América Latina

Conheça os oligarcas de extrema-direita que conspiram contra López Obrador

Um oligarca mexicano, Gilberto Lozano, está liderando uma coalizão de líderes corporativos e fanáticos de extrema-direita chamada FRENA, visando derrubar o presidente Andrés Manuel López Obrador.

Por José Guadalupe Argüello III e Ben Norton, via The Grayzone, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Gilberto Lozano, oligarca e líder da Frente Nacional anti-AMLO, comprometida com derrubada do presidente mexicano. Foto por Antonio Meléndez.
Gilberto Lozano, oligarca e líder da Frente Nacional anti-AMLO, comprometida com derrubada do presidente mexicano. Foto por Antonio Meléndez.

Um oligarca mexicano similar a Trump, Gilberto Lozano, está liderando uma coalizão de líderes corporativos e fanáticos de extrema-direita chamada FRENA visando derrubar o presidente Andrés Manuel López Obrador.

A vitória de Andrés Manuel López Obrador nas eleições presidenciais do México em 2018 marcaram uma conquista histórica, uma promessa de trégua de um longo período de 40 anos de governos neoliberais no país. López Obrador, ou AMLO, está direcionando o México para uma nova rota em direção a maior autonomia nacional. Sob um processo revolucionário que ele chama de “Quarta Transformação”, está combatendo a corrupção sistêmica e a rapina feroz dos recursos públicos, enquanto fortalece os benefícios sociais para os pobres.

Desde o início do mandato de AMLO em dezembro de 2018, membros dos partidos políticos que dominaram a política mexicana por décadas, o Partido de Ação Nacional (PAN) e o neoliberal Partido Revolucionário Institucional (PRI), têm trabalhado sem descanso para barrar as reformas da nova administração e abortar a “Quarta Transformação”. Oligarcas poderosos também têm utilizado seu grande poder econômico para desestabilizar e, em última instância, derrubar López Obrador – e têm buscado apoio estrangeiro para tal.

Na primeira parte desta série investigativa, o Grayzone publicou uma reportagem sobre o Bloco Opositor Amplo (BOA), uma coalizão de partidos de oposição, elites corporativas e meios de comunicação que visam remover AMLO do poder.

Mas existe outra aliança de oposição, que está listada como participante do BOA, mas é ainda mais extrema ideológica e taticamente, que merece um escrutínio mais aprofundado.

Banner da FRENA, a Frente Nacional Anti-AMLO da extrema direita mexicana.
Banner da FRENA, a Frente Nacional Anti-AMLO da extrema direita mexicana.

A extremista Frente Nacional Anti-AMLO (FRENA) propõe uma revolução colorida

No dia 30 de maio e no fim de semana de 13 e 14 de junho, o trânsito no México foi perturbado por carreatas buzinando e sinalizando a oposição ao presidente López Obrador. Nos dias que precederam os eventos, apoiadores da oposição no país e em partes dos Estados Unidos foram convocados para protestar em caravanas sob o slogan “Andrés López, não queremos você”.

O grupo que organizou estes protestos se chama de Frente Nacional Anti-AMLO, ou FRENA. Esse grupo mexicano de extrema-direita inspirou suas manifestações contra o presidente em protestos similares organizados pelo grupo neofascista espanhol Vox. A FRENA representa um dos mais extremados – e elitistas – grupos de oposição no México. E seu objetivo declarado é forçar AMLO a renunciar até novembro de 2020, muito antes das próximas eleições presidenciais, programadas para 2024. A frente é composta por uma aliança de algumas das forças de extrema-direita mais fanáticas do México, e caracteriza o governo eleito como uma “ditadura comunista”, afirmando que López Obrador, um nacionalista de centro-esquerda, é parte de uma conspiração para implementar o comunismo através da igualdade de gênero e educação e da homossexualidade.

A FRENA até mesmo pediu publicamente o apoio do presidente estadunidense Donald Trump para impedir “a agenda de AMLO, cujo objetivo é implementar o castrismo-comunismo em nosso país”.

De acordo com o site oficial da FRENA, o grupo é organizado de cima para baixo, com um conselho administrativo composto de 67 chefões – apenas 4 desses são nomeados publicamente, entretanto. Esse conselho formula estratégias para derrubar AMLO, que são implementadas por diversas “comissões voluntárias”, lideradas por coordenadores ao redor do México. A filiação à FRENA, segundo o site, é aberta a todos que concordam que o “Ditador Bolivariano Andrés López” deve renunciar.

