Brasil

As cinco faces da privatização da Petrobrás

Por Nazareno Godeiro, via Federação Nacional dos Petroleiros

A entrega da Petrobrás para o imperialismo significa uma derrota brutal para qualquer projeto de desenvolvimento brasileiro. Foto via Divulgação Petrobrás.
A entrega da Petrobrás para o imperialismo significa uma derrota brutal para qualquer projeto de desenvolvimento brasileiro. Foto via Divulgação Petrobrás.
 

A “nova ordem” neoliberal significou, para o Brasil, um retrocesso. O país sofreu uma recolonização econômica e está se especializando como fornecedor de matérias primas, alimentos e energia para o mundo.

A privatização fechou milhões de postos de trabalho e desnacionalizou o parque industrial. Aumentou a dependência do Brasil ao capital externo, que dominou a economia nacional. Segundo a Revista Exame 500 Maiores e Melhores, 2012, os estrangeiros dominam 100% da indústria automobilística, 92% do setor eletroeletrônico, 75% das autopeças, 74% das telecomunicações, 68% do setor farmacêutico, 60% da indústria digital, 57% dos bens de capital, 55% do setor de bens de consumo e 50% da metalurgia e siderurgia.

Resultado: o Brasil depende da entrada de US$ 60 bilhões de dólares todo ano para fechar as contas. Para atrair capital tem taxas de juros mais altas do planeta.

A criação de 20 milhões de novos empregos formais, precarizados e terceirizados, de até 1 salário e meio, substituíram milhões de bons empregos estatais.

Estamos nos convertendo em exportadores de produtos básicos e importador de industrializados. Somos grandes exportadores de minério de ferro e estamos importando trilhos de trem a preços sete vezes mais caros.

Portanto, o neoliberalismo no Brasil significou privatização, desnacionalização, precarização e corrupção generalizada.

Começou com Collor e FHC, mas, infelizmente continuou com os governos petistas e atingiu em cheio a Petrobrás.

As cinco faces da privatização da Petrobrás

Como a luta dos trabalhadores impediu a venda direta da Petrobrás, os governos resolveram ir privatizando a Petrobrás em partes, corroendo por dentro a 4ª maior empresa petroleira do mundo.

A primeira forma de privatização da Petrobrás é a venda de ações da empresa nas Bolsas de Valores.

A maioria do capital social da empresa hoje pertence ao setor privado, principalmente grandes bancos estrangeiros: 46% pertencem ao governo, 37% aos acionistas estrangeiros e 17% aos acionistas privados do Brasil.

Dessa forma, 54% do capital total da Petrobrás é de propriedade privada, maioria estrangeira: Bank of New York, BNP, Credit Suisse, Citibank, HSBC, J.P. Morgan, Santander, BlackRock. Estes mesmos bancos são donos das quatro grandes petroleiras: Exxon, Shell, BP e Chevron, que por sua vez são controladas pelas famílias Rockfeller e Rothschild.

A segunda forma de privatização da Petrobrás é a realização de leilões, como o do Campo de Libra, realizado em 2013, que foi arrematado em 60% por multinacionais a um preço de 1% do valor real do campo.

O presidente da Total, Denis Palluat de Besset, classificou a vitória do consórcio no leilão de Libra de ?sucesso formidável?. ?Para nós o Brasil é importante e estratégico. Estamos aqui para ficar 100 anos pelo menos?….

A terceira forma de privatização da Petrobrás é a terceirização da mão de obra. Os terceirizados eram 120 mil no governo FHC, saltou para 300 mil no governo Lula e chegou a 360 mil no governo Dilma. Temos agora 81% da mão de obra terceirizada. Essa é uma forma da empresa aumentar a exploração dos trabalhadores, já que um terceirizado ganha cerca de 10% do trabalhador direto e trabalha em piores condições.

Hoje, a Petrobrás utiliza terceirização em atividades fins de forma generalizada: até as plataformas do pré-sal da Bacia de Santos estão sendo terceirizadas.

A terceirização é a porta de entrada da corrupção. O recente escândalo, que envolve políticos do PT, PMDB e PSB, ex-diretores da Petrobrás e empresas contratadas, comprova que a terceirização é maléfica para a empresa.

A quarta forma de privatização da Petrobrás é o desinvestimento. O relatório de de 2013 informa que o Plano de Desinvestimento foi de US$ 3,8 bilhões de dólares, com vendas de ativos no Brasil e no exterior. É privatização sem leilão nem licitação: se vendeu o bloco BC?10, na Bacia de Campos para a Shell e Campo de Pitu, no RN para a British Petroleum.

É uma forma de privatização direta, entregando áreas estratégicas para o Brasil.

