EUA

Os campos de concentração para japoneses nos Estados Unidos

Por Javier Pancorbo, via Descifrando la Guerra, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Foto do Campo de Concentração de Topaz, Utah, 1944, onde muitos nipo-americanos foram alojados durante a Segunda Guerra Mundial. Foto por Liz Hafalia.
Foto do Campo de Concentração de Topaz, Utah, 1944, onde muitos nipo-americanos foram alojados durante a Segunda Guerra Mundial. Foto por Liz Hafalia.

Em uma fria manhã de dezembro em 1941, a Marinha Imperial Japonesa atacou a base naval dos Estados Unidos em Pearl Harbor. Esse evento introduziu os Estados Unidos diretamente na Segunda Guerra Mundial, da qual haviam se mantido à margem tanto no Pacífico quanto na Europa. Neste contexto, os Estados Unidos eram governados por Franklin Delano Roosevelt (FDR) que, durante os primeiros anos de sua presidência, manteve a política isolacionista que herdou do presidente Hoover.

Quase uma década antes do ataque, foram aprovadas as Leis de Neutralidade, nas quais figuravam uma série de proibições contra os países beligerantes, como a venda de armas, para que os Estados Unidos não tivessem uma posição clara no conflito. O presidente FDR visava convencer a opinião pública de que era necessária uma mudança na política externa americana, e para tanto, começou obtendo aprovação no parlamento para aumentar e melhorar a marinha estadunidense.

De tal forma, podemos ver como as políticas presidenciais eram encaminhadas para preparar o país para a guerra. Tal fato é evidente nas leis aprovadas pelo Congresso em 1940, como a lei de recrutamento em tempos de paz. Havia “chegado a hora”, a “nação escolhida” tinha um “novo destino”, de “libertar o mundo das mãos dos ditadores com intenções imperialistas” e “devolver a democracia” onde se havia-a perdido ou sido substituída por novos modelos do pós-guerra. Toda essa ideologia se vê claramente refletida no discurso das quatro liberdades feito por FDR, despertando a população de sua neutralidade letárgica.

Tendo em conta esse breve contexto histórico, esse artigo pretende analisar os eventos ocorridos durante os anos da guerra dentro das fronteiras estadunidenses, onde os valores democráticos e de igualdade oferecidos pela nação norte-americana foram violados pela criação de campos de concentração para a população nipo-americana ou japonesa de segunda geração – chamados de Nissei.

Os campos

Os campos de concentração estiveram ativos entre 1942 e 1948, fruto de um momento “de extrema histeria coletiva que ocorreu quando os americanos receberam um ataque direto em suas terras”. Desde esse momento se tomaram medidas concretas contra a população da costa leste, temendo-se uma futura invasão por tropas japonesas apoiada pela população de mesma ascendência. Assim, essas populações foram deslocadas para o interior do país. Esse fluxo de emigração começou na Era Meiji, quando ocorreu a restauração de uma ideologia nacionalista denominada Tenno, que reconhecia e dava importância política, religiosa e ideológica à figura do Imperador na estrutura de poder japonesa.

A idéia de concentrar a população de ascendência japonesa começou a materializar-se após o ataque de Pearl Harbor. Alguns resultados destas políticas podem ser vistos em uma das primeiras notícias sobre estes eventos no The San Francisco News, que nos ajuda a compreender o pensamento da época, e nela, se defendia como a cidade de São Francisco, pela primeira vez em 80 anos, se encontrava limpa dos “asquerosos japoneses”, que foram privados de seus negócios, tiveram suas posses vendidas e contas bancárias bloqueadas, deixando-os em uma situação de extrema pobreza.

Em 1941 a sociedade norte-americana sofreu uma nova convulsão, a notícia de um possível levante da população de origem japonesa. Isso possibilitou a idéia de deter todos os japoneses de primeira geração, mas um comunicado do FBI desmentiu tais afirmações. Por outro lado, organizações como a American Legion e Native Sons of the Golden West, ambas entidades de veteranos de guerra pediram a prisão de toda a população, talvez como forma de vingança pela perda de 2.500 vidas americanas no ataque a Pearl Harbor.

Junto a essas afirmações, William Franklin Knox (Secretário da Marinha), declarou, segundo fontes secundárias, que o exército do Japão havia cooptado parte da população havaiana e convertido-a em desleal, o que levou Knox a pedir a evacuação de toda a população japonesa situada nas maiores ilhas que conformam o Havaí.

