Análise Semanal da Conjuntura Brasileira Brasil

A burguesia bate o martelo: salve o lucro, morra o Brasil!

É sim inegável o poder gigantesco da elite rentista em uma sociedade tão brutalmente desigual quanto a brasileira, mas a derrota do povo não se explica apenas por esse fato.

Por Eduardo Pessine, revisão de Flávia Nobre

Tragicamente, dezenas de milhares de brasileiros serão moídos, novamente, para manutenção dos lucros dos grandes empresários e banqueiros. Foto por Yuri Carpenter.
Tragicamente, dezenas de milhares de brasileiros serão moídos, novamente, para manutenção dos lucros dos grandes empresários e banqueiros. Foto por Yuri Carpenter.

De forma trágica, mas não surpreendente, a burguesia venceu com facilidade a luta pela manutenção de seus lucros exorbitantes em plena pandemia. Essa vitória custará a vida de dezenas de milhares de brasileiros, que marcharão aos seus postos de trabalho, em grande parte sem nenhum tipo de proteção à contaminação pelo coronavírus, na reabertura do comércio ao redor de todo o país.

É sim inegável o poder gigantesco da elite rentista em uma sociedade tão brutalmente desigual quanto a brasileira, mas a derrota do povo não se explica apenas por esse fato. A completa negligência dos partidos tradicionais cumpriu um papel fundamental para que o fracasso total das medidas de contenção da pandemia se concretizassem. Desde o início, os liberais de esquerda e de direita insistiram em reduzir as medidas de distanciamento social à uma questão individual e moral: os “bolsominions malvados” não respeitam as medidas, e os “progressistas bem-comportados” as cumprem. Apagaram completamente do debate público o fato de que as medidas de contenção se tratavam de uma questão de ESTADO, e como em todo mundo, teria seu sucesso definido por amplas medidas públicas de suporte econômico tanto aos trabalhadores, quanto aos pequenos e médios negócios.

De um lado, enfiaram goela abaixo dos trabalhadores a esmola de 600 reais, calando qualquer revolta contra a miséria do “auxílio emergencial” e uma luta concreta pela manutenção dos empregos e salários. Por outro lado, se calaram ao descalabro de R$ 1 trilhão dado aos bancos, que ficará “empoçado” – como disse o próprio bankster Paulo Guedes – e irá direto para o saco sem fundo do fraudulento esquema da dívida “pública” brasileira, enquanto os pequenos e médios empresários brasileiros caminham todos para falência. Ao invés de convocar imediatamente, através de todas as centrais sindicais, movimentos sociais e estudantis, coletivos políticos, uma campanha nacional por um amplo programa de combate à pandemia e de estabilização econômica, se limitaram a palavras de ordem moralistas e oportunistas.

Com a total ausência de suporte para o povo, a burguesia conseguiu estrangulá-lo ao ponto do próprio pedir por oxigênio, criando um relativo consenso para a retomada das atividades econômicas. João Dória retirou sua máscara, abandonou sua suposta postura “responsável” e apoiou sem problema algum o massacre de trabalhadores, esperando que essa retomada gere uma recuperação da economia e também da arrecadação estadual, que como já dissemos na semana passada, vem despencando desde 2014, mas atingiu no último mês um queda de quase 15%, o que significa uma perda de R$ 2 bilhões para o governo estadual. Mas como essa queda representa, na realidade, um reflexo da desindustrialização de longa data do Brasil em benefício do rentismo, sabemos que essa recuperação é uma grande ilusão.

O caso do Rio de Janeiro não é diferente: de 2014 para cá, houve uma queda de arrecadação estadual de cerca de 19%, representando uma perda de quase R$ 10 bilhões, sendo que neste último mês de maio houve uma queda de 20% em relação ao mês anterior, o que significa uma queda de mais de R$ 500 milhões na arrecadação1. O governador carioca, Wilson Witzel, diferente de João Dória, não é um membro da burguesia e não possui o poder econômico e político de sua contraparte paulista, e parece ter perdido a disputa com o governo federal pela resolução da crise fiscal, com a abertura do pedido de impeachment na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Mas como bom serviçal da burguesia, seguiu os mesmos passos de São Paulo e liberou a retomada das atividades econômicas, na esperança de uma recuperação de receita que reduza as tensões fiscais.

Com as projeções mais conservadoras de retração do PIB já atingindo a casa dos 7%, a classe dominante tem total consciência de que os próximos meses apontam para um colapso econômico de gigantescas proporções. Sendo assim, a disputa dentro da direita continua: Bolsonaro é cada vez mais um elemento de instabilidade em um momento já instável, e a aliança entre Rodrigo Maia e os governadores se apresentando como um setor mais capaz de aplicar o projeto rentista de maneira mais estável e racional.

A situação atual é clara: os rentistas abocanharam todo o espectro político! Os liberais de esquerda foram domados pelo centrão em troca de esmolas, o “centrão” está encurralado por uma grave crise fiscal nos estados, e Bolsonaro atua diretamente em seus interesses, sob as ordens de Paulo Guedes.

Ao entregar mais de R$ 1 trilhão aos bancos, o banqueiro Paulo Guedes deixou claro não só para quais interesses trabalha, mas também que não há falta de dinheiro! O Brasil não está “quebrado”, e existe sim saída para a crise! A única forma de evitar a morte de (mais) dezenas de milhares de brasileiros é o abandono das ilusões liberais e uma ampla mobilização que toque na contradição central de nosso país atual: a destruição da República Rentista e o uso da enorme capacidade econômica do Brasil em favor do povo, e não em prol do enriquecimento de meia dúzia de banqueiros anti-nacionais!

Precisamos ir além de palavras de ordem abstratas e pretensamente universais e defender os interesses concreto do povo brasileiro, a retomada dos empregos, da industrialização e dos serviços públicos!


1  Dados disponíveis em http://www.fazenda.rj.gov.br/sefaz/faces/menu_structure/servicos?_afrLoop=10417308639209466&datasource=UCMServer%23dDocName%3A100654&_adf.ctrl-state=13x2wk99zc_32

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