África

A atualidade do jihadismo no Sahel: a influência da Al-Qaeda

Por Pablo Delgado Mecinas, via Descifrando la Guerra, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

A suposta bandeira da Al-Qaeda, com os escritos da Shahadah, o primeiro dos cinco pilares do islamismo, em branco com o fundo preto.
A suposta bandeira da Al-Qaeda, com os escritos da Shahadah, o primeiro dos cinco pilares do islamismo, em branco com o fundo preto.

Primeira parte – Segunda parte

A realidade do jihadismo no Sahel é complexa, pois coexistem uma multiplicidade de grupos jihadistas de grande relevência a nível internacional devido ao grande número de ataques e atentados que levam a cabo na região. Por isto, esta primeira aproximação ao tema se aprofundará na realidade da Al-Qaeda, sendo o primeiro grupo terrorista que mudou os rumos da histórica recente com o atentado do 11 de setembro de 2001.

Comício da Frente Islâmica de Salvação (FIS) antes de sua criminalização. Foto via La Vanguardia.
Comício da Frente Islâmica de Salvação (FIS) antes de sua criminalização. Foto via La Vanguardia.

Argélia: o gérmen da Al-Qaeda no Sahel

Não se pode entender a realidade jihadista do Sahel na atualidade sem remontarmos à proliferação deste movimento na Argélia. Após a Guerra do Afeganistão, que culminou na retirada dos soviéticos do país ao final dos anos 1980, muitos dos combatentes estrangeiros retornaram aos seus países de origem. Entre eles se encontravam mais de 4 mil argelinos instruídos em combate e na jihad que voltaram ao país em meio a um clima político e social turbulento. As revoltas populares que estavam ocorrendo no país norte-africano foram reprimidas em 1989 com a aprovação de uma nova Constituição, que permitiu a participação política a determinados partidos políticos.

Nesta nova realidade, surgiu o partido político liderado por Abbassi Madani, de viés islamista, a Frente Islâmica de Salvação (FIS), que ganhou o primeiro turno das eleições gerais de 1992. O FIS mudou sua estratégia política declarando suas verdadeiras intenções: a implantação da Sharia, a Lei Islâmica, no país e o fim do multipartidarismo. Antes disso, as Forças Armadas argelinas deram um golpe de estado que culminou na criminalização do FIS e na prisão de seus líderes. O golpe de estado não foi bem recebido pela população e muito menos entre os veteranos do Afeganistão, o que levou o país a mergulhar em um conflito armado entre o governo e os grupos rebeldes islâmicos.

Dentre tais grupos rebeldes há de se destacar o Grupo Islâmico Armado (GIA), o grupo armado mais ativo desde 1993, cujos princípios eram a luta armada e a não participação nas instituições como via para a implantação da Sharia. As ofensivas do GIA implicaram no massacre e na violência indiscriminada contra a população civil e por isso, muitos líderes críticos com as ações do grupos criaram, em 1998, o Grupo Salafista para a Pregação e o Combate (GSPC), sob a liderança de Hassan Hattab.

A estratégia do GSPC consistiu na intenção de restaurar uma República Islâmica na Argélia, conforme conseguisse o apoio da população denunciando as atrocidades do GIA. A partir de então, a luta armada ficou praticamente nas mãos do GSPC, onde se aglutinaram uma grande parte dos jihadistas do GIA. Por outro lado, a Argélia estava se estabilizando politicamente com a vitória em 1999 de Abdelaziz Bouteflika, que deu um fim ao conflito armado com a anistia promovida a partir de 2004.

