Ásia

A ascensão da China e o legado de Deng Xiaoping

Por Samo Burja, via Asia Times, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

O atual presidente chinês Xi Jinping e o líder que executou as reformas econômicas do socialismo com características chinesas na década de 1980, voltando-o ao mercado, Deng Xiaoping. Imagem via Asia Times.
O atual presidente chinês Xi Jinping e o líder que executou as reformas econômicas do socialismo com características chinesas na década de 1980, voltando-o ao mercado, Deng Xiaoping. Imagem via Asia Times.

As elites estadunidenses acordaram para a ameaça de Pequim à sua hegemonia global. Pairam agora dúvidas sobre a China e suas instituições sobre a cabeça de todos. Sua economia continuará crescendo ou estagnará? O quão exatamente comunista é a China? O quão estável é o regime? Em suma, para onde vai a China?

Para responder essas importantes questões, devemos examinar as origens da atual estrutura institucional e ideológica chinesa, que foi moldada principalmente por Deng Xiaoping durante sua liderança entre 1980 e 1992. Xi Jinping herdou esta estrutura e não mudou-a fundamentalmente.

O futuro da China seguirá o caminho traçado por Deng através de uma série de reformas institucionais que permitiram o tremendo impulso de crescimento do país. Conforme as bases desta reforma se deterioram, ocorrerá o mesmo com o crescimento, levando o país eventualmente à estagnação, a não ser que outras reformas bem-sucedidas sejam realizadas, o que Xi e seus sucessos não parecem capazes de fazer.

Deng tinha dois objetivos principais em mente na sua busca pelo crescimento: garantir a sobrevivência do regime comunista e melhorar a posição geopolítica da China. Ele foi muito bem-sucedido em ambos porque entendeu que atingir estes dois objetivos requeriria lidar com um grande obstáculo: é possível abrir o comércio sem ceder poder ao estrangeiro?

Os limites políticos do comércio

A história da China mostrou que o comércio e a submissão podem andar de mãos dadas. Séculos atrás, a dinastia Ming quebrou os acordos de comércio impostos pelo líder mongol Altan Khan, temendo que seus ganhos não compensariam o aumento de poder dos mongóis. Ao fazer isto, eles sabiam que uma vantagem relativa é frequentemente mais importante politicamente do que uma vantagem absoluta. Deng conhecia muito bem essa história, e por isso, sua preocupação central era salvaguardar a soberania chinesa.

Os acadêmicos e dirigentes atuais naturalizam a estabilidade do sistema político e acreditam que o mercado é mais importante do que outras infraestruturas sociais. Na realidade, o oposto é verdadeiro. As sociedade precisam de uma burocracia ampla e muito efetiva, militar ou privada, para estabelecer ou manter um mercado. Se um governo tem de escolher entre o crescimento e sua própria manutenção, é perfeitamente possível renunciar de todo o primeiro, como mostra atualmente a Coreia do Norte.

A longo prazo, uma sociedade estável também necessita de agentes ativos que reparem as instituições que viabilizam os mercados. Todo jardim precisa de uma cerca, mas até mesmo com ela ervas daninhas podem brotar. Da mesma forma, o mercado não viabiliza a si próprio. Ele não corrige violações de normas comerciais, como propagandas enganosas ou a sabotagem de competidores. O mecanismo do mercado também é incapaz de remover distorções governamentais de diversos tipos. O jogo dos mercados não torna o jogo dos governos obsoleto.

A refundação de Deng

Como estudante do capitalismo contemporâneo, Deng observou de perto o desenvolvimento de Singapura, que mostrou que uma sociedade culturalmente chinesa possui os pré-requisitos sociais para utilizar os mercados de forma fecunda. Ele também entendeu que a partir da abordagem comercial correta a China poderia manter sua soberania e barrar as influências políticas americanas. Por fim, ele resolveu o problema da legitimidade ideológica. Como realizar reformas de mercado em um estado comunista? Nesse esforço, Deng teve a ajuda da desilusão do Partido em relação à abordagem maoísta do desenvolvimento e da política.

Parte dessa desilusão veio do fracasso das políticas econômicas de Mao Zedong, mas havia uma origem ainda mais profunda. Mao foi um melhor revolucionário do que governante. Uma vez no poder, os problemas causados por sua má gestão levaram a graves disputas entre rivais em ascensão como Peng Dehuai e Liu Shaoqi.

Após vencer a Guerra Civil Chinesa, Mao foi cercado pela política palaciana e a simultânea responsabilidade de lidar com os imensos problemas internos da China. A única forma de retomar um poder incontestável era levar a cabo uma nova revolução. A Revolução Cultural foi a segunda revolução de Mao, que visava colocá-lo novamente em uma posição dominante.

Esse plano, por fim, fracassou. No início dos anos 1970, Mao se desentendeu com seu sucessor e representante da Revolução Cultural, Lin Biao, que supostamente tentou um golpe e morreu sob circunstâncias suspeitas em 1971.

Posteriormente, Mao retraiu-se em um isolamento paranóico. Em seu encontro com Richard Nixon e Henry Kissinger em 1972, Mao já não passava de um prisioneiro em uma cela dourada. Ele também passou a depreciar boa parte de seu pensamento ideológico, dizendo aos seus visitantes, “Estes meus escritos não são nada. Não há nada de instrutivo no que escrevi”.

