Saara. Foto via Bladi.
Membros do Estado Islâmico no Grande Saara. Foto via Bladi.

O Estado Islâmico no Grande Saara

A ruptura ideológica entre a Al-Qaeda e o Estado Islâmico não tardou a chegar no Sahel. Um dos membros mais influentes da organização liderada por Mohktar Belmokhtar e próxima à Al-Qaeda para o Magreb Islâmico, o Al-Mourabitun, se separou do grupo e jurou fidelidade ao Estado Islâmico. Adnane Abou Walid Al-Sahraoui criou o Estado Islâmico do Grande Saara (EIGS) no ano de 2015, mas não foi reconhecido de maneira oficial por Abu Bakr al-Baghdadi até o ano seguinte, como parte de sua estratégia de expansão da influência do EI a nível mundial.

O EIGS começou seus ataques e atentados na região das três fronteiras: Burkina Faso, Mali e Chade. Primeiramente, dirigiram seus ataques contra as forças armadas nacional e estrangeiras, até que al-Baghdadi oferecesse sua benção como o principal grupo jihadista da região ligado ao EI. A partir daí, o EIGS mudou sua estratégia e ampliou tanto seu número de atentados quanto sua expansão para outros países, como Senegal, Benim, Costa do Marfim, Camarões e Gana. No ano de 2018, o EIGS já era responsável por 42% do total de vítimas derivadas do jihadismo no Sahel.

A crescente expansão do EIGS e a brutalidade de seus atentados e ataques levaram as principais alianças políticas de segurança e de luta contra o terrorista do Sahel, o G5S e o MNJTF, a declararem o EIGS como o principal inimigo a ser abatido e neutralizado na região.

Munição de armamentos pesados utilizados pelos EIGS. Foto via Europa Press.
Munição de armamentos pesados utilizados pelos EIGS. Foto via Europa Press.

Sahel, o cenário de uma guerra aberta entre a Al-Qaeda e o Estado Islâmico

Com a morte do líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi, e a nova liderança de Abu Ibrahim Al-Hashimi Al-Qurashi, o grupo matriz começou a dar mais atenção ao EIGS. À medida que o EI fortaleceu seus laços com o grupo de Al-Sahraoui e, graças a sua rede de propaganda, passou a aumentar seu recrutamento e visibilidade de seus atentados.

Atualmente o jihadismo tem se expandido para além de seu epicentro maliense na região. O centro de Mali se converteu em uma zona de grandes tensões que tem se estendido até as províncias de Sum e Udalan, em Burkina Faso, além dos recentes atentados no norte da Costa do Marfim. A pretensão de expansão em África da JNIM tem levado a uma clara tensão com o EIGS pela demarcação dos limites territoriais de ambas organizações jihadistas. Por um lado, na região do Delta do Níger em Mopti, no Mali. Por outro, na região de Gourma, nos dois lado do Mali e Burkina Faso.

Desde o mês passado, a JNIM tem levado vantagem nos enfrentamentos, já que o EIGS não tem conseguido expandir sua influência e tem sido repelido do Delta do Níger, fazendo com que a JNIM tenha recuperado quase que totalmente o controle da região. Mas o que os têm levado a esse enfrentamento? Em primeiro lugar, as más relações de Al-Sahraoui com Amadou Koufa, o líder do Katiba, um dos grupos integrantes da JNIM. Esse mau relacionamento tem aumentado após a declaração do EI aos líderes da AQMI e de Koufa como apóstatas. Em segundo lugar, a impossibilidade de expansão do EIGS atualmente na região de Mopti devido às alianças da JNIM com algumas aldeias fulani. Por fim, as negociações da JNIM com a CMA tuaregue e o Estado do Mali para chegar a um acordo de paz.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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