Imagem de AMLO editada com o rosto do presidente venezuelano Nicolás Maduro.
Imagem de AMLO editada com o rosto do presidente venezuelano Nicolás Maduro.

Uma seção do site da FRENA, a “Estratégia da Frente Nacional”, expõe três estágios para conquista do objetivo de mudança de regime, afirmando que “por motivos de segurança esse é um esboço de um plano detalhado para salvar o México de um tirano comunista”:

“1. Buscar a renúncia de AMLO antes do dia 30 de novembro de 2020, utilizando a lei e a mídia, mas principalmente PRESSÃO SOCIAL.

2. Após o sucesso do primeiro estágio, continuar a preparar uma candidatura UNIFICADA para as novas eleições, cercada por todos os partidos de oposição como desejo ÚNICO DO POVO MEXICANO.

3. Reconstrução Nacional, como um grande conglomerado de cidadãos organizados sendo o órgão supremo de vigilância e condução do destino para um Novo México.”

Na mesma seção do site da FRENA, os visitantes podem conhecer o arquiteto de “revoluções coloridas” apoiadas pelo governo estadunidense Gene Sharp, e obter uma cópia gratuita de seu manual de golpes brandos, Da Ditadura à Democracia, acessível como um PDF em espanhol ou em audiobook.

Como já publicado por Dan Cohen e Max Blumenthal no Grayzone, Gene Sharp trabalhou com um analista da Agência de Inteligência de Defesa (DIA) dos Estados Unidos para criar um “modelo estratégico que utiliza de protestos como uma forma de guerra híbrida, visando os estados que resistem à dominação unipolar de Washington”.

Em seu site, a FRENA também divulga um documentário sobre Sharp, no qual seguidores o creditam como inspiração para revoluções coloridas na Sérvia, Ucrânia, Irã e Egito. Gilberto Lozano, o líder da FRENA, quer adicionar o México nesta lista.

Gilberto Lozano: um oligarca ultra-elitista com visões extremistas e fascistas

Gilberto Lozano González se estabeleceu como um dos oponentes mais fanáticos do presidente López Obrador. Um oligarca mega-rico do seio da elite mexicana, Lozano encabeça a FRENA, publicando bravatas indignadas em seu canal no YouTube, com cerca de 150.000 inscritos, acusando o presidente eleito de aspirante a ditador e alertando que “a agenda comunista está avançando”.

A maioria de seus vídeos são gravados em sua luxuosa mansão, nos quais ostenta os enormes cômodos, pinturas extravagantes, montanhas de chapéus e seu piano de cauda. E o oligarca expõe um talento dramático, posando em frente a estátuas de anjos armados com porretes ou segurando uma bandeja com uma réplica da cabeça de AMLO. Tudo isso, somado aos recreativos ataques de fúria de Lozano, pode explicar parcialmente a popularidade de seus vídeos nas mídias sociais, que ultrapassam as 50.000 visualizações.

Nos longos discursos em vídeo, repete suas bravatas, irónicamente acusando López Obrador de tramar um “golpe brando”, enquanto agita uma derrubada do presidente eleito antes do 30 de novembro e sua substituição por um “presidente interino”. As visões de extrema-direita do oligarca levaram muitos mexicanos a compararem Lozano a Donald Trump, ou o presidente brasileiro Jair Bolsonaro. De fato, a FRENA publicou uma carta aberta ao presidente Trump, vice-presidente Mike Pence e ao embaixador estadunidense Christopher Landau no mês de maio, pedindo seu apoio.

Na carta, a FRENA afirma que AMLO é um “tirano cujas visões se alinham com o socialismo castro-chavista latinoamericano” e um “líder cuja agenda é a mesma do Foro de São Paulo liderado por Cuba e apoiado pela Venezuela”. Alegando o apoio de 2 milhões de mexicanos, a FRENA pediu ao presidente dos Estados Unidos “e todos os níveis de seu governo que parem de chamar AMLO de amigo. Ele não é seu amigo e nem de nosso país”.

Em seguida, Lozano compartilhou um link para a carta em seu Twitter, acrescentando, “disponível para conversar com vocêm Sr. Trump”. Ele até mesmo incluiu seu número de celular na mensagem. No tweet seguinte, Lozano adicionou, “estou esperando por essa ligação ou audiência com Sr. Landau”.