Aos protestos de Nixon de que “os seus escritos moveram uma nação e mudaram o mundo”, Mao respondeu, “Eu não fui capaz de mudá-la. Fui capaz de mudar apenas alguns lugares nos arredores de Pequim”.

Deng observou os problemas nos regimes de Josef Stalin e Mao Zedong e concluiu que o culpado era o culto à personalidade. Entretanto, ele não seguiu uma política similar a “desestalinização” de Nikita Khrushchev, que acreditou ter enfraquecido o estado soviético. Ao invés de demonizar Mao, ele simplesmente permitiu que os erros do Partido trabalhassem em seu favor, e deixou claro que as estratégias equivocadas de Mao não se repetiriam.

Ao mesmo tempo Deng refundou os princípios de sucessão do Partido Comunista da China. Ele propôs uma liderança rotativa, de forma que os membros mais ambiciosos tivessem a oportunidade de mudar a posição ideológica e política dominante do partido. Ele também propôs uma teoria geracional de governo – que cada geração deve ter a chance de liderar o país. Estas mudanças reduziram os conflitos internos no Partido, permitindo ao PCCh focar suas energias na expansão.

A China de Xi Jinping

Xi Jinping cresceu durante as reformas de Deng e presenciou a derrubada da União Soviética. Essas duas experiências moldaram sua visão de mundo. Xi é assombrado pela queda da URSS tanto quanto o presidente russo Vladimir Putin, que chamou-a de “maior catástrofe geopolítica do século”.

Uma queda similar de poder provavelmente resultaria em uma potencial fragmentação violenta do país, daí o foco de Xi em impedir que as províncias periféricas da China, como o Tibete e Xinjiang, se rompam. Estas são partes do país com baixa população e uma logística débil, onde seria fácil o suprimento de armas. Xinjiang poderia facilmente se tornar o Afeganistão chinês.

O New York Times recentemente publicou documentos mostrando aparentemente que as políticas de contenção em Xinjiang estão vindo de fato de cima, ao contrário de uma iniciativa das autoridades locais, e esta é a razão – estabilidade a todo custo. Aliás, membros do PCCh às vezes contestam essas diretivas e são sujeitos a medidas disciplinares.

Xi está tentando contornar as formas de controle estabelecidas por Deng porque acredita que, sem isto, o fracasso ideológico é inevitável, e é esse fracasso a maior ameaça ao PCCh. Em um discurso ao Congresso Nacional da China em 2013, ele destacou que o fracasso da União Soviética em competir ideologicamente como a causa de sua queda. As principais autoridades soviéticas estavam desmoralizados ideologicamente. Sem acreditarem no marxismo, não estavam motivados para sustentá-lo ativamente, apenas de forma passiva. A máquina de estado se tornou frágil, rompendo-se ao invés de dobrar-se sob a tensão. Xi culpa a subversão ideológica ocidental por esse fracasso ideológico, e está determinado a não deixar a China sofrer do mesmo destino.

Xi suprimiu qualquer dissidência de sua interpretação, ao mesmo que dobrou a aposta em melhorar a educação para o marxismo. Um dos problemas que encontra é que, como seria esperado, quando jovens estudam o marxismo, tendem a decidir por organizar os sindicatos e combater o governo central.

A ideologia na qual o Partido Comunista é construído, quando aplicada, dá o modelo para agitações locais e atividades revolucionários. Este é o problema fundamental das ideologias revolucionárias. Os métodos que levam-o ao poder não são necessariamente os métodos que resultam em boa governança.

Um futuro de estagnação

O sucesso contínuo da China sob Xi origina de sua continuidade em relação a Deng e sua profunda preocupação com a fragilidade do país. Entretanto, não vejo evidências de que a geração de líderes após Xi Jinping conservam este conhecimento ou forte motivação, então eu acredito que haverá uma crise de sucessão.

Xi tornou o PCCh mais fechado para pessoas com sua capacidade e ambição que podem estar preocupados com o futuro do Partido. Existe uma menor rotatividade geracional e menos oportunidades de dissidência em relação ao centro. Se tornou comum que políticos em ascensão e independentes, inocentes ou não, sejam esmagados por escândalos de corrupção arquitetados.

Além disso, Xi não possui nenhum pupilo conhecido para sua sucessão. Isso significa que após a saída de Xi o governo entrará ou em piloto automático burocrático, ou passará por uma revolução.

Também é possível que um sucessor capacitado surja como uma surpresa, como aconteceu com a ascensão de Vladimir Putin à presidência russa, mas acredito que a primeira situação seja mais provável. Caso isso ocorra, cerca de 20 anos após a saída de Xi, a China entrará em um período de estagnação como atualmente ocorre nos Estados Unidos, que continuará até o regime se deteriorar o suficiente de forma que uma nova reforma seja realizada.

Dada a rígida burocracia chinesa e seu alto grau de sofisticação tecnológica, poderá levar um século após a saída de Xi até que uma reforma seja possível. O período contemporâneo de estagnação dos Estados Unidos já dura cerca de 50 anos, desde os anos 1970, e não há nenhum fim claro à vista.

Os Estados Unidos eram muito menos burocratizados e sofisticados tecnologicamente do que a China moderna quando entrou neste período de estagnação. Caso uma reforma futura fracasse ela poderá, assim como as reformas de Mikhail Gorbachev, conduzir ao colapso do estado.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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