Oriente Médio

A ocupação militar israelense deve ser discutida no contexto colonial

Por Ramona Wadi, via Strategic Culture Foundation, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre.

Manifestantes palestinos protestando contra a colonização israelense, apoiada pelos Estados Unidos. Foto por Ibraheem Abu Mustafa.
Manifestantes palestinos protestando contra a colonização israelense, apoiada pelos Estados Unidos. Foto por Ibraheem Abu Mustafa.

Em junho de 1967, Israel desabrigou mais de 400.000 palestinos como resultado da Guerra dos Seis Dias. O Naksa (“recuo”) foi a maior onda de expulsão de palestinos após o Nakba de 1948, resultando na tomada da Faixa de Gaza, Jerusalém e Cisjordânia por Israel. Décadas depois, o Conselho de Segurança da ONU segue acreditando que cumpriu seu dever através da Resolução 242, que considera a saída de Israel dos territórios ocupados um “princípio”, e não uma obrigação.

O Naksa é sinônimo da ocupação militar israelense – um termo que tem eclipsado o colonialismo e protege Israel de sua responsabilidade. A retórica política não confronta Israel com a descolonização, mas foca na ocupação militar, e como resultado, tira as atenções da contínua expansão colonial que segue desabrigando o povo palestino.

Na comunidade internacional e especialmente em relação à solução de dois estados, a diplomacia que trata da ocupação militar israelense se provou uma fachada para abster-se de reconhecer o papel da ONU na criação e manutenção de Israel. Aceitar Israel como um estado marcou a primeira normalização coletiva do colonialismo sionista na Palestina. A soberania, construída sobre o expurgo étnico do povo palestino de sua terra, foi atribuída à entidade colonial na região. Com os palestinos considerados uma urgência humanitária desde 1948, e a com a classificação ainda mais consolidada em 1967, a negligência da comunidade internacional em relação ao projeto colonial sionista não somente normalizou o colonialismo, mas também a resultante ocupação militar da Palestina.

Isso ocorreu devido a narrativa da ONU em relação às violações de leis internacionais por parte de Israel, que estão isoladas da violência infligida anteriormente pelos paramilitares sionistas durante o Nakba. A partir de 1967, a ocupação militar forneceu à Israel a oportunidade de legislar violações para punir palestinos coletivamente e aumentar as chances de desalojamento gradual de palestinos, se apropriando assim de mais territórios para sua expansão colonial.

Descrever Israel apenas como uma ocupação militar é inconsistente com a identidade colonial israelense. Da mesma forma, os apelos pelo fim da ocupação militar israelense da Palestina ignora a realidade colonial que dá suporte à legislação que priva os palestinos do direito de deslocamento, expressão política, moradia, necessidades básicas e liberdade. A ocupação militar é uma ferramenta do colonialismo, e não deve definir Israel e ser explorada pela comunidade internacional a fim de privar ainda mais o povo palestino de seus esforços anti-coloniais, já que é seu direito político.

Para os palestinos, 1967 é uma continuação do Nakba de 1948, assim como é também a ocupação militar da Palestina. Foi a comunidade internacional que explorou a equivalência entre colonialismo e ocupação, tornando-os sinônimos para facilitar a solução de dois estados. Além disso, os Estados Unidos consolidaram suas ligações com Israel após a Guerra dos Seis Dias, que sob o governo de Donald Trump resultaram no chamado “acordo do século”, que parte do paradigma de dois estados para pavimentar o caminho da anexação da Cisjordânia ocupada por Israel.

Embora a guerra de 1967 tenha reforçado a dominação colonial sobre a Palestina, a ONU é partidária da ocupação militar, já que ela fornece um ponto de partida alternativo, ainda que incompleto, para a formulação da atual narrativa de Israel e sua disseminação. As recorrentes violações do direito internacional contra o povo palestino, incluindo a expansão dos assentamentos, agora fazem parte da suposta narrativa de segurança de Israel, que a ONU tem regularmente defendido, ainda que emita declarações brandas condenando suas transgressões.

A antiga unidade política palestina e compromisso com a luta anticolonial pós-1967 foi comprometida não apenas pelas divergências políticas entre as facções palestinas, mas também devido à insistência da ONU nas negociações, que demonizam a ocupação militar enquanto normalizam o colonialismo sionista. Para Israel, 1948 foi o começo; 1967 foi o caminho para garantir a dominação completa sobre todo o território palestino, favorecida pela subsequente traição, décadas depois, da causa palestina em escala regional e internacional.

A memória de 1967 deve levar em conta o anterior processo colonial. A atual situação do povo palestino, à beira da anexação, traz consigo a cumplicidade da comunidade internacional em diluir o colonialismo na terminologia de “ocupação militar”, mais preferível. Clamar pelo fim da ocupação militar não acaba com o colonialismo. Ao contrário, a ONU protege o processo colonial de Israel ao normalizar os passos de deslocamento forçado e apropriação de território, em nome das supostas preocupações de Israel em relação à segurança.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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