Mas antes de se tornar uma figura central da oposição anti-AMLO, Gilberto Lozano era conhecido como um dos magnatas mais poderosos do México. Ele dirigiu a gigante FEMSA, a maior engarrafadora da Coca-Cola do mundo, e passou 16 anos na chefia no enorme, multimilionário conglomerado multinacional Alfa Group. Ademais, também foi proprietário da enorme rede de lojas de conveniência Oxxo, além de distribuidor de diversas grandes marcas, incluindo a Heineken.

Lozano é natural de Monterrey, uma cidade do norte do México conhecida por ser controlada por famílias ultra-ricas e de extrema-direita, com recursos praticamente ilimitados – e uma influência significativa sobre a política do país. Esses poderosos oligarcas são conhecidos coletivamente como o “Grupo Monterrey”, e em um perfeito simbolismo de seu status de elite, Lozano atuou como presidente do Clube de Futebol de Monterrey.

O empresário tem usado de suas vastas conexões para deixar sua marca na política mexicana. Lozano fundou e dirige o influente Congresso Nacional Cidadão (CNC), um grupo de oligarcas que alegam ser “apolíticos”, mas que atua agressivamente em favor de políticas neoliberais como parte de seu plano de criar um “Novo México”.

Em uma palestra na McGill University em 2015, no Canadá, Lozano descreveu a estratégia do CNC em termos rigorosamente Sharpianos: usar uma “estrutura horizontal” para construir “poder e atuação”. Combinando o toque populista de direita com uma retórica libertária e anarquista, o oligarca alegou que estão conduzindo uma nova “revolução”, enfraquecendo e desmontando as instituições de estado para construir uma sociedade descentralizada que garante a “autodeterminação” e a “autonomia” dos indivíduos.

Lozano e o CNC também possuem extensas conexões econômicas e políticas nos Estados Unidos, e se gabam de ter uma rede de ativistas estadunidenses. O oligarca frequentemente viaja para o Texas, onde conduz entrevistas com ativistas de extrema-direita, defendendo que AMLO e seu partido, Movimento Regeneração Nacional (MORENA), estão deliberadamente destruindo o México. Em uma viagem para Dallas, em novembro de 2018, Lozano discutiu as atividades anti-AMLO que o CNC supervisiona no México e nos Estados Unidos.

Em seguida, Lozano fez uma transmissão no Facebook, de Houston, onde conversou com um membro do CNC em um posto de gasolina, ladrando contra a câmera e condenando a equipe de transição de López Obrador por convidar representantes do governo internacionalmente reconhecido da Venezuela para sua posse. Embora AMLO não havia ainda tomado posse, Lozano já esperneava que o líder de esquerda transformaria o México em uma “ditadura assassina e corrupta”, assim como se refere à Venezuela. No vídeo, Lozano alegou que os manifestantes pró-AMLO eram pagos pelo governo, e acusou seus críticos de serem robôs e contas falsas controladas pelo MORENA.

Isso tudo pode parecer um delírio de um maluco, mas os devaneios de Gilberto Lozano têm encontrado terreno fértil nas mídias sociais. Ele também tem presença regular na mídia corporativa hegemônica do México, que é controlada pelos mesmos oligarcas que visam derrubar AMLO.

Em maio de 2019, Lozano e o CNC apresentaram uma queixa criminal absurda na Câmara dos Deputados mexicana, acusando formalmente o presidente López Obrador de traição. O oligarca já registrou mais de 20 queixas contra o presidente. Dentre elas, segundo meios de comunicação locais, por “subjugar a soberania popular, independência e integridade dos interesses externos mexicanos”. Sua evidência para essa grave acusação foi a suposta entrada de centro-americanos, cubanos, células do ISIS, africanos e membros da Mara Salvatrucha.

Em sua queixa, Lozano alega que as políticas de López Obrador irão desestabilizar o México, destruir a economia e alimentar a violência, ameaçando as mulheres e até mesmo espalhando doenças como o ebola.

O influente intelectual público John Ackerman, um aliado próximo de AMLO, apelidou Lozano de “Trump mexicano”, argumentando que ele utiliza do “mesmo discurso racista e neofascista do presidente dos Estados Unidos”. Entretanto, Ackerman previu que Lozano não seria tão bem-sucedido quanto Trump, já que “a cultura política do México é mais resistência ao fascismo do que outras”. Ackerman recordou os leitores que um candidato similar, Jaime Rodríguez Calderón, recebeu apenas 5% dos votos nas eleições de 2018.

