África

Saara: um conflito esquecido e o sofrimento de um povo silenciado

Por André Abeledo, via Nueva Revolución, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Comemoração de aniversário da resistência saarauí, no dia 20 de maio de 2018 em Tifariti, território libertado. Foto por Moara Crivelente.
Comemoração de aniversário da resistência saarauí, no dia 20 de maio de 2018 em Tifariti, território libertado. Foto por Moara Crivelente.

A crise da pandemia de Covid-19 chama todas as atenções, é algo que influencia em todas as dinâmicas e estamos sofrendo suas consequências em nossas próprias terras e em nossa própria carne. Mas existe um conflito esquecido e deixado para trás, um povo exilado no deserto. Todo ano, as crianças saarauí vèm ao estado espanhol passar o verão pois são os meses mais duros nos acampamentos, o período do ano em que se alcança temperaturas extremas. Além disso, muitas destas crianças têm a oportunidade durante estes meses de receber a atenção médica que necessitam e que não têm a possibilidade de receber nos acampamentos. Mas este ano não poderão ir, já que a pandemia deixou esses meninos e meninas sem a possibilidade de viajar.

Todos os governos têm ignorado a dívida histórico que temos com o Saara Ocidental, e penso que o atual governo tem a oportunidade de mudar essa posição injusta e até mesmo traidora que o estado espanhol tem mantido para com o povo saarauí.

A atual estratégia do Marrocos no Saara ocupado é uma cópia da estratégia que Israel segue em relação à Palestina, uma ocupação militar do território saarauí, com a construção do “muro da vergonha” que foi iniciada em 1987, para fechar a saída para o mar da Frente Polisário com a cumplicidade da União Européia em um momento que negociava com Marrocos um acordo de pesca nos territórios saarauís. Este muro também separa o Saara ocupado do território libertado controlado pela Frente Polisário.

Marrocos demonstra um total desprezo e desrespeito às resoluções internacionais que obrigam a celebração de um referendo de autodeterminação, uma desobediência que, assim como no caso de Israel, não gera nenhum tipo de consequências para o estado marroquino. Dentro da estratégia marroquina estão suas políticas de sanções ao povo ssaarauí com a clara intenção de expulsá-los de sua terra, unido a incentivos econômicos e entrega de terra aos colonos marroquinos para que se instalem no Saara, com o claro objetivo de, caso sejam obrigado a realizarem um referendo, a população do Saara seja majoritariamente marroquina. Na educação praticam a negação da história saarauí e a proibição de seu idioma. No território do Saara não existe nenhuma universidade, e os saarauí que conseguem continuar estudando são obrigado a fazê-lo no Marrocos.

Desde 1991, quando o cessar-fogo é assinado e o Plano de Paz estabelecido, o povo saarauí vive sequestrado em sua própria terra, ou exilado no inóspito deserto da Argélia, à espera de que Marrocos cumpra seu dever de permitir um referendo no qual decidam sobre seu futuro, sobre sua autodeterminação, sua independência.

A situação do povo saarauí é a de um povo sem estado e separado. Uma parte sobrevive sequestrada, torturada e reprimida pela forças de ocupação marroquinas no Saara, a outra sobrevive em uma situação precária permanente nos acampamentos argelinos. Mas o povo saarauí nunca se rendeu e continua a luta pela recuperação de sua terra e sua soberania, mesmo massacrado e abandonado por quase todos, nunca rendeu-se ou ajoelhou-se, mas organizou um governo no exílio, um exército, instituições e é capaz de defender a soberania dos territórios libertados. A Frente Polisário tem mantido o controle sobre 60.000 km², cerca de 25% do território do Saara, com uma população de cerca de 30.000 habitantes.

A ocupação e repressão no Saara é um conflito aberto e ativo que é escondido da opinião pública, com mais de 500 pessoas desaparecidas, valas comuns, assassinatos, torturas, abusos e violência sexual – mas o mundo continua calado e desvia o olhar. Em 2005, o povo saarauí no território ocupado começou uma manifestação pacífica em reivindicação de sua independência. As forças marroquinas assassinaram 16 pessoas, muitas foram detidas e condenadas em julgamentos sem garantias básicas.

