Europa

O assassinato político de Jeremy Corbyn

Após a campanha midiática de difamação, é difícil imaginar como qualquer pessoa decente que se informou pelos jornais e televisão nos últimos anos poderia possivelmente votar em Jeremy Corbyn.

Por Peter Oborne e David Hearst, via Middle East Eye, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

O ex-líder do Partido Trabalhista Britânico, Jeremy Corbyn, discursando durante um comício em Bristol, Inglaterra, no dia 9 de dezembro de 2019. Foto por Joe Giddens.
O ex-líder do Partido Trabalhista Britânico, Jeremy Corbyn, discursando durante um comício em Bristol, Inglaterra, no dia 9 de dezembro de 2019. Foto por Joe Giddens.

Ao longo de sua carreira parlamentar, o bem-comportado e irritantemente calmo Jeremy Corbyn nunca falhou em despertar fortes emoções. Para seus inimigos, será lembrado como um dos piores líderes trabalhistas. Ele fracassou em unir o partido. Transmitiu mensagens contraditórias demais em relação ao Brexit, a maior questão de seu tempo. Ele nunca lidou com o antissemitismo dentro do partido. E em última instância, acabou com uma derrota catastrófica nas eleições gerais de 2019.

Para seu exército de apoiadores igualmente barulhentos e fervorosos, Corbyn triplicou as filiações ao partido, baniu a austeridade, deslocou o discurso político hegemônico à esquerda e apresentou uma alternativa genuinamente radical ao pântano do capitalismo pós-industrial.

Jornalismo fidedigno

Nós não somos adoradores de Corbyn.

Nenhum de nós é membro do Partido Trabalhista, e na verdade, um de nós já trabalhou como correspondente político e comentador para o The Spectator, The Daily Telegraph e The Daily Mail, três tradicionais formadores de opinião conservadores. Mas nós dois somos comprometidos com o jornalismo fidedigno e rigoroso. Como cidadãos britânicos, estimamos a tradição de lealdade e decência.

Por esse motivo acreditamos que todos devem se preocupar com a imagem de Corbyn retratada pela mídia britânica durante os quatro anos em que foi o líder do Partido Trabalhista.

Corbyn nunca foi a figura monstruosa que foi apresentada ao povo britânico. Ele nunca foi um marxista. Ele não estava empenhado na destruição do capitalismo ocidental. Ele era um socialista. Ele nem mesmo era um antissemita, e não existem evidências para tal sugestão, ainda que não o absolvemos de alguns maus juízos ao participar de diversos fóruns na internet durante seus mandatos.

E ele não era uma figura divisiva – a alegação feita contra ele por muitos de seus oponentes à direita.

Um assassinato político

De fato, um dos problemas de Corbyn foi sua brandeza com os inimigos internos, quando tentou unir o Partido Trabalhista após sua chocante ascensão à liderança em 2015. Ele foi um político com defeitos que cometeu erros.

Mas ele também era decente e autêntico, qualidades que raramente foram reconhecidas dentre os milhares de ataques publicados contra ele pela imprensa em geral. Por esse motivo acreditamos que seria importante conduzir a primeira grande entrevista com Corbyn após deixar a liderança do partido, no dia 3 de abril deste ano.

Nós queríamos dar a ele uma chance de contar seu lado da história, o que lhe foi negado amplamente como líder trabalhista. Também buscamos expor uma dura verdade: Corbyn foi vítima de um assassinato político cuidadosamente planejado e brutalmente executado.

Ele não teve chance. Não contra o grosso dos parlamentares e autoridades do partido, que como descobrimos recentemente, fizeram uma campanha mais intensa contra seu próprio líder do que contra o governo conservador. Não contra veteranos conectados com a máquina de estado britânica, incluindo ex-chefes de espionagem, autoridades militares e servidores públicos.

Tomemos como exemplo a alegação de que o estrategista de Corbyn, Seumas Milne, não receberia credenciais de segurança na 10 Downing Street pois “confraternizou” com Putin. O ex-líder do MI6, Sir Richard Dearlove, disse ao Mail on Sunday: “Qualquer um com esse tipo de antecedentes não poderia chegar nem perto de informações confidenciais. Isso estaria fora de questão”.

“Isso significa que Corbyn não poderia tomar decisões que um primeiro-ministro deve tomar a não ser que parasse de consultá-lo”. O sucessor de Dearlove no MI6 e ex-líder do Comitê Conjunto de Inteligência, Sir John Scarlett, também “confraternizou” com Putin e foi recebido no Valdai Club um ano antes de Milne.

Um de nós saiu para beber com um Scarlett muito relaxado em Moscou, que claramente desfrutou das conversas com Putin e seus colegas.

Falsidades e distorções

Mentiras após mentiras foram ditas sobre Corbyn, dia após dia, mês após mês. Nos últimos quatro anos, pouquíssimos jornalistas se preocuparam com o trabalho de checar informações sobre as alegações e publicações sobre ele.

Em nossa resenha do livro de Tom Bower, “A Dangerous Hero”, investigamos e expusemos um emaranhado de falsidades e distorções naquilo que foi apresentado como uma grande biografia do líder trabalhista, publicada pela Harper Collins, uma das maiores editoras do Reino Unido.

