Oriente Médio

A desordem interna no Talibã

Por Guadi Calvo, via Resumen Medio Oriente, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Membros do Talibã reagem a um discurso de sua liderança no distrito de Shindand, província de Herat no Afeganistão, no dia 27 de maio de 2016. Foto por Allauddin Khan.
Membros do Talibã reagem a um discurso de sua liderança no distrito de Shindand, província de Herat no Afeganistão, no dia 27 de maio de 2016. Foto por Allauddin Khan.

A demora do Talibã para começar o cumprimento dos acordos de Doha, firmados com os Estados Unidos no último dia 29 de fevereiro, se deve ao fato que se levantaram no interior da organização armada algumas vozes discordantes, no que antes parecia um bloco perfeitamente alinhado, ainda que a organização tenha sofrido severas tensões internas. A mais importante ocorreu em 2015, quando se revelou a morte de seu fundador, o mullah Mohammad Omar, que na verdade havia morrido em 2013 por causas naturais em um hospital do Paquistão, e a organização precisou eleger o novo Amīr al-muʾMinīn (Príncipe dos Crentes), como se denomina o líder da organização, em julho do mesmo ano. O escolhido pelo conselho de emires o shura foi o mullah Akhtar Mohamed Mansour, que não foi bem recebido por outros aspirantes ao cargo, produzindo alguns embates internos agravados pela ocultação feita pelo alto-comando da organização em relação à morte de Omar.

As revoltas contra o novo emir obrigou-o a reprimi-las internamente, o que fez com que alguns comandantes abandonassem a organização. Entre eles o mullah Mohammad Rasul, que organizou um grupo insurgente dentro da estrutura da organização conhecido como o Alto Conselho do Emirado Islâmico do Afeganistão, que chegou a ter enfrentamentos com o ramo oficial do Talibã no sul e oeste do país que deixaram dezenas de mortos em ambos os lados. O lado de Rasul sofreu o maior impacto, o lado que recebia financiamento das agências de inteligência de Cabul na tentativa de dividir o grupo, embora esteja muito enfraquecido e seja praticamente irrelevante.

O mullah Mansour encontraria rapidamente sua morte, no ataque de um drone estadunidense, enquanto transitava por uma rota do Baluchistão paquistanês, vindo possivelmente do Irã, em maio do ano seguinte. Isso obrigou a Shura a convocar uma nova eleição, da qual emergiu o atual emir, o mullah Hibatullah Akhundzada, que apesar de sua fama de rigidez, tem sido o líder talibã mais aberto ao diálogo, já que muitos comandantes dissidentes tem sido escutados em várias oportunidades e ações unilaterais por parte do alto-comando não têm ocorrido.

Os acordos de Doha significaram um novo obstáculo para a direção da organização, particularmente em dois pontos chave: a libertação dos cerca de 5 mil muyahidins detidos pelas forças de segurança que respondem ao presidente Ashraf Ghani, os quais se esperava a libertação imediata e, apesar de em três meses já terem sido libertados cerca de 3 mil, a base dos milicianos clama pela libertação imediata de todos os seus irmãos. O outro ponto, e talvez o mais árduo e importante para os interesses estadunidenses, é o vínculo do Talibã com outras organizações terroristas, fundamentalmente a al-Qaeda, uma aliança que vem desde a fundação da organização em 1994 pelo mullah Omar, e em muitos segmentos deste eixo é quase impossível discernir qual é qual, já que os milicianos atuam em ambas segundo as necessidades operativas de cada grupo. Eles têm sempre operado na mesma direção, sem conflitos entre si. Desde os tempos de Osama bin Laden, a al-Qaeda no Afeganistão sempre foi subordinada ao mando dos mullah, enquanto a força afegã suportou com absoluta lealdade a bin Laden a invasão estadunidense de 2001, cujo objetivo principal era a busca, captura e execução do emir da al-Qaeda, que segundo a inteligência dos Estados Unidos, foi responsável pelos ataques às torres gêmeas de Nova Iorque e o bode expiatório ideal para lavar as mãos de George W. Bush e seus funcionários, que aparentemente foram surpreendidos pelas ações daquela manhã do 11 de setembro.

