Brasil

O clã Ferreira Gomes e o legado de Brizola

Se Brizola estivesse vivo, certamente estaria na linha de frente contra a traição de todos os partidos de esquerda e na defesa de nossa soberania nacional, em todos os seus aspectos.

Por Eduardo Pessine, revisão de Flávia Nobre

João Goulart e Leonel Brizola na década de 1960. Fotógrafo desconhecido.
João Goulart e Leonel Brizola na década de 1960. Fotógrafo desconhecido.

Desde sua repaginada trabalhista em 2015, quando filiou-se ao PDT, Ciro e o clã Ferreira Gomes buscam reinvindicar o legado do trabalhismo de Leonel Brizola, João Goulart e Getúlio Vargas, grande figuras de um movimento político nacional-popular que liderou grandes conquistas do povo brasileiro, apesar de suas limitações. Pode-se dizer, sem exageros, que a construção do estado nacional brasileiro se deu, de fato, após a Revolução de 1930, quando se consolida uma força política com interesses no desenvolvimento do país.

Nossas grandes estatais, como a Companhia Siderúrgica Nacional e a Petrobrás, foram criadas durante governos trabalhistas que se uniram a enorme mobilização popular pela independência de nossa economia e pela soberania nacional. E no âmbito regional, Leonel Brizola teve papel fundamental neste processo, quando governou o estado do Rio Grande do Sul entre 1959 e 1963.

Nesta época, os ramos de energia elétrica e telecomunicações gaúchas eram controladas pelas multinacionais estadunidenses Bond and Share e ITT (atual AT&T), que administravam estes setores estratégicos não em prol do desenvolvimento do Brasil, mas do lucro estrangeiro. Entretanto, Brizola tinha como meta ampliar a geração e distribuição de energia no estado, requisito básico para o desenvolvimento, para além do seu grande investimento em educação – que se tornou uma marca de sua trajetória política também como governador do Rio de Janeiro na década de 1990.

Com o vencimento das concessões e a recusa de maiores investimentos por parte das multinacionais, Brizola avançou contra os interesses internacionais e expropriou a Companhia Elétrica Riograndense, filial da Bond and Share. A Companhia Telefônica Riograndense, filial da ITT, foi transformada em uma sociedade de economia mista, com ampla participação pública, mas meses depois, após uma mudança na sua direção e violações dos acordos, foi também expropriada por Brizola. Mesmo com as imensas pressões internacionais, uma crise política envolvendo o governo federal, o governador gaúcho não recuou, manteve as nacionalizações e mostrou que o comprometimento com a nação brasileira e a mobilização popular são essenciais para o desenvolvimento do Brasil, contra os interesses estrangeiros.

Além disso, foi um crítico ferrenho das indenizações pagas em 1964 pelas nacionalizações após o golpe militar, que abriu as portas do país para o domínio do imperialismo. Foram pagos 470 milhões de dólares às empresas americanas afetadas pelas nacionalizações, escancarando o entreguismo dos golpistas.

A privataria tucana liderada por Fernando Henrique Cardoso, que entregou aos estrangeiros nossas telecomunicações, bancos estaduais, mineração, entre outros, também foi alvo de duras críticas de Leonel Brizola. Sua prática política evidenciou ao longo de sua vida o seu enorme compromisso com a nação brasileira.

Para além da retórica, entretanto, Ciro Gomes não parece ter o mesmo comprometimento, apesar de reivindicar o legado brizolista. Na última semana, seu irmão, o senador Cid Gomes, votou a favor do PL 4.162/19, que permite a participação de empresas privadas – que como sabemos, serão empresas estrangeiras – em licitações para o serviço de saneamento básico, gerando na prática um impulso de privatização desse setor em todo o país. Ciro Gomes defendeu o voto do irmão, afirmando que todo o processo de concessão será regrado por metas de investimento e universalização da rede – assim como a privatização das telecomunicações, que mesmo com metas definidas, não atingiu a universalização após mais de 20 anos, sendo todas as multas perdoadas pelo corrupto judiciário brasileiro. É difícil imaginar que alguém experiente como Ciro acreditaria nisso. Provavelmente existem outros motivos para tal apoio, como por exemplo, o fato do projeto de lei ser de autoria de seu padrinho político, Tasso Jereissati.

Mas o apoio um tanto quanto “liberal” de Ciro a privatização não é um fato novo. Em 1994, quando foi Ministro da Fazenda do presidente Itamar Franco, o pedetista chancelou a privatização de 18 companhias estatais, incluindo a Embraer, que foi aqui na prática já desnacionalizada, pela pechincha de R$ 154,1 milhões. Foi também um dos padrinhos do Plano Real, que inaugurou a República Rentista e consolidou o papel hegemônico do setor financeiro na economia brasileira.

Fica evidente então, que apesar das boas intenções de Ciro e de sua atuação em prol de um projeto nacional de desenvolvimento, sua trajetória política não representa uma continuidade do trabalhismo e do legado de Brizola, mas uma grave ruptura. Enquanto o trabalhismo avançava contra os interesses internacionais em aliança com o povo, Ciro Gomes se ajoelha frente aos poderes estrangeiros e entrega de bandeja nosso patrimônio, além de apostar no apoio de uma suposta burguesia “nacional” – a mesma que surfou na onda do entreguismo extremado de Michel Temer e Jair Bolsonaro – para o desenvolvimento do país.

O saneamento básico é um setor estratégico e central para o desenvolvimento nacional: tem papel predominante no planejamento urbano, no abastecimento de água doméstico e industrial, na integração do território nacional, e gere a água, um dos recursos naturais mais importantes em termos humanos e geopolíticos, e no caso brasileiro, até mesmo para a geração de energia elétrica. Sua privatização – e pior, desnacionalização – é um ato de traição ao povo brasileiro, é o aprofundamento de nossa condição de colônia. Não há justificativa para isso. O Estado brasileiro tem plenas condições de gerir e ampliar o saneamento básico, em contraste com os históricos fracassos das privatizações em setores estratégicos.

Se Brizola estivesse vivo, certamente estaria na linha de frente contra a traição de todos os partidos de esquerda – inclusive o PT, que apesar dos votos contrários, recebeu elogios do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, por não obstruir as votações – e na defesa de nossa soberania nacional, em todos os seus aspectos. E se a reivindicação do legado de Brizola pelo clã Ferreira Gomes for algo mais do que pura retórica, precisarão de uma acentuada mudança em sua práxis política.

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