O protesto do 30 de maio e o apoio dos governadores anti-AMLO

O Congresso Nacional Cidadão de Lozano estabeleceu o esqueleto institucional para o que se tornaria a FRENA. Atualmente, são essencialmente a mesma organização – a página oficial do CNC no Facebook até mesmo mudou seu nome para FRENA.

Em 2019, Lozano e o CNC ajudaram a organizar manifestações anti-AMLO que foram popularmente taxadas de “marchas fifí” – ou “marchas dos conservadores” – pois eram compostas das classes altas mexicanas. As marchas da FRENA do dia 30 de maio tiveram o mesmo espírito. Um meio de comunicação independente chamado México en Marcha descreveu a caravana em Guadalajara: “esse grupo [de manifestantes] não é maior do que 50 pessoas, mas por estarem em carros e por terem recursos para produzir cartazes e faixas, sua presença parece maior, mas na realidade, não chegam a 100 pessoas em todo estado de Jalisco”.

A FRENA também comprou banners profissionais em diversos estados no México, que liam “Em [nome do estado] não queremos você, Andrés López”. Apoiadores posaram em ângulos estratégicos para retratar o movimento como maior e mais amplo em todo o país.

Estes protestos são reminiscentes das marchas da classe alta brasileira antes do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Eles também se espelham nos protestos ocorridos em Santa Cruz, o baluarte da elite boliviana, que preparou o terreno para o golpe militar contra o presidente eleito Evo Morales em novembro de 2019.

Apoiadores de AMLO zombaram dos protestos da FRENA por sua pequena adesão. Mas ainda que os protestos tenham fracassado em atrair a maioria da classe trabalhadora mexicana, a organização possui aliados em altas posições. O documento vazado do Bloco Opositor Amplo alega que governadores de 14 dos 32 estados do México apoiam a campanha de oposição. Destes, sete governadores anti-AMLO se recusaram a seguir a política federal de reduzir a curva de Covid-19, conhecida como o plano “sinal vermelho”, criado pelo Subsecretário de Saúde Hugo López-Gatell Ramírez, um epidemiologista e especialista em doenças infecciosas.

Alguns destes governadores incentivaram e até mesmo apoiaram os protestos da FRENA. No estado de Jalisco, por exemplo, veículos da polícia foram vistos com faixas que diziam “Fora López Obrador”. Em outras palavras, o governo estadual de Jalisco utilizou dinheiro público para apoiar protestos contra o presidente eleito.

O governador de Jalisco, Enrique Alfaro, ganhou notoriedade nacional após uma série de escândalos. Em maio, um trabalhador mexicano de construção chamado Giovanni López foi detido em Jalisco, alegadamente por não utilizar máscara, mas o policial parece ter espancado-o até a morte. Ele morreu no hospital de traumatismo craniano, além de um ferimento à bala na perna.

A morte de Giovanni López inspirou enormes protestos que começaram em Jalisco e se espalharam por todo o país, de maneira similar aos protestos dos Estados Unidos em repúdio ao assassinato brutal de George Floyd pelas mãos da polícia.

Apesar dos grandes protestos, Alfaro defendeu a prisão de Giovanni López, alegando que os manifestantes eram de outras regiões do México, culpando López Obrador e acusando seu partido de incentivar a violência. Sua retórica inflamou ainda mais os protestos, expondo o extremismo de boa parte da oposição anti-AMLO. Alfaro também atraiu atenção nacional quando foi revelado que pagou mais de 1 milhão de pesos (cerca de US$ 50.000) em dinheiro público para meios de comunicação controlados por Enrique Krauze, uma figura midiática da direita, para lhe fazer propaganda.

Os protestos de junho e os planos futuros

No seu segundo protesto anti-AMLO, a FRENA alegou ter 140 caravanas pelo país e nos Estados Unidos no fim de semana de 13 e 14 de junho. Protestos foram registrados em todos os grandes centros urbanos do México, além de grandes cidades no Texas, Califórnia, Michigan, Illinois e Washington, e até Toronto, no Canadá. Assim como as marchas de maio, exibiram muitos carros e caminhões de luxo, com faixas e cartazes com mensagens como “Saia já AMLO, não queremos comunismo”.

O Twitter mexicano foi rápido em apontar a comédia dos protestos, como a foto que viralizou de um banner preso a um carro com os dizeres, “Não ao socialismo, não ao comunismo, não ao mozimismo, o México é católico”. Mozimismo não é uma ideologia real; é um termo fictício criado por trolls.

