EUA

A ‘israelização’ da segurança interna estadunidense

Um em cada oito membros da força policial de Minneapolis foi influenciado por métodos de treinamento policial de um regime de apartheid de ocupação: Israel.

Por Max Blumenthal, via The Grayzone, tradução de Eduardo Pessine, revisão de Flávia Nobre

Soldados israelenses prendem Fawzi al-Junaidi, um jovem de 16 anos, em Hebrom, durante protestos contra a decisão estadunidense de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel, em dezembro de 2017. Foto por Wisam Hashlamoun.
Soldados israelenses prendem Fawzi al-Junaidi, um jovem de 16 anos, em Hebrom, durante protestos contra a decisão estadunidense de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel, em dezembro de 2017. Foto por Wisam Hashlamoun.

Nota do editor: Este artigo foi publicado por Max Blumenthal em 2011, mas reflete questões muito atuais acerca do estado policial reforçado após os ataques às Torres Gêmeas em 2001 nos Estados Unidos.

A erupção dos protestos contra a brutalidade policial após o assassinato de George Floyd chamou a atenção ao treinamento israelense recebido por agentes de segurança em todo o país. Cem membros do contingente de 800 agentes do departamento de polícia de Minneapolis foram treinados em uma conferência em Israel em 2012. Isso significa que ao menos 1 em cada 8 membros da força policial da cidade foram influenciados pelos métodos de um apartheid de ocupação.

Em outubro, o Departamento de Polícia do Condado de Alameda transformou partes do campus da Universidade da Califórnia, em Berkeley, em um campo de batalha urbano. O evento foi a Urban Shield 2011, uma exposição anual da SWAT organizada para promover “respostas mútuas”, colaboração e competição entre forças policiais altamente militarizadas que representam os departamentos de segurança doméstica nos Estados Unidos e em nações estrangeiras.

Na época, o Departamento de Alameda estava se preparando para um confronto iminente com o novo movimento Occupy que havia tomado o centro de Oakland, e demonstraria o grosso de sua capacidade repressiva contra os manifestantes um mês depois, quando atacou o acampamento com gás lacrimogêneo e balas de borracha, deixando um veterano da guerra do Iraque em estado grave e dezenas de feridos. De acordo com a Police Magazine, uma publicação do ramo de segurança, “as agências de segurança que responderam aos manifestantes do Occupy na região norte da Califórnia dão crédito à Urban Shield por seu efetivo trabalho em equipe”.

Treinando ao lado dos departamentos de polícia estadunidenses na Urban Shield estava o Yamam, uma unidade de polícia fronteiriça israelense que afirma se especializar em operações “contra-terroristas”, mas é melhor conhecida por seus assassinatos extra-judiciais de líderes palestinos e seu longo histórico de repressão e abusos nas regiões ocupadas da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. A Urban Shield também exibiu uma unidade militar do Barém, que recentemente havia esmagado uma revolta democrática não-violenta abrindo fogo contra manifestantes e prendendo feridos que tentavam entrar em hospitais. Enquanto a participação dos soldados do Barém nos treinamentos foi uma novidade, a presença da quase-militar polícia israelense – cuja participação na Urban Shield foi omitida por toda mídia estadunidense – refletiu uma característica perturbadora porém muito comum do cenário da segurança dos EUA pós-11 de setembro.

A israelização do aparato de segurança estadunidense, recentemente usado com força total contra o movimento Occupy Wall Street, ocorreu em todos os níveis de agentes da lei, e em áreas que ainda não temos conhecimento. Este fenômeno foi documentado parcialmente, através de reportagens ocasionais que destacam as proezas da segurança nacional de Israel, deixando de lado as questões problemáticas de trabalhar com um país acusado de graves abusos dos direitos humanos. Mas isto nunca foi objeto de ampla discussão. E a colaboração entre as polícias americana e israelense é apenas a ponta do iceberg.

Tendo sido treinadas em táticas israelenses aperfeiçoadas durante uma experiência de 63 anos de controle, ocupação e desapropriação da população local, as forças policiais americanas às adaptaram para monitorar bairros muçulmanos e de imigrantes em diversas cidades. Enquanto isso, ex-agentes militares de Israel foram contratados para liderar operações de segurança em aeroportos e shoppings, causando uma onda de incidentes perturbadores de discriminação racial, intimidação e interrogatórios de pessoas inocentes por parte do FBI. A revelação de que o Departamento de Polícia de Nova Iorque aplicou medidas “contra-terroristas” contra os manifestantes do Occupy acampados no Zuccotti Park, no centro de Manhattan, levantou sérias dúvidas sobre a extensão em que foram usadas táticas israelenses para suprimir o movimento Occupy em geral.