O ponto de inflexão do GSPC foi a mudança de estratégia produzida pelo apoio do grupo à Al-Qaeda e aos talibãs, promovido por seu líder Nabil Sahraoui. Após a morte de Sahraoui, o GSPC avançou muito mais seu posicionamento na região sob a liderança de Abdelmalek Droukdel, conhecido como Abu Musab Abdel Wadoud, que avançou ainda mais dirigindo os ataques contra as estruturas de poder argelinas e jurando fidelidade à Osama Bin Laden. A partir de 2007, o GSPC se integrou à estrutura da Al-Qaeda como um novo grupo conhecido como Al-Qaeda do Magrebe Islâmico (AQMI), sob a liderança de Abdelmalek Droukdel. A criação da AQMI envolveu a adoção da estratégia de Osama Bin Laden de expansão e jihad global, e assim, o grupo expandiu seu raio de ação em todo o Magrebe e a região do Sahel.

Grupo de fulanis junto a militares no Mali. Foto via RFI.
Grupo de fulanis junto a militares no Mali. Foto via RFI.

A realidade étnica do Sahel

Outro ponto chave para entender a expansão do jihadismo pelo Sahel é a realidade complexa do conflito inter-étnico da região. Uma das etnias mais numerosas é a fulani, constituída em sua maioria por pastores e criadores transumantes, dos quais a grande maioria é muçulmana. Essa etnia teve um papel muito importante na expansão do Islã pela África ocidental e que, desde o processo de descolonização, se viu capturada em comunidades nacionais lideradas por membros de etnias do sul do Sahel. Atualmente, existem mais de 40 milhões de fulanis, sobretudo na Nigéria e Guiné, mas focaremos no Mali e Burkina Faso, onde habitam 3 e 1,6 milhões de fulanis, respectivamente.

O jihadismo argelino se expandiu pelo norte e centro do Mali devido à perseguição que sofriam por parte das autoridades da Argélia e à porosidade transfronteiriça, o que permitia uma ampla mobilidade. A expansão foi levada a cabo no primeiro momento através dos Katibas, ou grupos de combatentes advindos da Argélia, mas encontrariam uma série de dificuldades: problemas de coesão entre os diferentes Katibas devido a disputas na divisão dos saques; falta de apoio da população nativa, pois eram jihadistas em um país estrangeiro; falta de apoio logístico e desconhecimento do terreno; limitações operativas, pois lhes era difícil passar despercebidos dentre a população local. Essas dificuldades levaram a AQMI a buscar apoio da população local através de outras vias.

A Rebelião Tuaregue

O caminho para consolidar a expansão da Al-Qaeda no Sahel viria com a Rebelião Tuaregue no norte do Mali em 2012. No dia 21 de março de 2012 ocorreu um golpe de estado no país: o General Amadou Haya Sanogo deteu o presidente Amadou Toumani Touré. Este acontecimento produziu uma desestabilização política no norte do Mali, onde os grupos tuaregues rebeldes protagonizaram uma rebelião através da qual, no dia 6 de abril do mesmo ano, proclamaram a independência de Azauade.

Um dos principais grupos tuaregues que encabeçou o levante foi o Movimento Nacional de Libertação do Azauade (MNLA), liderado por Bilal Ag Cherif. Os grupos tuaregues foram apoiados pelos jihadistas argelinos que haviam penetrado no Mali anos antes, dentre os quais cabe destacar o grupo jihadista tuaregue da região de Kidal, liderado por Iyad Ag Ghaly, o Ansar al-Din (“defensores da fé”, em árabe).

Os tuaregues começaram uma expansão ao sul com a ajuda de outros grupos jihadistas como o Ansar Al-Din, que se posicionaram ao lado da Al-Qaeda e expulsaram o MNLA da cidade de Tombuctu. Essa ruptura deveu-se a um conflito de objetivos e interesses: por um lado, o objetivo dos tuaregues da MNLA e outros grupos similares era a independência de Azauade, e por outro, o objetivo do Ansar al-Din era a imposição da Sharia em todo o Mali, o que poderia ser alcançado com o apoio da AQMI.

Diante da expansão do jihadismo no norte e na região central do Mali, o país fez um pedido internacional de ajuda, que foi respondido pela França com a Operação Serval em 2013. Junto às tropas francesas, o exército do Mali assumiu o controle do norte – uma região desértica – em julho de 2013. A partir daí, a maioria dos grupos tuaregues que começaram a revolução se mantiveram fora de atividade após a derrota contra as tropas malineses e francesas. Inclusive, chegaram a se posicionar ao lado do Mali e das tropas estrangeiras em operações contra o jihadismo.