Apoiadores de AMLO também fizeram presença, com outra imagem que viralizou no Twitter de um humilde trabalhador mexicano segurando um cartaz, “AMLO, aqui em Dzan, Yucatan, te queremos! Que se danem os fifís!”

A FRENA é ainda relativamente pequena e quase totalmente dominada pela elite mexicana. Mas a frente afirma estar crescendo rapidamente, com seu segundo protesto praticamente dobrando de tamanho em relação ao primeira em número de cidades participantes, e um terceiro protesto está marcado para os dias 27 e 28 de junho.

A conexão da FRENA com as elites extremistas do México

Apesar da falta de base social da FRENA, ela possui o apoio de poderosas elites. Nem todos esses poderosos oligarcas são expostos publicamente, entretanto. Apesar da frente afirmar que possui 67 membros no conselho administrativo, apenas 4 deles são nomeados. Junto a Gilberto Lozano, o site lista Pedro Ferriz de Con, Rafael Loret de Mola e Juan Bosco Abascal.

O proeminente ativista anti-AMLO, Pedro Ferriz de Con, que convocou os oligarcas mexicanos para derrubarem o presidente com apoio estrangeiro.
O proeminente ativista anti-AMLO, Pedro Ferriz de Con, que convocou os oligarcas mexicanos para derrubarem o presidente com apoio estrangeiro.

Pedro Ferriz de Con é um jornalista anti-López Obrador conhecido por suas declarações hiperbólicas, como afirmar que “o governo não tem tido essa quantidade de problemas desde a Revolução Mexicana”. Ferriz concorreu à presidência em 2018 como candidato independente. Em abril, um áudio vazou no qual Ferriz de Con convocou “a remoção de AMLO do cargo com a ajuda de um grupo de empresários e de forças estrangeiras”. Esses comentários criaram um escândalo nacional no México, causando o pedido de abertura de investigação por um grupo de cidadãos na Procuradoria Geral.

Ferriz publicou um vídeo no canal do YouTube de Lozano expressando seu apoio total à FRENA. Ele também repetiu suas alegações exageradas, insistindo que o governo de López Obrador é o pior e mais perigoso que viu em seus 70 anos de vida ou que havia escutado de seu pai. Sob a liderança de AMLO, “veremos que não há, como havia no passado, qualquer espaço para o livre-mercado, livre-competição, respeito à propriedade privada, intelectual e industrial”, declarou Ferriz.

“Eu não quero, para meus filhos e próximos gerações, deixar o México imerso no socialismo. E hoje estou assistindo este país se tornar o topo do Foro de São Paulo”, ele acrescentou, se referindo a uma conferência internacional de partidos de esquerda latinoamericanos. Ferriz de Con concluiu o vídeo insistindo que a FRENA deveria se aproveitar da pandemia de coronavírus, a qual previu que levaria ao desemprego, “enorme fuga de capital”, e uma falta de investimento estrangeiro, para derrubar López Obrador.

O jornalista de oposição Rafael Loret de Mola, um membro destacado da FRENA.
O jornalista de oposição Rafael Loret de Mola, um membro destacado da FRENA.

Ao lado de Lozano e Ferriz de Con no conselho administrativo da FRENA está Rafael Loret de Mola, aposentado recentemente em agosto de 2019, após 38 anos de profissão, em um ato de protesto contra AMLO, a quem acusou de perseguição contra jornalistas de direita. Loret de Mola também publicou um vídeo apoiando fortemente a FRENA, demonizando a “Quarta Transformação” de AMLO como a “Quinta Armadilha” e taxando o governo de Obrador como um “farsa”.

Apesar de ter formalmente abandonado a mídia, seu filho Carlos continua o legado do pai como um feroz jornalista anti-AMLO. Carlos Loret de Mola apresentou um popular programa de notícias no conglomerado de mídia Televisa, além de trabalhar para as maiores redes de comunicação do México e Estados Unidos e atualmente escreve para o Washington Post.

Ambos Loret de Mola têm sido instrumentais para fornecer a justificativa intelectual para as reformas econômicas neoliberais empurradas pelos governos mexicanos anteriores. Antes da presidência de AMLO, o PAN e o PRI trabalharam juntos para realizar mudanças constitucionais que privatizaram os recursos naturais e indústrias estatais mexicanas, resultando no envolvimento privado e estrangeiro nos setores de energia, especialmente de petróleo e eletricidade.

