Brasil

Se avizinha a mais brutal derrota eleitoral do campo popular brasileiro

Com a aproximação das eleições municipais, os partidos tradicionais da esquerda liberal se preparam para – o que imaginam ser – seu momento de glória. Mas tudo indica que isso é uma profunda ilusão.

Por Eduardo Pessine, revisão de Flávia Nobre

O campo popular foi capturado, no últimos anos, por uma classe média moralista que, por dependência de projetos carreiristas, está disposta a afundar juntamente com a apodrecida ordem de 1988. Foto por Nelson Jr.
O campo popular foi capturado, no últimos anos, por uma classe média moralista que, por dependência de projetos carreiristas, está disposta a afundar juntamente com a apodrecida ordem de 1988. Foto por Nelson Jr.

Com a aproximação das eleições municipais, os partidos tradicionais da esquerda liberal se preparam para – o que imaginam ser – seu momento de glória: um prelúdio da grande vitória eleitoral advinda do fracasso econômico do governo Bolsonaro. Mas tudo indica que isso é uma profunda ilusão.

Na virada de julho para agosto acontecerão as convenções partidárias para definição dos candidatos aos cargos de vereador e prefeito para as eleições deste ano, e já começam a pipocar por todos os lados os aspirantes ao cretinismo parlamentar típico de nosso atual momento político.

Logo de cara, já temos a maior contradição do esquerdismo liberal vindo à tona: os partidos hegemônicos passaram os últimos 4 anos esperneando as palavras “golpe”, “fraude”, “fascismo”, entre outras, mas sua práxis política se manteve a mesma, como se estivéssemos em uma normalidade democrática. A derrubada fraudulenta de Dilma Rousseff, – que contou com a cumplicidade do PT e da própria golpeada – a prisão ilegal do ex-presidente Lula, que se acovardou naquele fatídico dia 6 de abril e se entregou à polícia de Moro também sem nenhuma resistência, e por fim, a eleição fraudada de 2018, tanto pela remoção do candidato com maiores intenções de voto, quanto pelo fartamente documentado “caixa dois” de Bolsonaro e sua campanha feita pelos quartéis em todo país, tudo foi tratado pela esquerda liberal como um mero “detalhe”! Apesar disso tudo, ainda vivemos em uma bela democracia que precisa ser defendida!

Sendo assim, a pauta esquerdista destas eleições se tornou a vazia “defesa da democracia”, que na prática, não significa absolutamente nada para além de um jargão muito atraente para as camadas médias intelectualizadas, atreladas ao aparelho de estado e na profunda dependência a ele construída ao longo dos anos nos tradicionais partidos de esquerda. A entourage dos mandatos, ou seja, a trupe por de trás dos candidatos com seus cargos muito bem-remunerados, já reservados no caso da vitória, criaram uma dependência endêmica dos partidos ao eleitoralismo, já que a ausência de algumas cadeiras legislativas pode significar uma bancarrota generalizada. Os partidos hegemônicos estão hoje impossibilitados de lutar contra a ordem, já que dependem financeiramente dela. Neste sentido, essa não é apenas uma crítica moral, mas diz respeito à própria forma de organização dos partidos e suas relações de dependência econômica criadas nos longos anos de controle do aparelho estatal. Essa dependência se reflete nos seus discursos e práticas políticas de forma devastadora.

O grande problema é que esta práxis política que emerge a partir da dependência econômica, a defesa da ordem, expressa nos jargões vazios de “defesa da democracia” e “luta contra o fascismo”, levará o campo popular à atrofia completa, já que a ordem que ousam defender é a mesma que nutriu o ódio em nosso povo por sua completa falência moral e política. Chamamos esta ordem de República Rentista, o ordenamento político que foi rechaçado pelo povo brasileiro na eleição de 2018.

Bolsonaro foi eleito a partir deste fenômeno. Sua eleição não representa uma “onda conservadora” ou uma “ameaça fascista”, mas sim uma profunda repulsa do povo brasileiro ao ordenamento político que se consolidou no país nas últimas décadas que, apesar de suas promessas, precarizou os serviços públicos, os salários, as condições de vida e as perspectivas de futuro, ao mesmo tempo que engordou como nunca os banqueiros. Bolsonaro, ainda que de forma farsesca, encarnou essa repulsa, essa revolta “contra tudo que está aí” – renovou a prática política da direita, se afastando da ordem ainda que apenas na aparência.

A esquerda liberal, entretanto, seguiu o caminho oposto. Ignorou a demanda popular por mudança e apostou na defesa da ordem, da democracia, das instituições; tudo que há de mais podre e disfuncional no Brasil. A candidatura de Haddad representou isto: o professor universitário, funcionário público, cheio da grana, que “fala bonito”; uma caricatura do liberalismo de esquerda, o “bom-moço”, que respeita “tudo que está aí”, ao contrário de Bolsonaro, o tosco, que nutre o ódio contra o sistema. O resultado não surpreendeu ninguém: a maior derrota eleitoral da esquerda das últimas décadas.

Essa derrota, no entanto, foi um projeto. Não houve reais intenções de vitória da esquerda liberal naquelas eleições, visando apenas manter a hegemonia política em seu campo na esperança de que o (óbvio) fracasso do governo antinacional de Bolsonaro significasse o posterior retorno do petismo ao poder. Neste sentido, o plano foi parcialmente bem-sucedido: a hegemonia foi conquistada, com até mesmo o PSOL, partido que no pré-2016 abrigava um discurso anti-petista à esquerda, se tornando um “puxadinho do PT”, abandonando qualquer crítica real e majoritária ao seu padrinho político.

A segunda parte, entretanto, se mostrou um brutal equívoco.

Primeiramente, a frente contra o “fascismo” se mostrou um grande fracasso em praticamente todo o país, com candidaturas fragmentadas na maioria das capitais. Além disso, as pesquisas apontam, no caso de São Paulo, que o campo que mais ganha com a derrocada do bolsonarismo é a própria direita, com candidatos de perfil “outsider”, desassociados da política tradicional. A esquerda liberal apresenta um desempenho ínfimo. Este cenário se repete em outras capitais como Belo Horizonte e até mesmo em Salvador. Não há absolutamente nada que indique que o derretimento de Bolsonaro – um fato real e até mesmo necessário à burguesia frente ao colapso econômico que se aproxima – significará um ganho, mesmo que eleitoral, para o campo popular.

Como dito anteriormente, isso não ocorre devido a uma “onda conservadora”. É na verdade, uma consequência da própria práxis política da “esquerda”. A defesa da ordem, da “democracia”, é uma sentença de morte política em meio ao completo colapso da Nova República. A direita radicalizou sua atuação através do bolsonarismo, enquanto a esquerda manteve a antiga prática do bom-mocismo moderado. Não há mais espaço na política para a defesa da apodrecida República Rentista, que, ainda que feita de forma abstrata, resultará, ao que tudo indica, numa brutal derrota eleitoral do campo popular.

O atual momento exige uma profunda radicalidade política, a luta contra a ordem, pela destruição do rentismo e a retomada da soberania nacional e popular. Sem isto, a “esquerda” será enterrada junto ao caixão da moribunda Constituição de 1988, que foi rasgada com a ofensiva imperialista a partir de 2014. A desindustrialização, o desemprego, a precarização dos serviços públicos, o desalento, a morte do futuro do Brasil, são resultados da atual ordem política, e é ela que devemos combater. O Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional são instituições apodrecidas, covis de ladrões, que não merecem nossa defesa!

É apenas com um movimento de libertação nacional que reconquistaremos a confiança do povo!

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