O encarregado de todo esse processo foi o tenente-general John L. DeWitt. Seu discurso mais relevante em relação aos campos de concentração foi feito em 5 de junho de 1943, quando expressou que essa evacuação seria feita por necessidades militares, alegando que a maioria dos nissei haviam viajado ao Japão para serem doutrinados. Como justificativa para o embargo de suas contas bancárias e para financiar medidas anti-espionagem e anti-sabotagem, afirmou que milhares de dólares haviam sido enviados ao Japão, e portanto, contribuíram na guerra contra a nação americana.

Todos esses discursos acabaram por influenciar o presidente Roosevelt que, apesar da oposição às medidas em seu círculo mais próximo, acabou aprovando a Ordem Executiva 9066, autorizando as prisões durante a Segunda Guerra. Além disso, exigiu a colaboração de países latino-americanos para enviarem suas populações japonesas aos campos de concentração.

Cabe destacar que, apesar de também terem utilizado estes campos contra alemães e italianos, o número de detidos foi menor; os descendentes de italianos nascidos nos Estados Unidos também foram isentos de prisão (não podemos esquecer que a comunidade de origem italiana é muito importante dentro dos EUA).

Veremos o funcionamento destes campos mais adiante, mas o mais conhecido de todos recebeu o nome de Manzanar. Enquanto os demais campos foram construídos em terrenos pantanosos, esse foi construído em terreno duro devido às características ambientais em Sierra Nevada, na Califórnia. Vale notar que nestes campos não foram realizados assassinatos e experimentos com seres humanos como nos campos de concentração nazistas. Veremos adiante como houve uma disputa de conceitos ideológicos para referir-se a estes lugares.

Retornando ao Campo de Manzanar, no dia 21 de março de 1942 chegaram os primeiros prisioneiros, destinados a construírem o campo. Um mês depois chegavam 1.000 pessoas por dia, e em julho a população já se aproximava de 10.000, muito mais do que se podía abrigar nos 504 barracões improvisados como moradias.

Quando os internos queriam abandonar os centros, ao conseguirem um emprego fora, teriam de contar com uma série de requisitos, como serem aprovados em um “exame de comportamento” por encarregados do centro, que o Estado não tivesse nenhuma evidência de que o cidadão poderia colocar em risco a segurança nacional, e que os vizinhos de onde moraria a família japonesa não se mostrassem hostis a sua chegada. Além disso, os funcionários de seu emprego deveriam se sentir seguros com sua presença e qualquer cidadão japonês que saísse do campo deveria informar o governo de qualquer mudança de residência, trabalho, etc.

Qualquer incompatibilidade com esses requisitos resultava em uma negativa das permissões por tempo indeterminado, portanto, se tinha apenas uma única oportunidade para sair do campo.

O habitantes durante o período em que estiveram ativos não eram fanáticos imperialistas ou soldados capturados pelo exército, mas pessoas em sua maioria de origem cosmopolita, vindas das grandes cidades da costa leste, nascidos nos Estados Unidos e educados nos valores da nação como qualquer outro norte-americano. E não só isso, mas a maioria destes cidadãos contribuíram na guerra comprando títulos de guerra e oferecendo grandes somas de dinheiro à Cruz Vermelha, e o que receberam de volta foi o isolamento e a negação de sua cidadania mediante as leis de guerra.

O modo de vida nos campos

Da esquerda para a direita: Bob Takamoto, Bruce Sansui e Mas Ooka, no Campo de Manzanar. Via abc.es
Da esquerda para a direita: Bob Takamoto, Bruce Sansui e Mas Ooka, no Campo de Manzanar. Via abc.es

As condições de vida da população internada poderia ser caracterizada como precária em muitos sentidos, uma vez que a construção dos barracões eram de má-qualidade e superlotados e não havia água encanada e cozinhas.

Os prisioneiros começavam o dia formando a fila para receberem os alimentos diários, cujo valor médio era de 48 centavos (arroz com verduras) segundo diferentes dados disponíveis. Os campos eram construídos de forma que pudessem ser auto suficientes, com alguns internos dedicados ao cultivo de verduras e o cuidado de animais (principalmente galinhas e porcos). Tinham um jornal próprio para circulação interna. Os prisioneiros recebiam trabalho em Manzanar para manter o campo funcionando, e recebiam 8, 12, 16 ou 19 dólares a depender de sua capacitação, além de 3,60 dólares mensais para complementar os gastos com vestimentas.

Até aqui observamos os motivos de estabelecimento dos campos, onde e como eram seu funcionamento. Mas não devemos esquecer que onde há privação de liberdade sempre encontraremos uma resistência que se nega a aceitar as condições impostas pelo governo. Embora não tenha sido mencionado nenhum incidente nos campos, não devemos compreender que os habitantes foram submissos à espera do fim do conflito. Podemos encontrar pequenos atos de resistência, assim como atores políticos relevantes durante os anos de internamento.