Estas reformas neoliberais foram extremamente controversas, dado que a propriedade pública das reservas de petróleo do México foi consagrada na constituição de 1917, escrita durante a Revolução Mexicana. Para justificar e manter essas mudanças e criticar qualquer grupo ou indivíduo oposto a elas, a direita mexicana contratou uma equipe de auto-declarados “intelectuais” para influenciar o público. No México, o intelectual público ainda é reverenciado como uma figura importante e possui a atenção de grande parte da população.

Rafael e Carlos Loret de Mola cumpriram esse papel de intelectuais públicos anti-AMLO, gastando muito tinta para criticar o presidente. O governo de AMLO tem uma série de “Projetos e Programas Essenciais” que visam retomar a independência energética conquistada pelo México na década de 1930. Carlos Loret de Mola tem criticado fortemente o Plano Nacional de Energia Elétrica de Obrador, argumentando que a empresa estatal de energia é “ineficiente”. Sua proposta alternativa, é claro, é a “iniciativa privada”, que alega ser mais barata e melhor para o meio-ambiente – o que contraria a opinião dos especialistas.

O Conselho das Américas: a conexão com Washington

O que é mais notável sobre a oposição, entretanto, é sua ligação estreita ao Conselho das Américas (ASCOA), uma organização estadunidense que se apresenta como um think tank que impulsiona políticas neoliberais para avançar os interesses das corporações mais poderosas nas Américas do Norte e do Sul.

O ASCOA foi fundado no auge da Guerra Fria pelo oligarca David Rockefeller para unir os esforços dos grandes empresários para esmagar os crescentes movimentos socialistas na América Latina. Dentre os financiadores estão os maiores gigantes corporativos do planeta, incluindo a Exxon Mobil, Chevron, BlackRock, Citigroup, Google, J.P. Morgan, Monsanto, Walmart e Boeing. E dessa forma, tem forçado medidas agressivas para derrubar governos de esquerda na América Latina, apoiando diversos golpes de estado.

Carlos Loret de Mola fez um discurso para o ASCOA em 2015, intitulado “A Crescente Economia dos Cartéis de Drogas do México”. O braço midiático do ASCOA, o Americas Quarterly, retornou o favor, publicando uma avaliação elogiosa do seu programa de TV em Chiapas, defendendo como os “planos de poupança do governo mexicano podem gerar custos àqueles que visam ajudar”.

Ainda mais intrigante foi um evento apresentado por Carlos Loret no ASCOA dois dias após a vitória eleitoral de AMLO em julho de 2018. O ASCOA afirma que sediou “uma conferência extra-oficial com Carlos Loret de Mola, que compartilhou idéias sobre as implicações da avassaladora vitória de Andrés Manuel López Obrador”. Não há registros ou transcrições dessa conferência em lugar algum. Além disso, o evento foi fechado apenas para “membros de elite” do ASCOA, juntamente às corporações mais poderosas do mundo.

Extremistas católicos anti-AMLO alertam sobre a “Sinagoga de Satã”

O último membro conhecido do conselho administrativo da FRENA é Juan Bosco Abascal, um grande empresário com crenças fundamentalistas religiosas muito peculiares. Em sua página do Facebook, onde compartilha sem parar propaganda anti-AMLO e mantém cerca de 13.000 seguidores, Abascal afirma que trabalhou como “líder para projetos de desenvolvimento humano” para restaurantes e redes hoteleiras, para Ministério de Finanças do estado de Jalisco e para a Pemex, a empresa petroleira estatal do México.

Abascal também participou da liderança de uma ONG ultra-conservadora que se intitula “Família, Força do Futuro”, onde serviu como consultor e porta-voz, tratando de temas como “morte, cultura, aborto, contraceptivos e outras maldições”.

Juan Bosco Abascal, uma das lideranças da FRENA, afirma que a maçonaria visa criar uma Nova Ordem Mundial para controlar o planeta, como os presidentes venezuelanos Chávez e Maduro.
Juan Bosco Abascal, uma das lideranças da FRENA, afirma que a maçonaria visa criar uma Nova Ordem Mundial para controlar o planeta, como os presidentes venezuelanos Chávez e Maduro.

Em linha com seu extremismo religioso, Abascal diz que é atualmente um professor da Regnum Christi, uma federação internacional da Igreja Católica. Seus padres e seminaristas formam os fanáticos “Legionários”, descritos pelo Wall Street Journal como uma “conservadora ordem católica-romana em rápido crescimento” apoiada por “um grupo de bilionários latino americanos e alguns dos maiores financistas do mundo”. A federação “se concentra em educar os ricos e poderosos na crença de que ao evangelizar os líderes, o impacto benéfico na sociedade é multiplicado”, explicou o Wall Street Journal. Em outras palavras, acreditam em uma espiritualidade em “conta-gotas”.