O processo de israelização começou logo após o 11 de setembro, quando o pânico generalizado levou as autoridades de segurança federais e municipais a implorar aos magnatas da segurança israelense por assessoria e treinamento. O lobby de Israel nos Estados Unidos se aproveitou do clima de histeria, fornecendo viagens para os melhores policiais e sessões de treinamento ao setor público com autoridades militares e de inteligência israelenses. Atualmente, os chefes de polícia das grandes cidades americanas que não fizeram excursões para Israel são as exceções.

“Israel é a Harvard do antiterrorismo”, disse o ex-chefe da Polícia Legislativa dos Estados Unidos, Terrance W. Gainer, que agora serve como Mestre de Cerimônia do Senado. Cathy Lanier, a Chefe da Polícia Metropolitana de Washington DC, destacou, “Nenhuma experiência em minha vida teve um impacto maior na realização do meu trabalho do que ir para Israel”. “Pode-se dizer que é a linha de frente”, disse Barnett Jones, chefe de polícia de Ann Arbor, Michigan, sobre Israel. “Estamos em uma guerra global”.

Mudando nossa forma de fazer negócios

O Instituto Judeu de Assuntos de Segurança Nacional (JINSA, em inglês) está no centro da colaboração de segurança americana-israelense. O JINSA é um think tank sediado em Washington DC e Jerusalém conhecido por posições políticas veementemente neoconservadoras em relação à Palestina e ao Irã. A diretoria do grupo é repleta de ideólogos neoconservadores. Dois ex-conselheiros do JINSA que também assessoraram o primeiro-ministro isralense Benjamin Netanyahu, Douglas Feith e Richard Perle, serviram como parte do Departamento de Defesa do presidente George W. Bush, cumprindo papéis decisivos no incentivo para invadir e ocupar o Iraque.

Através de seu Programa de Educação em Segurança Pública (LEEP, em inglês), o JINSA alega ter realizado sessões de treinamento para mais de 9.000 agentes de segurança estadunidenses a nível federal, estadual e municipal. “Os israelenses mudaram nossa forma de fazer negócios em relação à segurança doméstica em Nova Jersey”, disse Richard Fuentes, superintendente da Polícia de Nova Jersey, após participar de uma viagem para Israel, patrocinada pelo JINSA em 2004, e uma conferência do instituto ao lado de outros 435 agentes de segurança.

Durante uma viagem do LEEP em 2004, o JINSA levou 14 agentes de segurança veteranos dos EUA para Israel para receberem treinamento de seus pares. Os americanos foram treinados em “como proteger grandes locais, como shoppings, eventos esportivos e shows”, segundo o site do instituto. Escoltado pelo General de Brigada Simon Perry, um diplomata policial e ex-agente do Mossad, o grupo passou pelo muro de separação de Israel, agora um destino obrigatório para os policiais americanos no país. “Os agentes estadunidenses aprenderam sobre a mentalidade de um homem-bomba e como detectar sinais de problemas”, de acordo com o JINSA. E também foram treinados em métodos israelenses de matar. “Embora a polícia seja tipicamente treinada para mirar no peito ao atirar, por ser o maior alvo, os israelenses estão ensinando os agentes estadunidenses a mirarem na cabeça do suspeito, para que não sejam detonados quaisquer explosivos que podem estar presos em seu tronco”, publicou o New York Times.

Cathy Lanier, atual chefe do Departamento da Polícia Metropolitana de Washington DC, estava entre os agentes de segurança enviados a Israel pelo JINSA. “Eu estive com as unidades antibomba e as equipes da SWAT e todas aquelas unidades especializadas israelenses e aprendi tremendamente”, afirmou Lanier. “Eu fiz 82 páginas de anotações enquanto estive por lá, e utilizei boa parte delas para formular a divisão antiterrorista de Segurança Nacional do departamento”.