Por trás dos acordos de Doha, segundo algumas fontes estadunidenses, se havia produzido a cisão de um setor do Talibã conhecido como Hezb-e Walayat-e Islami (Partido da Guarda Islâmica), cujo comando e a quantidade de homens é desconhecida, para que possam provocar um impasse no cumprimento dos prazos acordados com Washington, que devem expirar em maio de 2021 com a retirada total das forças estadunidenses e aliadas, ao tempo que o Talibã terá de respeitar o acordo permanente de cessar-fogo e negociar a governabilidade com o atual e muito frágil poder político instalado em Cabul. Entretanto, segundo estas mesmas fontes, este novo grupo armado contaria com o apoio do Irã, que compartilha uma fronteira de quase 1.000 km com o Afeganistão e lá possui há décadas acampamentos de refugiados afegãos com os quais poderia ampliar sua base militante.

Segundo um informe das Nações Unidas, o novo grupo estaría moldado pelo alto-comando para se opor a qualquer possível acordo de paz, através de meios muitos radicalizados e pequenos grupos de base afegãos e estrangeiros. Os comandantes de tropa, que tem carregado o peso da guerra nos territórios caracterizados como “linha dura”, tem começado a exigir a restauração do regime talibã que governou o país de 1996 a 2001.

Dessa forma diversas questões ficaram em aberto em Doha, como os direitos das mulheres, a distribuição de poder e mudanças na constituição, que terão de ser discutidas nas próprias negociações afegãs, que deveriam ter começado em março mas foram adiadas ao primeiro obstáculo à libertação dos prisioneiros. Além disso, essas discussões colocariam à prova a paciência dos líderes talibãs, que sem dúvidas colocam a unidade de seu grupo à frente de um “novo” Afeganistão.

Portanto, deve-se entender os constantes ataques lançados pelo Talibã desde o final de fevereiro contra o exército afegão e outras forças de segurança que respondem à Cabul como uma demonstração de que seu espírito militante continua vivo como sempre.

Estreitando as fileiras

Aponta-se que entre os líderes do Hezb-e Walayat-e Islami se encontra o veterano Sirajuddin Haqqani, líder da conhecida Rede Haqqani, fundada por seu pai, Jalaluddin em 1980 com a assistência dos Estados Unidos, durante os anos da guerra anti-soviética no Afeganistão. A rede, aliada desde 1996 aos talibãs, se especializou nos últimos anos em ataques explosivos, particularmente em Cabul, produzindo centenas de mortos.

É desconcertante a notícia que seja Sirajuddin Haqqani o comandante do novo grupo, já que em fevereiro um artigo seu foi publicado no New York Times, no qual elogiou as negociações em Doha, que atingiam seu ponto alto na época.

Acredita-se que o afastamento de Haqqani do núcleo do Talibã e sua “aproximação” com o Irã, caso de fato possa ser confirmado, poderia dever-se ao fato que a rede, que sempre contou com o financiamento do Paquistão e Arábia Saudita tenha, nos últimos meses, começado a ter esses fundos cortados.

Outro líder talibã que rechaçou o acordo de Doha é o mullah Qayum Zakir, um poderoso comandante que controla o leste afegão e o chefe militar da organização, formado não apenas nos campos de batalha, mas também nos longos anos que passou em Guantânamo. Ao lado de Zakir se alinha outro ultraconservador, o mullah Ibrahim Sadr, com méritos suficientes para figurar entre os oito terroristas mais procurados segundo o Departamento do Tesouro estadunidense, exerceu a chefia da comissão militar que estava supostamente vaga durante anos, e foi um claro aliado do mullah Mansour, mas acabou demitido após a morte do emir em 2016.

Segundo o Departamento do Tesouro dos EUA, o Irã havia feito um acordo com o mullah Sadr para dar-lhe financiamento e treinamento tático e de combate aos seus homens. Outro grupo interno do Talibã que havia ingressado na nova organização é o Feday-e Mahaz (Brigada Suicida), dirigido por Haji Najibullah, outro veterano da longa guerra contra os Estados Unidos.

Mike Pompeo, o Secretário de Estado estadunidense, acusou o Irã em janeiro de “trabalhar ativamente” para boicotar o acordo de paz no Afeganistão, dando apoio ao Talibã e à Rede Haqqani, deixando em aberto a possibilidade de jogar qualquer fracasso nas mãos de Teerã.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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