Europa

Está a Alemanha gravitando em direção à Rússia e China?

Por M. K. Bhadrakumar, via Russia Insider, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Angela Merkel, a chanceler alemã, se aproxima dos presidentes chinês e russo, Xi Jinping e Vladimir Putin. Foto por Tomohiro Ohsumi.
Angela Merkel, a chanceler alemã, se aproxima dos presidentes chinês e russo, Xi Jinping e Vladimir Putin. Foto por Tomohiro Ohsumi.

De longe a maior potência da Europa, para onde vai a Alemanha, vai todo o continente. Nos últimos 100 anos, a Alemanha sempre foi o grande prêmio da política internacional.

O ponto alto da ilustre carreira de Lord Ismay, nascido na cidade de Ambala, na Índia, e que serviu destacadamente como oficial de cavalaria do Exército Britânico Indiano, ocorreu provavelmente quando se tornou o chefe de gabinete de Winston Churchill durante a Segunda Guerra Mundial. Mas Ismay é lembrado atualmente por sua declaração enquanto secretário-geral da OTAN (1952-56) – de que a função desta aliança era “manter os russos para fora, os americanos para dentro, e os alemães abaixo”.

A declaração de Ismay capturou de forma sucinta o espírito daqueles tempos, e desde então, se tornou uma frase usada comumente para descrever rapidamente a gênese da Guerra Fria. Joseph Stalin, inclusive, fez uma chocante proposta em 1954 para que a União Soviética se unisse à OTAN para impedir uma divisão da Europa.

Em uma nota diplomática, Moscou indicou sua “disposição para se unir aos governos interessados em examinar a questão da participação da União Soviética no Tratado do Atlântico Norte”. A França foi simpática, mas o Reino Unido se recusou e Ismay afirmou ironicamente que o pedido da URSS era “como um bandido impenitente pedindo para ingressar na polícia”.

A “questão alemã” continua assombrando a política global. Na última semana (11/06/2020), outra coleção fascinante de documentos soviéticos e americanos desclassificados foram divulgados em Washington pelo Arquivo de Segurança Nacional, sobre o encontro em Camp David há exatamente trinta anos atrás (entre 1 e 3 de junho de 1990) entre os presidentes George H. W. Bush e Mikhail Gorbachev.

Os três dias de intensas discussões sobre o futuro da Europa tiveram lugar em Camp David sob a sombra da unificação da Alemanha, que aconteceria alguns meses depois em outubro. Gorbachev estava sob enorme pressão à época. A Perestroika já havia dado sinais de fadiga.

O presidente soviético buscava ajuda financeira dos Estados Unidos para socorrer a falida economia soviética – dizendo dolentemente ao Secretário de Estado, James Baker, “nós precisamos de algum oxigênio. Não estamos pedindo um presente. Estamos pedindo um empréstimo”. Baker foi evasivo.

Ao mesmo tempo, o Comitê Central do PCUS estava revoltado com a perda dos satélites no Leste Europeu, a política unilateral de desmilitarização de Gorbachev, e a perspectiva de uma unificação alemã. A nota do Politburo soviético, ainda que tenha aprovado as negociações de Gorbachev com os americanos, afirmou explicitamente que “seria política e psicologicamente inaceitável para nós uma Alemanha unificada na OTAN. Não podemos aceitar a destruição do equilíbrio de poder e estabilidade na Europa que resultaria inevitavelmente deste fato.”

Essa nota (datada de 15 de maio de 1990) foi o “sumário de negociação” oficial de Gorbachev quando foi ao encontro no Camp David. Ele foi intransigente em relação à unificação da Alemanha e alertou claramente que “caso o povo soviético tiver a impressão de que estamos sendo negligenciados na questão alemã, então todos os processos positivos na Europa, incluindo as negociações em Viena (em relação a forças convencionais) estariam em grande risco. Isto não é apenas um blefe. O povo simplesmente irá obrigar-nos a parar e olhar ao redor”.

Esta retrospectiva é útil para colocarmos em perspectiva as notícias da última semana de que o presidente Trump aprovou um plano de retirada de cerca de um terço das tropas estadunidenses posicionadas na Alemanha – 9.500 das 34.500 tropas designadas permanentemente ao acordo de longa data com o aliado de Washington na OTAN.

Especula-se que Trump está se vingando da chanceler alemã, Angela Merkel, por cancelar seus planos de sediar um encontro do G7 ao final de junho em Washington, o que alavancaria sua liderança no mundo ocidental bem ao final de sua campanha para às eleições de novembro. Mas podem haver outros motivos não aparentes.

O primeiro-ministro polonês, Mateusz Morawiecki, ofereceu-se para sediar mais tropas estadunidenses em seu país. A Polônia, um dos parceiros europeus mais próximos dos Estados Unidos, tem considerado há tempos Washington como seu garantidor primário de segurança dentro da OTAN, e tem feito campanha por uma presença americana permanente (ainda que a presença atual no país já chegue a 5.500 tropas).