O membro mexicano mais conhecido da ordem católica é um padre chamado Marcial Maciel, que foi acusado de molestar sexualmente oito adolescentes ao longo de duas décadas.

Juan Bosco Abascal tem deixado bem claras suas visões fundamentalistas em longos vídeos no Facebook e YouTube, nos quais cita frequentemente a Bíblia para explicar como os “maçons universais” visanam estabelecer uma “Nova Ordem Mundial” e criar um “governo mundial” utilizando o tráfico de drogas internacional e a mídia de massas. Ele retrata os movimentos de massas de esquerda na América Latina, como o chavismo venezuelano, como exemplos dessa influência satânica, citando Hugo Chávez e Nicolás Maduro como símbolos dessa conspiração nefasta.

Além de alertar em seus vídeos sobre a ameaça de “perdermos nossas almas na Sinagoga de Satã ou na Igreja do Anticristo”, Abascal já publicou dois livros defendendo essas malucas conspirações. Em um deles, culpa o “pós-modernismo” por todos os problemas do mundo, alertando sobre a “escravização moderna da humanidade através do fenômeno pós-moderno contra a Virtude, como a Banalização, Dessacralização, Descristianização, Desintegração da Família e muito mais”.

Seu outro livro, um romance intitulado “Desde o Ninho da Serpente”, reflete a visão de mundo dos ativistas extremistas anti-AMLO. Ele conta a história de um corajoso protagonista multimilionário que, inspirado por sua fé cristã, se recusa a trabalhar com a máfia global de drogas; assim, os ‘malvados’ subornam os políticos corruptos que “abandonaram sua fé católica” para assassinar sua família. O oligarca capitalista responde formando um exército privado que chamou de “Liga Espartana”, e declara guerra à “Maçonaria Universal” para livrar o mundo das drogas e da influência satânica.

Caso não tenha ficado claro que Abascal vê a si próprio e seus colegas oligarcas como o protagonista do livro, ele situa a história no México. A capa do livro emprega uma iconografia anti-semita, como uma Estrela de Davi enjaulando o planeta.

Capa do livro “Desde o Ninho da Serpente”, de Juan Bosco Abascal.
Capa do livro “Desde o Ninho da Serpente”, de Juan Bosco Abascal.

As visões fantasiosas de Abascal não desencorajaram Gilberto Lozano de promovê-lo abertamente como um “membro valoroso” da FRENA. Em seu canal do YouTube, Lozano publicou um vídeo de Abascal apoiando a frente, onde o escritor se refere a Obrador como “MALO” e repetidamente chama a pandemia de coronavírus de “praga chinesa”. Abascal atacou o sistema e os profissionais de saúde do México com uma nova conspiração: de que o governo de AMLO tem usado a Covid-19 como arma e “deixou o México se infectar com o vírus intencionalmente” para implementar a Quarta Transformação, e que agora o país “está indo em direção a uma crise monstruosa e inimaginável”.

No passado, outro membro da FRENA foi exposto publicamente: Pedro Luis Martín Bringas, um proeminente acionista da Soriana Organization, uma rede de supermercados sediada em Monterrey que recebeu renúncias fiscais dos governos anteriores. Entretanto, Martín Bringas parece ter sido expulso da FRENA no dia 17 de maio, de acordo com o site. Um ponto de revolta dos grandes empresários é o esforço do governo de López Obrador em cobrar as dívidas fiscais das empresas, gerando uma necessária receita pública.

A FRENA retrata a igualdade de gênero e homossexualidade como uma conspiração comunista

O elenco de fanáticos delirantes escalado contra López Obrador pode parecer muito marginal para ter um impacto considerável na política mexicana, mas esses são precisamente o mesmo tipo de extremistas que lideraram campanhas bem-sucedidas para derrubar governos de esquerda na América Latina no passado.

Na Bolívia, elementos similarmente fascistas foram escalados para liderarem o golpe militar apoiado pelos Estados Unidos em novembro de 2019, e no Brasil as forças de direita lançaram um golpe brando contra o Partido dos Trabalhadores e conduziram o atual governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro ao poder.