Alguns dos chefes de polícia que participaram do LEEP do JINSA o fizeram sob tutela do Fórum de Pesquisa Policial Executiva (PERF, em inglês), um grupo privado não-governamental com relações próximas ao Departamento de Segurança Nacional. Chuck Wexler, o diretor-executivo do PERF, estava tão entusiasmado com o programa que já em 2005 começou a organizar viagens à Israel patrocinadas pelo PERF, levando diversas autoridades policiais de alto nível para receberem instruções de seus pares israelenses.

O PERF ganhou notoriedade quando Wexler confirmou que seu grupo coordenou incursões policiais em 16 cidades pelo país contra os acampamentos do Occupy. Ao menos 40 cidades buscaram assessoria do PERF para reprimir o movimento Occupy e outros protestos de massa. Wexler não respondeu a pedidos por uma entrevista.

Lições de Israel para Auschwitz

Para além do JINSA, a Liga Anti-Difamação (ADL, em inglês) tem se posicionado como um elo importante entre as forças policiais estadunidenses e o aparato de inteligência de Israel. Embora a ADL se promova como um grupo judeu de direitos civis, tem provocado controvérsias ao publicar uma lista negra de organizações que apoiam direitos palestinos, e por condenar uma proposta de construir um centro comunitário islâmico em Nova Iorque, a algumas quadras do marco zero1, com “posições que poderiam ser caracterizadas como irracionais ou intolerantes”.

Através do curso sobre Ameaças Terroristas e Extremistas da Escola de Treinamento Avançado da ADL, mais de 700 agentes de segurança de 220 agências federais e locais, incluindo o FBI e a CIA, foram treinados por policiais e comandantes de segurança de Israel. Este ano (2011), a ADL levou 15 policiais americanos de alto-nível para Israel para receberem instruções do aparato de segurança do país. De acordo com a ADL, mais de 115 executivos de segurança federais, estaduais e locais passaram por seus treinamentos em Israel desde o início do programa em 2003. “Eu posso dizer honestamente que o treinamento oferecido pela ADL é de longe o curso mais útil e atual que já participei”, comentou o delegado do Departamento de Polícia da Filadélfia, Thomas Wright, após completar o programa neste ano. A relação da ADL com o Departamento de Polícia de Washington DC é tão próxima que seus membros são convidados para participar de patrulhas policiais.

A ADL alega ter treinado mais de 45.000 agentes de segurança estadunidenses através de seu Programa de Segurança Pública e Sociedade, que “serve-se da história do Holocausto para fornecer aos profissionais de segurança um maior entendimento de seu papel como protetores da Constituição”, segundo seu site. Todos os novos agentes e analistas de inteligência do FBI devem participar do programa da ADL, que já é incorporado em três programas de treinamento do FBI. De acordo com o material oficial de recrutamento do FBI, “todos os novos agentes especiais devem visitar o Museu do Holocausto dos Estados Unidos, para verem em primeira mão o que pode acontecer quando os agentes de segurança falham na proteção dos indivíduos”.

Combatendo o “crime-terrorismo”

Dentre as figuras israelenses mais proeminentes a influenciar as práticas de segurança americanas está Avi Dichter, um ex-chefe do serviço de segurança interna de Israel, o Shin Bet, e atual membro do parlamento, onde recentemente introduziu leis amplamente criticadas como anti-democráticas. Durante a Segunda Intifada, Dichter ordenou diversos bombardeios em densas regiões civis palestinas, incluindo em al-Daraj, um bairro de Gaza, que resultou na morte de 15 pessoas inocentes sendo 8 crianças, e 150 feridos. “Após cada sucesso, o único pensamento é, ‘quem é o próximo?’”, disse Dichter sobre os assassinatos “direcionados” que ordenou.

Apesar de seu histórico dúbio em relação aos direitos humanos e uma aparente visão imprecisa de valores democráticos, ou talvez por causa deles, Dichter tem sido uma figura chave na cooperação de segurança entre as forças de Israel e dos Estados Unidos. Em 2006, enquanto ocupava o cargo de Ministro da Segurança Pública de Israel, Dichter discursou em Boston, Massachusetts, na convenção anual da Associação Internacional de Chefes de Polícia. Sentado ao lado do diretor do FBI, Robert Mueller, e do então Procurador Geral Alberto Gonzalez, Dichter disse aos 10.000 policiais na plateia que havia uma “conexão íntima entre combater a criminalidade e lutar contra o terrorismo”. Dichter declarou que os policiais americanos estavam na verdade lutando contra “crime-terroristas”. O Jerusalem Post publicou que Dichter foi “ovacionado com aplausos enquanto era abraçado por Mueller, que descreveu Dichter como seu mentor em táticas antiterroristas”.