Declaração de membros do Al Murabitun desmentindo a morte de seu líder, Mokhtar Belmokhtar. Foto via HispanTV.
Declaração de membros do Al Murabitun desmentindo a morte de seu líder, Mokhtar Belmokhtar. Foto via HispanTV.

Tempos de coexistência

Até agora vimos como a Al-Qaeda penetrou no Sahel em forma de Katibas e que não obteve apoio da etnia local, mas sua influência se viu acrescida pelo apoio à Rebelião Tuaregue. Entretanto, houve uma série de grupos jihadistas que coexistiram com a AQMI e que foram essenciais para o fortalecimento da influência da Al-Qaeda na região.

Na região norte do Mali atuou o grupo do mauritano Ould Mohamed El Khairy, denominado Movimento para a Unidade e a Jihad na África Ocidental (MUJAO). Seu líder também se envolveu em operações na Argélia, e é acusado de sequestrar três pessoas no campo de refugiados saharauis de Tindouf, em outubro de 2011. Este grupo também desempenhou papel fundamental, já que juntamente ao Ansar al-Din, tomaram a cidade de Gao, no Mali, em maio de 2012. Em seguida, o grupo dedicou-se a combater os tuaregues do MNLA para fortalecer o jihadismo no norte do Mali. Ao mesmo tempo, uma das figuras mais influentes da região, Mokhtar Belmokhtar, um veterano argelino do Afeganistão e com vínculos familiares no norte do Mali, foi destituído do comando de um Katiba pelo líder da AQMI por desobediência. Frente essa situação, os seguidores de Belmokhtar formaram o grupo jihadista dissidente Almouakaoune Biddam, que no dia 20 de agosto de 2013, se fundiu com o MUJAO sob o nome de Al Murabitun. Desde então, o grupo dissidente de Belmokhtar voltaria à esfera de influência da AQMI, a quem o Al Murabitun se associou para levar a cabo ataques e atentados no Mali.

Com o crescente poder da AQMI no Sahel devido suas novas alianças, o segundo passo foi a consolidação de sua influência entre a etnia fulani. Seguindo essa estratégia, um membro e pregador influente da etnia, Amadou Koufa, fundou, em 2015, o grupo jihadista chamado Frente de Libertação do Macina, ou Katiba Macina.

A partir daí, a influência da Al-Qaeda havia penetrado os grupos étnicos muçulmanos históricos do Sahel. A influência jihadista entre os fulani não tardou em adentrar outras fronteiras, como é o caso de Burkina Faso. Em 2016, o imã salafista Ibrahim Malam Dicko fundou, na província de Soum, o grupo jihadista Ansarul Islam (“defensores do islã”). O propósito do grupo era o retorno do islã autêntico dos tempos do Profeta e a restauração do Reino Fulani do Macina, fundado no século XIX por Seku Amadu. Assim, levaram a cabo uma série de atentados contra as forças de defesa e segurança de Burkina Faso e massacres contra a etnia mossi, que habita o país. Atualmente o grupo jihadista é liderado por Jafar Dicko, após a morte do líder anterior em uma operação policial em 2017.

O surgimento de grupos jihadistas vinculados à etnia fulani tem levado a mesma a sofrer discriminação sistemática e até uma perseguição por parte de outras etnias como a dogom e bambara no Mali. Com a expansão do jihadismo no país, as etnias locais têm formado milícias próprias que cometem atrocidades contra os fulani.

Yahya Abou Al-Houmam da AQMI (esquerda), Iyad Ag Ghali do Ansar al-Din e líder do JNIM (centro), e Al-Hassan Al-Ansari do Al Murabitun (direita). Foto via Middle East Eye.
Yahya Abou Al-Houmam da AQMI (esquerda), Iyad Ag Ghali do Ansar al-Din e líder do JNIM (centro), e Al-Hassan Al-Ansari do Al Murabitun (direita). Foto via Middle East Eye.