Uma boa olhada no site da FRENA reflete precisamente o mesmo tipo de ideologia fascista que se espalhou pela América Latina com a ajuda de Washington. Uma seção do site é intitulada “Plano Comunista do Foro de São Paulo para o México”, e expressa que a mera presença do MORENA no evento – uma conferência anual que reúne organizações progressistas latino americanas – em Cuba em 2018 significa que o governo visa tornar o México um país comunista.

A FRENA também fabricou um plano paranóico do Foro de São Paulo para “instalar o comunismo no México”. Alguns dos passos do falso modelo incluem garantir a “igualdade de gênero”, “desmistificar as religiões”, “reformar a educação para a igualdade”, e a arrepiante “agenda progressista (ABORTO, drogas, homossexualismo, relativismo de valores)”.

A teoria da conspiração de que o Foro de São Paulo está controlando governos e movimentos sociais na América do Sul e até mesmo no Norte está ficando cada vez mais popular nos círculos de extrema-direita. Essa acusação maluca foi até mesmo usada contra o Grayzone e seu editor Max Blumenthal para pintá-los como arquitetos dos atuais protestos anti-violência policial nos Estados Unidos.

Gilberto Lozano tem repetido essa conspiração em diversas ocasiões. Em uma entrevista na rede de televisão mexicana La Octava, no dia 5 de junho, ele afirmou sem nenhuma evidência que “não há dúvidas que Francisco Arias, o embaixador da Venezuela no México, está formulando a agenda de AMLO”. O apresentador do programa, um jornalista mainstream muito popular no México, perguntou Lozano como exatamente o governo de Obrador estava levando o país ao comunismo, destacando que AMLO nunca fala sobre isso. Lozano novamente apontou para a participação do MORENA no Foro de São Paulo e insistiu que AMLO “está seguindo sua agenda”.

Esse ponto é particularmente irônico, já que o Partido da Revolução Democrática, de centro-esquerda, também faz parte do Foro, mas fez parte de uma coalizão de apoio ao candidato Ricardo Anaya contra Obrador nas eleições de 2018 e também faz parte do Bloco Opositor Amplo, que conspira para remover o presidente eleito do cargo.

Em seu site, a FRENA também mantém uma “Galeria da Ditadura Comunista”, uma “lista-negra” de apoiadores de AMLO, incluindo fotos indelicadas de membros do governo, políticos, jornalistas e intelectuais. Usando de xenofobia explícita, a lista enfatiza quais dos aliados de Obrador nasceram em outros países e suas origens étnicas ao lado de seus nomes – sem mencionar que são todos cidadãos mexicanos naturalizados que passaram décadas vivendo no país.

Gilberto Lozano tem repetidamente recorrido à xenofobia em seus ataques contra Obrador. Em sua entrevista em 5 de junho na La Octava, Lozano novamente tentou retratar o presidente e seus assessores como a “quinta-coluna” estrangeiros, insistindo que John Ackerman (nascido nos Estados Unidos), Paco Ignacio Taibo II (nascido na Espanha) e Héctor Díaz Polanco (nascido em Cuba) não são verdadeiros mexicanos, apesar de serem cidadãos e naturalizados.

O próximo Bolsonaro?

Hernán Gómez, o apresentador da La Octava, introduziu a entrevista com Lozano reconhecendo-o como uma figura extremista. Ele até mesmo publicou uma coluna em seguida descrevendo a FRENA como a “Frente Nazi-onal anti-AMLO”, comparando-a com os nazistas. Mas Gómez acreditou que sería importante entrevista-lo, preocupado que Lozano pode se tornar uma figura similar a Jair Bolsonaro.

“Eu sei que existem pessoas que não concordam em dar espaço para esse tipo de pessoa, mas eu estou convencido que não podemos subestimar figuras como essa”, disse Gómez. “Há pouco tempo atrás, o presidente do Brasil era um deputado medíocre que não passou uma lei sequer, um homem ríspido e belicoso que, assim como Lozano, não era levado a sério por ninguém. Na verdade, muitos achavam que ele era mentalmente desequilibrado”.

“Poucos imaginavam que ele se tornaria o presidente do Brasil. Mas assim como veio Trump após Obama, também veio Bolsonaro depois de Lula”, continuou o apresentador. “Então é errado subestimar pessoas como Gilberto Lozano, não muito pois pode ter alguma grandeza escondida, mas sim porque caso o governo de AMLO fracasse em cumprir as expectativas de certos setores como a classe média, eventualmente uma figura de extrema-direita, anti-sistema pode se fortalecer e se aproveitar do momento”.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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