A quinta forma de privatização da Petrobrás é o endividamento generalizado da companhia. Em 2013, a Petrobrás tem dívida superior a quase 4 vezes a geração de caixa: R$ 221 bilhões! Isso é uma forma de privatização, pois está hipotecando sua produção futura de 4 anos com os grandes bancos internacionais. Pior, todavia é que a metade deste endividamento está atrelado a taxas flutuantes. Se houver uma valorização do dólar, por exemplo, uma alta dos juros nos EUA pode quebrar a Petrobrás.

Estratégia neoliberal para o Brasil: grande exportador de óleo cru

O Plano da Petrobrás para 2030 projeta a produção de 5,2 milhões de barris por dia (mbd), o consumo de 3,4 mbd e refino de 3,3 mbd em 2020. Assim, o Brasil terá será grande exportador de petróleo.

Para isso, a Petrobrás está vendendo partes estratégicas da empresa, se endivida acima da capacidade e destina 60% dos investimentos para a exploração no mar, em detrimento do parque de refino da empresa.

A estratégia de secundarizar o refino começou com FHC. Ficamos 35 anos sem construir refinaria, ao contrario dos países ricos que são autossuficientes: os EUA tem capacidade de refinar duas vezes a sua produção, a China e a Rússia podem refinar o dobro da sua demanda.

A estratégia da Petrobrás fica claro nas palavras da Senhora Graça Foster:

“Perfeito, perfeito mesmo, seria se a Petrobrás pudesse empurrar lá para frente parte expressiva dos investimentos previstos para a ampliação e modernização do seu parque de refino, deslocando os recursos para a prioritária atividade de exploração e produção.”

O resultado desta política é que de autossuficiente em petróleo estamos agora dependendo de importações de refinados.

Em 2013, tivemos um prejuízo no comercio exterior de combustíveis de US$ 25,7 bilhões. Estamos exportando óleo cru barato e importamos derivados 35% mais caros. Estamos perdendo o valor de duas refinarias a cada ano.

Conclusão: mantendo a dinâmica dos últimos 10 anos, em 2025 estaremos produzindo 3,5 mbd, consumindo 5,21 mbd e refinando 2,4 mbd, menos da metade das necessidades do Brasil. A entrada em operação das novas refinarias não será suficiente para cobrir o rombo.

Só os trabalhadores podem garantir uma Petrobrás 100% estatal

A burguesia brasileira é incapaz de defender a soberania nacional. Collor e FHC entregaram o patrimônio brasileiro para os bancos internacionais. O governo do PT, infelizmente, se aliou com os grandes empresários e permitiu a perda da nossa soberania.

É urgente organizar uma campanha nacional em defesa da Petrobrás, baseada em três eixos:

1. Para combater a privatização, Petrobrás 100% estatal sob controle dos trabalhadores.

2. Para combater a corrupção, eleições diretas para Presidência, Conselho de Administração e Diretoria Executiva da Petrobrás.

3. Para combater a precarização do trabalho, fim da terceirização e contratação direta dos terceirizados.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

1 resposta »

  1. No dia 30/05/2020, a 3R Petroleum assumiu a operação de 7 campos de petróleo da Petrobras no Rio Grande do Norte, esses campos foram vendidos e faziam parte da política de desinvestimento da Petrobras, uma política nefasta, cujo objetivo representa a redução da estatal e a sua saída da Região Nordeste, essa ameaça grave à Petrobras já levou a venda de diversos campos, e muitos outros ainda estão no pacote para serem vendidos. No vídeo vemos algumas das instalações da Petrobras, próximas a Macau-RN, eu tive a satisfação de conhecê-las e trabalhei na manutenção inspeção delas, confesso que é muito duro ver o trabalho de gerações de petroleiros que labutaram por décadas, acabar assim numa canetada, lutamos muito para construir a Petrobras, ela investiu aqui no RN na época que ninguém mais queria investir, e ela deu muitos frutos com a nossa dedicação, esforço e suor, e agora tudo está vendido. Pergunto: Onde estavam as outras empresas quando a Petrobras Estatal sozinha desenvolvia a produção de petróleo no RN? Ao invés de eliminar a concorrência com a Petrobras, por que elas não desenvolvem seus próprios campos de petróleo? Por que temem concorrer conosco ao ponto de quererem nos tirar do jogo? Não seria melhor termos as duas Empresas desenvolvendo a produção de petróleo na região? Quem está ganhando com isso? Quem está perdendo? Desejo boa sorte à 3R Petroleum, entretanto, lamento muitíssimo pela saída da Petrobras, os defensores da saída da Petrobras alegam a geração de novos empregos, como justificativa. Porém, o tempo é senhor e juiz de todos, ele dirá se essa será ou não mais uma malfadada aventura política.

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