Um ano após o discurso de Dichter, ele e o então Secretário de Segurança Nacional Michael Chertoff assinaram um memorando conjunto pela colaboração em segurança entre os Estados Unidos e Israel em questões que vão da segurança em aeroportos a planos de emergência. Em 2010, a Secretária de Segurança Nacional, Janet Napolitano, autorizou um novo memorando conjunto com o Ministro de Transporte e Segurança Viária israelense, Israel Katz, reforçando a cooperação entre a Agência de Segurança de Transportes dos EUA – encarregada da segurança cotidiana dos aeroportos – e o Departamento de Segurança de Israel. O recente memorando conjunto também consolidou a presença de equipes de segurança do Departamento de Segurança Nacional em território israelense. “O vínculo entre Estados Unidos e Israel nunca esteve tão forte”, destacou Napolitano no recente encontro do AIPAC (Comitê de Relações Públicas EUA-Israel), o braço do lobby israelense nos EUA, em Scottsdale, Arizona.

A unidade demográfica

Para o Departamento de Polícia de Nova Iorque (NYPD, em inglês), a colaboração com o aparato de segurança e inteligência de Israel se tornou uma prioridade após o 11 de setembro. Meses após os ataques na cidade, o NYPD designou um agente permanente de conexão com Tel Aviv. Sob a liderança do Comissário de Polícia Ray Kelly, os laços entre o NYPD e Israel se aprofundaram muito. Kelly embarcou em sua primeira viagem para Israel no início de 2009 para demonstrar seu apoio à ofensiva de Israel sobre a Faixa de Gaza, um ataque unilateral que matou 1.400 residentes em apenas três semanas e levou uma missão da ONU a concluir que as forças militares e governamentais israelenses haviam cometido crimes de guerra.

Kelly retornou para Israel no ano seguinte, para discursar na Conferência de Herziliya, um encontro anual de autoridades governamentais e de segurança neoconservadoras obcecadas por supostas “ameaças demográficas”. Após o discurso de Kelly, a platéia de Herziliya recebeu o acadêmico pró-Israel Martin Kramer, que alegou que o bloqueio de Israel em Gaza estava ajudando a reduzir o número de “jovens inúteis em idade de combate”. Kramer acrescentou, “se um estado não pode controlar esses jovens, então alguém irá”.

De volta à Nova Iorque, o NYPD estabeleceu uma “Unidade de Demografia” secreta, projetada para espionar e monitorar comunidades muçulmanas pela cidade. A unidade foi desenvolvida em articulação e com envolvimento da CIA, que ainda se recusa a revelar o nome do ex-oficial do Oriente Médio que foi transferido para os altos níveis da divisão de inteligência do NYPD. Desde 2002, o NYPD tem despachado agentes infiltrados conhecidos como rakers ou mosque crawlers em livrarias e restaurantes américo-paquistaneses para avaliar a reação aos ataques de drones estadunidenses no Paquistão, ou em bares e mesquitas palestinas para buscar sinais de recrutamento terrorista e financiamentos clandestinos. “Caso um raker veja um cliente lendo literatura radical, ele pode conversar com o dono da livraria para descobrir algo”, publicou a Associated Press. “A livraria, ou até mesmo o cliente, podem passar por maiores escrutínios”.

A impressão digital de Israel na Unidade de Demografia do NYPD é clara. Como disse um ex-policial para a Associated Press, a unidade em questão buscou “mapear o terreno humano da cidade” através de um programa “inspirado parcialmente em como as autoridades israelenses operam na Cisjordânia”.

Compre até ser parado

No Aeroporto Internacional Ben Gurion de Israel, as equipes de segurança miram passageiros não-judeus e não-brancos, especialmente árabes, como forma de atuação. Os passageiros mais comumente assediados são cidadãos palestinos de Israel, que passam por interrogatórios de cinco horas e revistas íntimas antes de embarcarem. Os escolhidos para fiscalização extra pelos agentes do Shin Bet são enviado ao que muitos palestinos chamam da “sala árabe”, onde são sujeitos a sessões humilhantes de questionamentos (a ex-Secretária de Saúde e Serviços Humanos da Casa Branca foi sujeitada a tal distrato durante uma visita à Israel no ano passado). Alguns palestinos são proibidos de falar com qualquer pessoa até a decolagem, e são ameaçados por comissários de bordo durante o vôo. Em um caso documentado, um bebê de seis meses passou por uma revista íntima por agentes do Shin Bet. Casos de discriminação contra árabes no aeroporto Ben Gurion são numerosos – diversos acontecem diariamente – mas alguns dos piores casos foram registrados em uma petição de 2007 apresentada pela Associação por Direitos Humanos em Israel na Suprema Corte do país.