A liberdade do Saara é uma responsabilidade histórica do estado espanhol e de seus governantes. A Espanha tem uma dívida com o povo que traiu e entregou ao Marrocos, uma dívida que não tem a menor intenção de pagar.

Segundo as leis internacionais, a Espanha segue sendo a potência administradora do território até que termine o processo de descolonização, mediante um referendo de autodeterminação. Marrocos, no entanto, é a potência ocupante, e administra o Saara Ocidental através da força, mediante a repressão, sem que nenhum estado membro das Nações Unidas tenha reconhecido até hoje sua soberania sobre a região. O estado espanhol é, portanto, responsável por tudo que ocorre no Saara Ocidental e deve impulsionar a realização do referendo de autodeterminação o quanto antes.

Mas são os interesses econômicos e geoestratégicos que fazem com que a Espanha, a Europa e o mundo desviem o olhar quando Marrocos ignora as resoluções internacionais e reprime o povo saarauí com total impunidade.

A Espanha já traiu o povo saarauí diversas vezes. Nenhum de seus governos tem sido suficientemente valente para desenvolver uma política de acordo com suas obrigações legais e morais. Os interesses econômicos de poucos e as relações de estado, frequentemente ligadas aos interesses pessoais daqueles que ocuparam importantes cargos públicos, sempre prevaleceram.

Desse modo, a casa real espanhola, sob a liderança do Rei Juan Carlos I, está historicamente ligada à entrega do Saara Ocidental à monarquia marroquina. Não é preciso dizer que tanto o Partido Popular, quanto o PSOE, prometeram velar pelos direitos do povo saarauí desde a oposição, esquecendo-se das promessas e até mesmo traindo-as abertamente uma vez que chegaram ao poder. Já é hora do estado espanhol assumir suas responsabilidades e se colocar ao lado dos direitos humanos e da liberdade.

Não se pode negociar com o Marrocos a pesca em águas saarauís (como faz uma grande região espanhola). Os recursos naturais da população saarauí devem ser controlado por eles mesmos. Ao contrário, estarão condenando à pobreza um povo que luta pela sua independência. As empresas espanholas e européias que compram o pescado marroquino destas regiões devem ser sancionadas. O povo espanhol deve pressionar seu governo para exigir que defenda a “legalidade internacional” e não os interesses de um punhado de oligarcas inescrupulosos.

A situação do povo saarauí é muito grave. Os acampamentos de Tinduf sobrevivem principalmente através da ajuda proveniente da cooperação internacional. Historicamente, países como a URSS, Cuba, Argélia, Síria ou Líbia tem sido os melhores amigos do povo saarauí, seus melhores aliados e os que têm feito grandes esforços para ajudar este povo abandonado a sua própria sorte pela comunidade internacional. Entretanto a URSS já não existe, na Líbia Gadafi foi assassinado e seu estado destruído, e a Síria está imersa em uma terrível guerra. O povo saarauí necessita mais do que nunca da solidariedade dos povos de todo o mundo frente ao abandono e esquecimento que pretendem condená-los a chamada “comunidade internacional”, que deveria defender seus direitos.

Além disso, a crise econômica causou a redução drástica da ajuda humanitária aos acampamentos, com duras consequências para a população. Não podemos deixar que a gestão desta crise conduza toda a cooperação internacional, devemos exigir, especialmente, que a ajuda ao povo saarauí se torne uma prioridade para o estado espanhol, dada a enorme responsabilidade que possui neste conflito.

Devemos recuperar a memória sobre nossa história e assim entenderemos até onde chega nossa responsabilidade em relação ao Saara. Este não é um conflito alheio, foi criado pela Espanha e temos o dever moral de não esquecer de nosso povo irmão.

Viva o Saara livre!

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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