Morawiecki afirmou no sábado (06/06/2020), “Eu realmente espero que como resultado das muitas negociações que tivemos, e por termos demonstrado uma parceria sólida com a OTAN, que algumas das tropas atualmente na Alemanha, e que estão sendo retiradas pelos Estados Unidos, sejam deslocadas para a Polônia”. De olho nas más relações da Polônia com a Rússia, ele disse, “O perigo real reside na fronteira leste, assim, mover as tropas estadunidenses da OTAN para o flanco leste será um reforço de segurança para toda Europa”. Morawiecki acrescentou que “estão em curso negociações” com Washington.

A reação alemã ao plano de Trump vai de expressões de arrependimento a alívio. Johann Wadephul, a liderança da União Democrata-Cristã de Merkel, descreveu a retirada como um sinal de alerta. “Os planos mostram que o governo Trump está negligenciando uma tarefa elementar da liderança, reunir os parceiros da coalizão nos processos de decisão. Todos ganham com a união da aliança, apenas a Rússia e a China ganham com a discórdia. Washington deveria se atentar mais a isso”, afirmou.

Norbert Röttgen, o líder da Comissão de Assuntos Exteriores do Bundestag, e um dos mais cotados como sucessor de Merkel no próximo ano, criticou o plano: “Tal retirada seria equivocada em todos os sentidos. Eu não vejo uma base racional para isso”.

Dietmar Bartsch, o líder do partido de esquerda Die Linke, entretanto, saudou a decisão: “O governo federal deve aceitá-la com gratidão e imediatamente começar a preparar a retirada completa dos soldados estadunidenses com o governo Trump. Isso causaria uma economia de bilhões para os contribuintes, já que não haverá mais a necessidade de compra de novas aeronaves”.

Curiosamente, nem a Casa Branca ou Pentágono confirmaram os planos de Trump e não existem indicações de que as autoridades da OTAN tenham sido informados anteriormente. Porém, Trump frequentemente surpreende seus aliados com ações militares unilaterais. Sem dúvidas, essa controvérsia é um sintoma das más desenhadas relações transatlânticas ao longo do tumultuado mandato de Donald Trump. Seu plano parece menos uma forma de retaliar a decisão de Merkel em relação ao G7 e mais uma continuação de suas anteriores amaeças de reduzir a presença militar americana na Alemanha.

A reação russa até agora foi moderada. Evidentemente, Moscou está mantendo uma postura discreta, considerando que aparentemente uma redução de 28% da capacidade militar dos EUA, que é parte central da dissuasão da OTAN, seria um ‘presente’ para Putin (cujas relações com Merkel tem sido irregulares). Dito isso, caso os americanos prossigam com o deslocamento das tropas para a Polônia, Moscou verá como uma provocação, e claro, qualquer enfraquecimento da união transatlântica será de grande importância para as futuras estratégias russas.

O “vazamento” midiático da última semana sobre os planos de Trump de retirar as tropas em setembro coincidiram com o aniversário de 30 anos da reunificação da Alemanha, considerada uma conquista do então chanceler alemão Helmut Kohl. Pode ser visto como um recado a Merkel, que foi apadrinhada por Kohl.

O aliado mais poderoso de Kohl naqueles meses decisivos de 1990 foi o presidente Bush que – ao lado do então Secretário de Estado James Baker – teve um papel histórico em desmontar a resistência de Gorbachev à reunificação alemã. Bush rejeitou o grande ceticismo da então primeira-ministra britânica Margaret Thatcher e o presidente francês François Mitterrand, que temiam o ressurgimento da Alemanha e da “questão alemã” no quadro político e estratégico da Europa, para o quais ainda não estavam preparados.

Thatcher fez até mesmo uma viagem para Moscou em setembro de 1989 para expressar suas preocupações com o futuro da Europa assim que Gorbachev começou o desmantelamento do Pacto de Varsóvia. Durante a visita – de acordo com registros soviéticos altamente confidenciais de importantes reuniões entre as duas lideranças que foram raptados secretamente para os Estados Unidos durante o período caótico de queda da URSS – Thatcher aproveitou de suas boas relações com Gorbachev nos anos 1980 para conseguir um acordo de bastidores com o líder soviético contra a reunificação da Alemanha.

Nos últimos anos, Merkel tem sido uma grande defensora da Europa garantir sua segurança sem depender dos Estados Unidos, cujo compromisso com o euro-atlanticismo tem sido posto cada vez mais em dúvida. O plano de Trump só irá reforçar essa posição na Alemanha, de que não podem mais contar com os americanos como garantidores da segurança.

Sem dúvidas, a “questão alemã” aludida por Ismay nos tempos de criação da OTAN ressurge no centro da política global contemporânea caso a Alemanha embarque em uma nova variação da Ostpolitik, no sentido de uma guinada para a China, com profundas consequências nos alinhamentos mundiais.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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