A consolidação da Al-Qaeda no Sahel

Com o surgimento do Estado Islâmico (Daesh) em 2014, se iniciou uma luta internacional pela liderança da jihad global. Essa disputa levou a um enfrentamento entre a Al-Qaeda e o Daesh, que refletiu em múltiplas divisões internas na Al-Qaeda e a criação de novos grupos jihadistas que juraram fidelidade ao Daesh. Neste sentido, no ano de 2015, um membro do Al Murabitun, Adnan Abu Walid Al Sahraoui, criou uma cisão denominada de Estado Islâmico do Grande Saara (EIGS), enfrentando a Al-Qaeda e jurando lealdade ao Daesh.

Frente ao notável crescimento de seguidores do EIGS, a Al-Qaeda teve que garantir toda a influência que havia conquistado no Sahel ao longo dos anos, primeiro com os tuaregues e depois com os fulani. O último passo para a consolidação da influência da Al-Qaeda na região se baseou na unidade dos grupos sob a coordenação de um conselho e a liderança de um chefe independente da AQMI. Dessa forma, o Al Mourabitun, Ansar Al-Din, Katiba Macina e os Katibas comandados pela AQMI se uniram no grupo chamado Jama’a Nusrat ul-Islam wa al-Muslimin’ (JNIM), ou “Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos”.

Militares na região tuaregue do Azauade, norte do Mali. Foto via Teller Report.
Militares na região tuaregue do Azauade, norte do Mali. Foto via Teller Report.

A atualidade do jihadismo no Sahel

No início do ano, após a reunião dos países que formam parte da Força Conjunta do G5 em Pau, foi determinado que o principal perigo da região e o inimigo número um a ser abatido era o EIGS. Além disso, se instaurou um clima de paz no norte do Mali com a criação do partido político Coordenação dos Movimentos de Azauade (CMA), cujo líder é Bilal Ag Chérif e agrupa o MNLA, o Movimento Árabe de Azauade (MAA) e o Alto Conselho para a Unidade de Azauade.

Visando buscar a paz em um país imerso em um conflito permanente desde 2012, o governo do Mali queria iniciar negociações com a JNIM, que inicialmente foram rejeitadas. Em março, a JNIM expressou seu desejo de negociar a paz com o governo do Mali através de um comunicado, com a exigência de que as Forças Armadas francesas saíssem do país.

Neste contexto, desde meados de março o JNIM, junto à combatentes tuaregues, iniciou uma guerra aberto contra o EIGS na região. Desde o final de abril, a JNIM e os tuaregues se deslocaram ao sul do Mali, expulsando os combatentes ligados ao Daesh do rio Níger, da região de Gourma e do norte de Burkina Faso.

Por fim, pode-se dizer que o processo de expansão da influência da Al-Qaeda no Sahel não tem sido fácil, já que tem custado muito tempo, vidas e inimigos. Mas o que está claro é a capacidade de adaptação que o grupo jihadista tem tido na região.

Primeiramente, depois de perceberem que os Katibas da Argélia não eram bem vistos na região, ganharam mais confiança na região norte do Mali com o apoio à Rebelião Tuaregue. Segundo, conseguiram consolidar-se no centro do país instrumentalizando o conflito inter-étnico a seu favor com o posicionamento e o apoio dos fulani. Terceiro, apesar das diferenças entre os grupos jihadistas, tanto ideológicas quanto de inimizades e cisões passadas, a Al-Qaeda criou uma estrutura de coordenação sob sua influência direta, frente aos seus inimigos jihadistas principais, como o EIGS. Por último, os avanços políticos no norte do Mali e a disposição de negociar com o governo nacional, assim como a guerra aberta contra o EIGS, mostram que buscam uma maior simpatia da sociedade para fortalecer ainda mais sua influência no Sahel.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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