Análise Semanal da Conjuntura Brasileira Brasil

A oportuna prisão de Queiroz: não há nada a se comemorar

A prisão de Queiroz, comemorada por todos os lados pela oposição do governo, faz parte de uma disputa interna do setor antinacional e, independente das consequências, não significará vitória alguma para o povo brasileiro.

Por Eduardo Pessine, revisão de Flávia Nobre

Fabrício Queiroz deixa o IML em São Paulo após sua prisão em Atibaia. Foto por Sebastião Moreira.
Fabrício Queiroz deixa o IML em São Paulo após sua prisão em Atibaia. Foto por Sebastião Moreira.

Após se manter foragido por meses, Queiroz é preso em Atibaia, em um imóvel de Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro. Esse acontecimento, comemorado por todos os lados pela oposição do governo, faz parte de uma disputa interna do setor antinacional e, independente das consequências, não significará vitória alguma para o povo brasileiro.

Existe uma pergunta crucial a se fazer em relação à prisão do ex-assessor e ex-motorista do filho de Jair Bolsonaro: por qual motivo ela ocorre agora? É preciso uma grande dose de ingenuidade para acreditar que seu paradeiro só foi identificado recentemente, ainda mais com notícias de que Queiroz estava em Atibaia há mais de um ano, e pelo fato do imóvel pertencer ao próprio advogado da família presidencial, sendo frequentado por familiares do ex-assessor. Parece claro que a prisão foi realizada em um momento oportuno, visando o impacto midiático e um desgaste de Bolsonaro.

Já deixamos claro nas análises anteriores que existe uma disputa dentro dos setores antinacionais, e essa disputa poderá significar a queda de Bolsonaro e uma reestruturação do regime político brasileiro; uma saída “democrática”, através de um semi-parlamentarismo dirigido por Rodrigo Maia em aliança com os governadores, desesperados por uma resolução para a crise fiscal dos estados – documentada também anteriormente. Outra possibilidade é um estado policial que apresente uma continuidade direta do governo militar de Bolsonaro (o governo com maior número de militares na história brasileira), que levará o ajuste fiscal a cabo através da violência. Isso representaria uma espécie de “governo fantoche” dos Estados Unidos, já que o setor militar que atualmente ocupa o estado possui alinhamento direto e se subordina ao Comando Sul estadunidense. A burguesia brasileira se contentaria com ambas saídas, já que como mostra a história brasileira, não possui nenhum pudor ou apreço democrático, sendo uma classe essencialmente parasitária e exportadora.

O que definirá qual desses caminhos será o rumo futuro do Brasil serão as condições materiais nos próximos meses. Primeiro, se os partidos hegemônicos serão capazes de conter a revolta social que poderá explodir com a crise do coronavírus – que já chega a 1 milhão de casos e 50 mil mortos em números oficiais, o que provavelmente significa na realidade mais de uma centena de milhares de mortos – através de um “frentão”, canalizando todo o ódio sistêmico na figura de Bolsonaro e salvando todos os demais atores políticos antinacionais que o rodearam e o rodeiam.

Segundo, se o grau de devastação econômica será gerenciável, já que a retração do PIB já se aproxima dos dois dígitos e pesquisas apontam para uma taxa de desemprego de 17%. Observando outros dados, entretanto, fica evidente uma situação ainda pior. O número de beneficiários do auxílio emergencial, os míseros R$ 600, é de 53,9 milhões. Isso pode indicar, com uma população economicamente ativa de 91,5 milhões, uma taxa de desemprego (ou ao menos de redução drástica da renda) de mais de 50%! Um colapso econômico dessas proporções poderá forçar a burguesia brasileira a uma reorganização econômica que evite uma destruição completa da economia nacional, com projetos de geração de emprego e programas sociais mínimos. Neste caso, o semi-parlamentarismo seria o caminho preferível.

Entretanto, uma catástrofe como a descrita acima pode causar um caos social de grandes proporções, que exigirá uma “limpa” para um novo regime político. Além disso, poderá surgir uma alternativa política real à ofensiva imperialista, que exigirá uma solução de força. Neste sentido, a ascensão de Mourão poderá significar a instalação de um estado policial, um regime de “segurança nacional” para restabelecer a ordem. A burguesia também preparou o terreno institucional para isso, através de diversos projetos que já foram aprovados na Câmara e no Senado, além da própria lei antiterrorismo aprovada pela presidente Dilma Rousseff e da Lei de Segurança Nacional herdada da Ditadura Militar e utilizada pelo STF para prender uma apoiadora de Bolsonaro na última semana.

No famoso áudio de Romero Jucá, em 2016, onde falava do “acordo nacional”, disse também que estava “conversando com os generais” e que eles iriam “garantir” o impeachment de Dilma Rousseff. É difícil acreditar que uma futura derrubada de Bolsonaro também não passe pelo aval dos generais, que diferentemente de 2016, agora controlam o aparelho de estado. O acordo também envolvia o STF, que atualmente faz o jogo de Rodrigo Maia e dos governadores. O fato é que o “acordão” político de 2016, em sua disputa pelo poder, rachou ao meio, e a prisão de Queiroz é mais um episódio desse embate.

E assim como aquele momento, às vésperas da queda de Dilma, a esquerda aparece novamente excluída do processo político, se reservando ao papel de uma torcida organizada dos tribunais, vibrando por uma ou outra decisão judicial que a permita aplaudir e cantar como vitória – é esse também o caso com essa recente prisão do ex-motorista de Flávio Bolsonaro.

Essa suposta vitória é, entretanto, uma profunda ilusão. O fundo de ambos projetos em disputa, um semi-parlamentarismo de Rodrigo Maia, ou um estado policial do Comando Sul estadunidense, é o mesmo: a rapina e inviabilização da nação brasileira. Caindo ou não Bolsonaro, entrando Maia ou Mourão, seja qual for a estrutura política, a política econômica de Paulo Guedes continua (com ou sem ele), e desta forma, continuará a morte de milhares de brasileiros por falta de atendimento médico, o descalabro da superexploração do trabalho, a prisão e assassinato em massa dos pobres e negros das periferias como forma de controle do exército industrial de reserva, a privatização das empresas nacionais estratégicas, e por aí vai.

E esse é objetivo do “frentão”: acabar com Bolsonaro e sua ascendência carismática – um fator de instabilidade – enquanto mantém todas as estruturas econômicas e políticas que condenam o Brasil à condição de colônia financeira: o rentismo, a desindustrialização e o fraudulento esquema da dívida dita “pública”.

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