Ainda que o sistema de segurança aérea de Israel tenha benefícios duvidosos e claras implicações deletérias às liberdades civis, está discreta e rapidamente migrando para os grandes aeroportos estadunidenses. A equipe de segurança do Boston’s Logan International Airport passou por treinamentos extensivos de equipes de segurança israelenses, aprendendo a aplicar técnicas de perfilagem e comportamentais que foram inicialmente testadas em palestinos. Os novos procedimentos começaram em agosto, quando os chamados Agentes de Detecção Comportamental foram colocados em filas de segurança no movimentado Terminal A do aeroporto. Mesmo que os procedimentos tenham aumentado o stress dos passageiros enquanto detectaram exatamente zero terroristas, ele provavelmente se espalharão para outras cidades. “Eu gostaria de ver muito mais perfilagens em aeroportos americanos”, disse Yossi Sheffi, um analista nascido em Israel do Massachusetts Institute of Technology Center for Transportation and Logistics.

As técnicas israelenses agora ditam os procedimentos de segurança do Mall of America, um enorme centro comercial em Bloomington, Minnesota, que se tornou uma grande atração turística. Os novos métodos começaram em 2005, quando o shopping contratou um ex-sargento israelense chamado Mike Rozin para liderar uma nova unidade de segurança. Rozin, que já havia trabalhado em uma unidade canina no aeroporto Ben Gurion em Israel, instruiu seus funcionários no shopping a perfilar visualmente cada cliente, examinando suas expressões por sinais suspeitos. Sua equipe aborda e interroga uma média de 1200 clientes por ano, de acordo com o Center for Investigative Reporting.

Um dos que caíram na rede de Rozin foi Najam Qureshi, um vendedor américo-paquistanês cujo pai acidentalmente deixou seu celular sobre uma mesa na praça de alimentação. Um dia após o incidente, agentes do FBI apareceram em sua casa para questionarem-o se conhecia alguém disposto a atacar os Estados Unidos. Um veterano do exército foi interrogado por duas horas por funcionários de Rozin por fazer filmagens dentro do shopping. Enquanto isso, outro homem, Emile Khalil, foi visitado por agentes do FBI após agentes de segurança do shopping abordarem-o por tirar fotos do centro comercial.

“Eu acredito que a ameaça de terrorismo nos Estados Unidos irá se tornar uma parte lastimável da vida dos americanos”, destacou Rozin para a American Jewish World. E enquanto a ameaça persistir aos olhos do público, “securocratas” israelenses como Rozin nunca terão de se preocupar com o próximo salário.

O “occupy” encontra a ocupação

Quando uma tropa de choque do NYPD destruiu e expulsou o acampamento do Occupy Wall Street no Zuccotti Park, no centro de Manhattan, a chefia do departamento usou das táticas antiterroristas que refinaram desde os ataques do 11 de setembro. De acordo com o New York Times, o NYPD aplicou “medidas contra-terroristas” para mobilizar grandes contingentes policiais para o ataque em Manhattan. O uso de técnicas antiterroristas para suprimir um protesto civil complementou as duras ações policiais em todo o país contra o movimento Occupy, desde o uso de bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha contra multidões desarmadas ao uso do canhão sonoro LRAD contra os manifestantes.

Dado o nível de treinamento que o NYPD e muitas outras forças policiais receberam do aparato militar e de inteligência de Israel, e o profundo grau de gratidão que chefes de polícia americanos têm expressado aos seus mentores israelenses, é importante questionar o quanto as instruções de Israel influenciaram a forma que a polícia suprimiu o movimento Occupy e mostram como será a repressão policial de futuros protestos de rua. O que pode-se dizer com certeza é que a “israelização” da segurança estadunidense intensificou o medo e a hostilidade das políticas em relação à população civil, dissipando as linhas entre manifestantes, criminosos e terroristas. Como disse Dichter, eles apenas são todos “crime-terroristas”.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


1  Local onde ocorreram os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

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