Oriente Próximo

O Iraque novamente na corda bamba

Por Abdel Bari Atwan, via Raialyoum, tradução de Eduardo Pessine, revisão de Flávia Nobre

O novo primeiro-ministro iraquiano, Mustafa al-Kadhimi. Foto via Governo do Iraque.
O novo primeiro-ministro iraquiano, Mustafa al-Kadhimi. Foto via Governo do Iraque.

Ao final da última semana (29/06/2020), tropas do Serviço Contra-Terrorista Iraquiano (SCTI) invadiram uma base em Bagdá pertencente ao Kataib Hezbollah, sob a justificativa de que mísseis utilizados contra a embaixada estadunidense poderiam ter sido lá produzidos, resultando na prisão de 12 membros do grupo. Foi uma ação sem precedentes que poderia levar a uma série de turbulências e problemas em um país já à beira do caos.

O primeiro-ministro Mustafa al-Kadhimi, amigável aos Estados Unidos, alegou que a invasão foi a primeira ação em uma estratégia que visa subjugar e desarmar as milícias, restaurando a autoridade dos estados e restringindo a possessão de armas às Forças Armadas do país. Ele tem o apoio de um setor do povo iraquiano, incluindo líderes do popular movimento de protestos que denuncia a influência iraniana e vê a presença militar estadunidense como um fator de estabilidade e a saída para as múltiplas crises que assolam o país, especialmente a crise econômica.

Kadhimi prometeu aos seus amigos americanos, mais recentemente ao Secretário de Estado Mike Pompeo, acabar com os ataques às instalações diplomáticas e bases militares dos Estados Unidos. Ele terá dificuldades para entregar sua promessa: não apenas devido à abundância de armas no Iraque, mas também devido à influência do Hashd ash-Shaabi pró-iraniano no tecido político do país, com membros bem armados e altamente motivados.

O novo primeiro-ministro, eleito há apenas dois meses após o fracasso de três outros candidatos em ganhar o voto de confiança do parlamento, nunca teve boas relações com os grupos que formam o Hashd ash-Shaabi, e especialmente o Kataib Hezbollah. Seus líderes repetidamente acusaram-no de conluio com as forças estadunidenses quando atuou como chefe de inteligência. Particularmente, eles suspeitam que Kadhimi forneceu informações sobre as movimentações do General Qasem Soleimani e Abu-Mahdi al-Mohandes – o comandante da Guarda Revolucionária Iraniana e o vice-chefe do corpo de liderança do Hashd – o que permitiu aos americanos que os assassinassem em um ataque de drones ao saírem do aeroporto de Bagdá, em janeiro.

Mustafa al-Kadhimi depende mais do SCTI do que das forças armadas ou de segurança regulares para cumprir seus declarados objetivos. Esse grupo foi treinado e equipado em alto nível por especialistas estadunidenses precisamente com a função de iniciar um confronto com os grupos do Hashd ash-Shaabi.

O convite feito a Kadhimi pelo governo americano para uma visita a Washington parece condicionado ao sucesso do seu “teste” para superar e desarmar o Hashd ash-Shaabi e garantir a segurança das instalações e bases estadunidenses, o que é uma tarefa difícil, senão impossível. Parece provável que a visita será adiada, ou até mesmo cancelada, dado as tensões que atualmente prevalecem no Iraque, e mais importante, nas relações EUA-Irã.

O Irã e os Estados Unidos estão engajados em uma luta incansável por influência no Iraque. Washington encontrou um grande aliado em Kadhimi, e o prometeu apoio financeiro, militar e político caso seja bem sucedido na manutenção da segurança, estabilidade e proteção dos interesses americanos no país. O Irã tem do seu lado os grupos do Hashd ash-Shaabi e seu poder de fogo. Eles ganharam uma valiosa experiência de combate na guerra contra o Daesh e se desenvolveram em uma potente força militar, além de fazerem parte do crescente “eixo da resistência” da região, que inclui grupos como o Hezbollah no Líbano, o Ansarallah (houthis) no Iêmen e o Hamas e a Jihad Islâmica na Faixa de Gaza.

O atual governo dos Estados Unidos dificultou o trabalho de Kadhimi ao manter e fortalecer suas bases e presença militar no Iraque sob o pretexto de combate ao terrorismo, apesar do parlamento iraquiano ter votado pela sua retirada imediata. Isso garantiu uma valiosa munição política aos grupos do Hashd ash-Shaabi.

Os Estados Unidos são os principais responsáveis pelo caos iminente no Iraque, que o transformou em um estado falido – assim como foi feito na Líbia, Iêmen e em menor medida na Síria. Os EUA e Israel não tolerariam uma recuperação do Iraque e uma retomada do papel de liderança que cumpria no Oriente Médio. Isso pode ser a principal razão pela qual Washington é tão intransigente em relação à remoção de suas 12 bases militares no país, ou talvez tem esperanças de recuperar os trilhões de dólares que gastou em guerras no Iraque tomando o petróleo e as riquezas do país. Estas guerras, nunca esqueçamos, resultaram na morte de dois milhões de iraquianos, seja devido ao bloqueio de 13 anos imposto pelos Estados Unidos, seja pela invasão e posterior ocupação militar do país.

A principal causa das calamidades do Iraque são os Estados Unidos. O fim da influência iraniana no país deve ser precedida pelo fim da influência estadunidense, e não o contrário.

O presidente francês Emmanuel Macron alertou recentemente contra a “sirianização” da Líbia. No Iraque, um termo diferente é mais apropriado. Ele enfrenta um panorama ainda pior: a “iemenização”.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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