Internacional

Fascismo: a fase final do capitalismo?

Por Eduardo Pessine, revisão de Flávia Nobre

Manifestantes de extrema-direita reunidos na marcha “Unite the Right” em Charlottesville, nos Estados Unidos, em 2017. Foto por Tony Crider.
Manifestantes de extrema-direita reunidos na marcha “Unite the Right” em Charlottesville, nos Estados Unidos, em 2017. Foto por Tony Crider.

Na virada do século XIX e XX, observamos a formação da fase superior do capitalismo, o imperialismo, tão bem descrita por Lenin. Talvez estejamos observando agora uma nova fase do atual sistema econômico, sua investida final – e brutal – contra o impulso de desenvolvimento da humanidade.

No início do século passado, Lenin caracterizou o imperialismo – a repartição do mundo entre as grandes potências capitalistas e seus estados geridos pelos monopólios do capital financeiro – como a fase superior do capitalismo. Ergueu-se a Inglaterra como o grande império ao final do século XIX, e com a ascensão dos Estados Unidos, Alemanha e Japão como candidatos à hegemonia financeira global, houve o inevitável choque entre eles nas duas guerras mundiais. A vitória soviética, chinesa e coreana contra os regimes fascistas, que visavam implantar o modelo colonial do liberalismo no leste europeu e na Ásia, e as bombas atômicas estadunidenses no Japão, selaram a ascensão dos Estados Unidos como grande império mundial, concentrador do poder do capital financeiro global através do dólar.

A grande potência norte-americana, entretanto, nunca teve sua ordem doméstica de fato ameaçada, separada pelo Oceano Atlântico dos grandes conflitos europeus e com o punho de ferro que massacrou os movimentos revolucionários internos. Seu modelo de democracia liberal, com o colégio eleitoral e o suposto bipartidarismo, sempre foram suficientes para a manutenção de poder da burguesia financeira estadunidense.

A Alemanha e a Itália apresentavam condições diferentes. O povo alemão e italiano dispunha de grandes e organizados partidos operários que, frente a grave crise econômica e destruição que passavam ambos os países – especialmente a Alemanha após o final da Primeira Guerra – posavam uma ameaça real às suas ordens capitalistas nacionais. A Revolução Russa de 1917 também significou uma força internacionalista real dos trabalhadores que avançava em direção à Europa e causou arrepios nas burguesias de todo continente. A continuidade da democracia nestes países significaria, mais cedo ou mais tarde, a vitória do povo e a derrubada dos grandes financistas do poder. Não havia mais espaço para representação política ampla sem contestar as bases econômicas nacionais.

A solução encontrada foi o fascismo. Um regime de repressão brutal, com adesão de massas pelo apelo chauvinista, e a perseguição sistemática de todos aqueles indivíduos e ideais que apontavam para a revolução e para a resistência contra um novo impulso colonial dentro da própria Europa. Essa foi a forma que tomaram os capitalismos alemão, italiano e japonês, que depois se espalhou por boa parte da região, uma verdadeira muralha para barrar o avanço do socialismo e a libertação anticolonial dos povos do leste-europeu. Ficou claro ali as verdadeiras feições do sistema capitalista frente à sua destruição; sua expressão brutal e violenta, seu último impulso de sobrevivência, claro e evidente na periferia do sistema, foi exposta contra o povo central; os impérios se voltaram contra sua própria população com toda cólera e ímpeto de destruição e acumulação próprios do imperialismo.

Passamos agora para o século XXI, após a derrubada da União Soviética, a ofensiva neoliberal e o ciclo de revisionismo histórico que desassociou o fascismo do capitalismo, colocou-o em uma “caixinha” denominada “totalitarismo” juntamente com o socialismo real. O imperialismo alcançou níveis de concentração tão gigantescos, tão brutais, que até mesmo o povo estadunidense adentrou um processo de empobrecimento. A classe média já não existe mais nos Estados Unidos, enquanto Amazon e Apple atingem valores de mercado de US$ 1 trilhão. Já não existe mais impulso de desenvolvimento no capitalismo contemporâneo; a tecnologia estadunidense está estagnada. E para piorar tudo, a imensa bolha financeira que quase estourou em 2008 continua artificialmente inflada, e encontrou em 2020 seu terreno perfeito para reorganização.

A pandemia de coronavírus caiu como uma luva para que o sistema financeiro reformulasse toda sua estrutura ultra-inflacionada, sob o pretexto de uma emergência sanitária, ocultando assim a completa falência sistêmica do capitalismo. Não esperavam talvez, que outro efeito da pandemia seria também a exposição do completo descaso dos estados capitalistas às vidas de suas populações, não só apenas como consequência de suas próprias características, mas pela extraordinária resposta dada pelos países socialistas.

China, Vietnã, Coreia Popular e Cuba demonstraram a imensa superioridade do socialismo como um sistema econômico que garante a vida e prosperidade de seu povo. Enquanto os países capitalistas hesitaram em tomar quaisquer medidas que afetassem a “economia” – ou em termos claros, os lucros – em favor da saúde de seus cidadãos. O resultado foi um massacre: mais de 300 mil mortos, enquanto o pólo socialista não chegou a 5 mil. E se não bastasse a grande vitória sanitária, a economia chinesa já aponta sinais rápidos de recuperação e projeção de crescimento para 2020, enquanto o ocidente irá certamente se afundar em uma longa depressão econômica.

Se o golpe da pandemia já havia sido duro, o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos causou um levante anti-racista de grandes proporções nas últimas semanas. A repressão contra as manifestações foi assustadora, incomparável a qualquer incidente ocorrido durante as largamente midiatizadas manifestações em Hong Kong, tomadas no ocidente como comprovação do “autoritarismo” do socialismo chinês. Ocorre em escala global uma desmoralização do sistema capitalista, acompanhada da degradação material da vida de suas populações.

Ainda que os levantes mundo afora tenham um caráter politicamente difuso, talvez sua caracterização antifascista tenha um fundo de conexão com a realidade. Com essa brutal desmoralização e uma crise econômica sem precedentes, podemos estar observando, emfim, o início de uma real ameaça da ordem capitalista, ou ao menos da sua relativa estabilidade interna que desfrutou desde a década de 1990. A democracia liberal, que até agora muito bem serviu como forma de dominação dos povos nos países centrais, pode estar chegando ao seu limite frente ao colapso cada vez mais acelerado dos padrões de vida populares. A situação de descalabro dos países europeus nas primeiras décadas do século XX pode estar chegando ao império estadunidense, a consequência de uma concentração descontrolada ao longo das últimas décadas.

Ainda que a revolta popular não seja dirigida por um partido operário de massas, inexistente em todos os países centrais, o caos social desgovernado pode exigir uma solução de ordem e uma barreira de contenção para o socialismo novamente – não mais soviético, mas desta vez, asiático. A depender dos acontecimentos, poderemos observar, em breve, a fase final do capitalismo global, sua forma mais crua de resistência frente a marcha da história humana, fase esta que experimentamos na metade no século passado em uma escala limitada: o fascismo.

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