A resistência e suas lideranças

O soldado Ben Hatanaka, sob licença do exército estadunidense, senta-se sob a placa de entrada do Campo de Manzanar durante visita a familiares internados. Foto via nippon.com
O soldado Ben Hatanaka, sob licença do exército estadunidense, senta-se sob a placa de entrada do Campo de Manzanar durante visita a familiares internados. Foto via nippon.com

Em muitos dos campos ocorreram distúrbios devido aos valores dos salários anteriormente mencionados, ao mercado negro ou devido aos informantes internos do próprio FBI, que muitas vezes passavam informações falsas gerando punições de inocentes. Mas o motim mais importante ocorreu no Campo de Manzanar.

Para compreender a origem deste motim devemos considerar que havia dois tipos de cidadãos internados. De um lado os chamados kibei (nipo-americanos educados no Japão) e de outro a Liga de Cidadãos Nipo-Estadunidenses (organização consagrada na luta pelos direitos civis). Ambos os grupos receberam notícias de que havia escassez de açúcar e carne através do mercado negro gerido pelos administradores dos campos. Esse evento tem relação com o ataque a Fred Tayama (líder da Liga de Cidadãos) por Harry Ueno (líder kibei), que foi encarcerado e separado do restante dos internos de Manzanar. Cerca de 5.000 pessoas marcharam em direção ao prédio da administração, descontentes com o conflito e a corrupção do mercado negro, exigindo a libertação e reintegração de Ueno ao campo. No embate com a polícia, 10 cidadãos foram mortos.

Este foi o maior conflito vivido nos campo, mas o maior drama ocorreu durante o fechamento dos campos. Privados de tudo que tinham antes de serem presos, muitos não tinham para onde ir e se negaram a sair, sendo expulsos à força. No total, 146 prisioneiros foram assassinados em Manzanar.

Nestes campos podemos encontrar figuras relevantes que ficaram ocultas por suas atividades até o final do internamento. Em primeiro lugar, Aiko Yoshinaga foi internada com 17 anos em diferentes campos, e se converteu em ativista e dedicou-se à investigação minuciosa de toda a documentação disponível sobre as autoridade de concentração. Graças a essa investigação Aiko descobriu que, durante a época da guerra, o governo havia cometido diversas violações na Corte Suprema (1944), entrando com diferentes processos onde foi pleiteado a inconstitucionalidade das prisões e dos deslocamentos.

O fotógrafo Toyo Miyatake. Via Toyo Miyatake Studio.
O fotógrafo Toyo Miyatake. Via Toyo Miyatake Studio.

O governo destruiu e falsificou diferentes provas e ocultou informações para que o projeto dos campos fosse aprovado. Essa investigação cristalizou uma base de apoio para pedidos de compensações e reparos pelos danos sofridos pelas prisões durante a guerra.

Por outro lado, temos Toyo Miyatake, que foi o único fotógrafo dos campos, e graças a ele temos registros visuais do que ali ocorreu.

Os debates em torno dos campos

O confinamento desta parte da população americana terminou com a Ordem 4417 assinada pelo presidente Gerald Ford. Mas o tema seguiu tendo repercussão entre os historiadores e nas fontes documentais. Que denominação pode-se dar a esses locais de confinamento? Nos documentos oficiais consultados para redação deste ensaio são referidos como “campos de internamento”; em geral caso o texto seja de autoria de alguém de acordo com as medidas tomadas recebem o nome de “campos de realocação”, e outros falam diretamente de “campos de concentração”.

A Comissão sobre Confinamento e Realocação de Civis durante a Guerra criada pelo Congresso dos Estados Unidos explicou em um informe de 1983 sua decisão de chamá-los de campos de realocação, com estas palavras: “A Comissão manteve de forma geral os termos e frase tal como foram então empregados, em um esforço para refletir adequadamente o contexto da época e evitar a confusão e controvérsia que uma nova terminologia poderia provocar”.

Deixamos ao leitor que decida por si mesmo até que ponto a retórica da época confirma a observação de George Orwell: “Em nosso tempo, o discurso e a escrita política são, em grande medida, a defesa do indefensável… Desse modo, a linguagem política precisa consistir, em larga medida, em eufemismos, argumentos circulares e pura imprecisão nebulosa”.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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Teniente General JL DeWitt al Jefe de Estado Mayor, Ejército de EE. UU., 5 de junio de 1943, en el Ejército de EE. UU., Comando de Defensa Occidental y Cuarto Ejército, Informe Final; Evacuación japonesa desde la costa oeste de 1942, Washington DC: Gobierno. Imprenta, 1943.

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