Brasil

As duas burguesias e as duas respostas anti-povo à pandemia

Por Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Luiza Helena Trajano, a bilionária dona da rede de lojas Magazine Luiza, se tornou o novo xodó da esquerda liberal, com seu discurso “progressista” e suas doações milionárias, que entretanto, não chegam nem perto do seus lucros exorbitantes oriundos da mazela dos trabalhadores. Foto por Benedikt von Loebell.
Luiza Helena Trajano, a bilionária dona da rede de lojas Magazine Luiza, se tornou o novo xodó da esquerda liberal, com seu discurso “progressista” e suas doações milionárias, que entretanto, não chegam nem perto do seus lucros exorbitantes oriundos da mazela dos trabalhadores. Foto por Benedikt von Loebell.

Desde a eclosão da pandemia do coronavírus no Brasil, surgiram supostamente dois campos da burguesia brasileira: um a favor do isolamento social, e outro contra. Mas essa divisão aparente, se analisada concretamente, mostra que ambos os lados estão unidos no mesmo projeto: o aumento dos lucros e a pauperização do povo brasileiro.

Parece que a eterna busca dos liberais brasileiros pela quimera da “burguesia nacional” encontrou a sua mais nova candidata: Luiza Trajano, a bilionária e dona do Magazine Luiza. A empresa aderiu a uma campanha de marketing agressiva durante a pandemia de coronavírus, visando se colocar como o “lado bom” da burguesia brasileira. A própria empresária recebeu atenção da mídia hegemônica, com um discurso supostamente progressista e anúncio de doações milionárias para a luta contra o vírus. A empresa “liderada por mulheres” se tornou um exemplo do “bom burguês”, a elite do avanço, tanto buscada pelos liberais de todos os espectros políticos.

Por outro lado, um setor menos sofisticado da burguesia comercial, como Luciano Hang e Roberto Justus, mais ligados à linha política de Bolsonaro, não pouparam palavras para deixar claro sua consciência de classe e seu profundo desprezo pelo povo brasileiro, tratando as milhares de mortes como algo irrelevante frente à manutenção de seus lucros. É um setor aparentemente menos intelectualizado, preocupado com seus lucros a curtíssimo prazo, que se levantou imediatamente contra o isolamento social e a continuidade das atividades econômicas. Diferente de Luiza Trajano, não perceberam a imensa lucratividade do isolamento social, da forma que foi feita, para os grandes empresários.

Vejamos: o governo Bolsonaro se abdicou de qualquer auxílio financeiro significativo ao povo brasileiro durante esse período. Os trabalhadores informais tiveram que se contentar – inclusive por incentivo da própria “esquerda” – com a esmola de R$ 600 oferecida por Paulo Guedes, e os pequenos e médios empresários ficaram à míngua, sem qualquer programa de financiamento através do bancos públicos, dependendo da boa vontade dos bancos privados de oferecerem linhas de crédito a juros baixos, que pelo que vemos, não irá ocorrer.

O destino dos pequenos e médios negócios, ao que tudo indica, completamente abandonados pelo estado, será a falência nas próximas semanas e meses, principalmente para aqueles que não possuem capital suficiente para investir em vendas pela internet, ou seja, a imensa maioria. Esse é o ponto central que aparentemente passou batido aos olhos de Luciano Hang e Roberto Justus: quanto mais tempo durar o isolamento nestes termos, por mais que signifique a curto prazo uma queda de lucros, maior será a fatia de mercado das mega-empresas detentoras de capital suficiente para sobreviver à paralisia econômica (o Magazine Luiza, por exemplo, tem caixa para se manter por 2 anos de lojas fechadas). Na prática, isso significa uma absurda concentração econômica nas mãos das grandes empresas e dos grandes empresários.

Luiza Trajano percebeu isso muito bem e logo lançou uma campanha pela manutenção do isolamento social – obviamente, deixando de lado a necessidade de financiamento das pequenas e médias empresas. A jogada de marketing teve também um custo baixíssimo: uma doação de R$ 10 milhões para o tratamento de doentes, um valor que não chega a 1% do lucro líquido da empresa em 2019, que bateu R$ 921 milhões. Com esse investimento minúsculo, a empresa fez uma enorme valorização de sua imagem e ao mesmo tempo pressiona pela falência dos pequenos e médios negócios, ampliando enormemente sua fatia de mercado. Já em maio, os valores das ações da empresa atingiram valores superiores ao período pré-pandemia, após uma queda com o “susto” da paralisação econômica. Um fenômeno parecido é observado com outros gigantes do comércio como a Via Varejo e Lojas Americanas, que também já mostraram uma grande recuperação dos valores em antecipação à concentração de mercado no período pós-coronavírus.

Tudo isso se conjuga para que o Magazine Luiza apareça em alguns estudos burgueses como a empresa com a “melhor imagem durante a pandemia”, narrativa impulsionada pela própria “esquerda”. É evidente que essa suposta cisão na burguesia brasileira se trata de uma questão econômica, e não moral, como amplos setores políticos buscam colocar, escondendo os reais interesses da burguesia brasileira.

Para além disso, temos outra questão econômica menos evidente, que diz respeito ao trabalho. Com o isolamento e o fechamento das lojas, os custos de mão-de-obra destas empresas reduz substancialmente, seja através de demissões, suspensões de contratos ou conversão de empregos formais para contratos precarizados e terceirizados. O número de pedidos de seguros-desemprego em abril deste ano foi de 2,3 milhões, o que representa um aumento de 22% em relação ao mesmo período do ano passado. Isso significa não só uma redução dos gastos com mão-de-obra de cada empresa, mas uma desvalorização generalizada do trabalho, já que o aumento do exército industrial de reserva (contingente de desempregados), cria uma pressão brutal sobre os salários dos trabalhadores empregados. Novamente, quanto mais tempo durar o isolamento nos termos atuais, maior o lucro dos grandes empresários no longo prazo.

Ao analisar o imperialismo, Lenin afirmou que as crises de toda espécie, principalmente as econômicas, aumentam em grandes proporções a tendência para a concentração e o monopólio. Esse fenômeno é muito evidente na atual crise do capitalismo e principalmente no Brasil, mas passa despercebido pela ingenuidade de um liberalismo tosco, ansioso por uma elite bem-comportada. Essa concentração e monopólio significarão para povo brasileiro um longo período de pobreza e sofrimento, e neste projeto, Luiza Trajano, Luciano Hang e Roberto Justus estão todos de mãos dadas.

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