Nós mostramos como Bower distorceu uma reunião do Centro de Retorno à Palestina, acusando o grupo de culpar os judeus pelo Holocausto. Ninguém ligado ao grupo jamais expressou tal opinião, como foi constatado por uma investigação feita pelo Conselho de Ética. A Harper Collins e Bower concordaram em não repetir as acusações. O Mail on Sunday, que deu generosa publicidade ao livro, retirou as acusações e se desculpou. O que é importante notar aqui é que, quando tais alegações passam pelo devido escrutínio jurídico orientados por fatos e evidências, conduzidos pelo devido processo legal, ele tendem a desmoronar.

Sir Keir Starmer, advogado de formação, preste atenção: o devido processo legal importa. Isso foi abandonado nos últimos quatro anos pelo partido que você agora lidera. Nós mostramos como Bower distorceu as negociações de Corbyn com o National Health Service (NHS). Ele afirmou que as greves de médicos organizadas pela British Medical Association (BMA) em 2016 estavam “sob controle da Momentum”, o que foi negado por ambas organizações. “Não existem evidências que sugerem que isso é verdadeiro”, afirmou a BMA. Bower certamente não forneceu nenhuma.

Mostramos também como Bower distorceu um confronto entre o ativista trabalhista Marc Wadsworth e a deputada trabalhista Ruth Smeeth, no lançamento do relatório de Shami Chakrabarti sobre antissemitismo em junho de 2016. Este foi outro incidente apropriado pela mídia para atacar Corbyn. Bower escreve que “Wadsworth atacou-a dizendo não só que ela ‘trabalhava de mãos dadas’ com a mídia conservadora ao falar com o jornalista, mas era também uma judia”. O incidente foi gravado em vídeo, e em nenhum momento Wadsworth afirma que Smeeth é judia, o que foi confirmado pelo Middle East Eye através de duas testemunhas.

Contra todos os tipos de racismo

Conforme as eleições se aproximavam, grande parte da mídia apresentou Boris Johnson, o oponente conservador de Corbyn, como um salvador da pátria. Isto – como o país está aprendendo da pior maneira – era tão falso quanto tudo que foi dito sobre Corbyn. Ironicamente, Johnson, ao contrário de Corbyn, foi de fato culpado por produzir estereótipos racistas e antissemitas.

Um grupo de acadêmicos e apoiadores judeus apontaram que um dos livros de Johnson invoca um dos mais perniciosos estereótipos antissemitas quando descreve “oligarcas judeus” que, em suas palavras, “controlam a mídia e manipulam os números para conduzir as eleições em seu favor”. Como nos disse Corbyn, e acreditamos em sua sinceridade, o antissemitismo é um mal que tem sido tolerado e aceito há tempo demais pela sociedade britânica. Mas não é, entretanto, a única forma de racismo tolerada nos círculos políticos. A luta contra essa calamidade não deve ser partidária, e a luta contra o racismo não deve se limitar ao antissemitismo.

O racismo contra qualquer minoria religiosa é inaceitável em nossa sociedade, e por esse motivo a islamofobia deve ser combatida e identificada com a mesma intensidade – onde quer que seja. As duas campanhas devem andar lado a lado. Mas não é o caso.

A justiça do linchamento público

Novamente de maneira irônica, após vencer as eleições, Johnson adotou diversas medidas de Corbyn que anteriormente havia denunciado como inviáveis. Desde que se tornou primeiro-ministro, Johnson abandonou os cortes de impostos para as corporações, anunciou planos de nacionalizar a Northern Rail e um financiamento de £100 bilhões para projetos de infraestrutura.

O passado da mídia britânica nos mostra que o que aparece em suas colunas carrega um peso muito maior do que comentários casuais no ambiente de trabalho ou nos bares. É difícil imaginar como qualquer pessoa decente que se informou pelos jornais e televisão nos últimos anos poderia possivelmente votar em Jeremy Corbyn.

De fato, Corbyn disse o mesmo em sua entrevista ao Middle East Eye, afirmando que a cobertura foi tão hostil que até mesmo ele “não queria morar na mesma rua” que o homem retratado nos jornais britânicos. A mídia abandonou qualquer forma de objetividade ou factualidade que exigem de quase todos os outros.

Os acusadores se tornaram juízes, júri e executores.

Não houve processos legais, investigações independentes dos fatos, presunção de inocência até que se prove o contrário. Em segundos, a acusação se tornou a nova realidade. Foi a justiça do linchamento público. E o motim conseguiu o que queria. Corbyn voltou a onde estava no início dessa excêntrica jornada, um deputado respeitado localmente em North Islington, atuando no parlamento. Seus aliados foram expurgados da linha de frente.

Mas esse episódio é importante para todos nós que acreditamos que os fins não justificam os meios. A simples pergunta que todos os deputados, do espectro político que seja, devem perguntar a si mesmos é o que fariam, como se sentiriam, se as mesmas táticas fossem usadas contra eles. Eles iriam protestar, e estariam corretos nisto.

Esse tipo de política de manada ameaça a própria democracia, já que sem um discurso público honesto e fidedigno, as forças das trevas fazem sentir sua presença.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: