América Latina

Liderando pelo exemplo: Cuba na pandemia de Covid-19

O que está claro a partir de seu histórico de internacionalismo médico é que, com ou sem reconhecimento, Cuba revolucionária irá continuar lutando pela saúde global onde quer que seus cidadãos, e seu exemplo, puderem alcançar.

Por Helen Yaffe, via Counterpunch, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Cuba está na linha de frente da luta contra a pandemia, enviando médicos e enfermeiros para 19 nações ao redor do mundo. Foto via Ministério de Relações Exteriores de Cuba.
Cuba está na linha de frente da luta contra a pandemia, enviando médicos e enfermeiros para 19 nações ao redor do mundo. Foto via Ministério de Relações Exteriores de Cuba.

A resposta de Cuba à pandemia de Covid-19 tem sido extraordinária, tanto internamente quanto em relação à sua contribuição internacional. O fato de uma pequena nação insular, sujeitada a centenas de anos de colonialismo e imperialismo, e desde a Revolução de 1959, a seis décadas de um criminoso bloqueio por parte dos Estados Unidos, poder desempenhar um papel tão exemplar, se explica pelo seu sistema socialista. O planejamento central direciona recursos nacionais de acordo com uma estratégia de desenvolvimento que prioriza o bem-estar humano e a participação comunitária, e não o lucro privado.

As autoridades cubanas reagiram rapidamente às informações da China sobre o SARS-CoV2 no início do ano. Em janeiro, estabeleceram uma Comissão Nacional Intersetorial para Covid-19, atualizaram o Plano Nacional de Ação contra Epidemias, iniciaram o monitoramento nos portos e aeroportos, realizaram treinamentos de resposta à pandemia para funcionários alfandegários e de imigração e esboçaram um plano de “prevenção e controle”. Especialistas cubanos viajaram à China para pesquisar sobre o comportamento do novo coronavírus e as comissões do Conselho Científico do governo começaram a trabalhar no combate da doença. Ao longo de fevereiro, centros médicos foram reorganizados e equipes foram treinadas para controlar a propagação do vírus dentro do país. No início de março, um grupo de ciência e biotecnologia foi criado para desenvolver tratamentos para a Covid-19, testes, vacinas, diagnósticos e outras inovações. Do dia 10 de março em diante os turistas domésticos eram testados para a doença. Tudo isso foi antes do vírus ser detectado na ilha.

No dia 11 de março, três turistas italianos foram confirmados como os primeiros casos de Covid-19 em Cuba. As autoridades de saúde do país entraram em ação, organizaram reuniões locais, conduzindo inspeções sanitárias de porta em porta, testes, rastreamento de contato e quarentenas. Isso tudo foi acompanhado de programas educacionais e a publicação de informes diários sobre a situação. A população entrou em “isolamento” no dia 20 de março, exigindo o cumprimento de regras de distanciamento social e do uso de máscaras quando fora de casa ou em serviços essenciais. Os impostos sobre os negócios e as dívidas internas foram suspensas, os hospitalizados tiveram 50% de seus salários garantidos e as famílias de baixa renda qualificadas para programas de assistência social, com alimentos, medicamentos e outros bens entregues em suas casas. Ateliês em todo o país começaram a produzir máscaras, reforçado por um movimento popular de produção doméstica e por grupos comunitários de ajuda organizados para ajudar os vulneráveis e idosos a comprarem comida, já que longas filas se tornaram a norma. No dia 24 de março, Cuba fechou suas fronteiras para todos os não-residentes, uma decisão dura dada a importância do turismo para a receita do estado. Qualquer um que adentrasse o país deveria passar duas semanas em uma quarentena supervisionada, em um regime de testes. Os Conselhos de Defesa das províncias e municípios foram ativados.

Vídeo (em inglês) demonstrando a situação nos centros de isolamento em Cuba. Pode-se ativar legendas (imperfeitas, porém satisfatórias na medida do possível) em português com a função de “tradução automática” do YouTube, na opções de “Subtitles/CC” no canto inferior direito.

Em abril o pagamento de contas de serviços foi suspensa, assim como o transporte local e regional, sendo mantido apenas para equipes médicas e outros trabalhadores essenciais. Havana e outras cidades foram desinfectadas. Vinte comunidades em seis províncias foram colocadas sob quarentena total ou parcial. Um aplicativo para celular, desenvolvido em Cuba, que oferece um “exame virtual”, foi disponibilizado com um formulário que permite os usuários participarem de uma pesquisa epidemiológica para análises estatísticas pelo Ministério de Saúde Pública (MINSAP). Medidas foram tomadas para manter o vírus fora das prisões, com exames feitos duas vezes ao dia e nenhum caso registrado até o dia 23 de abril.

Até o dia 24 de maio, com uma população de 11,2 milhões, Cuba havia registrado 82 mortes e menos de 2.000 casos confirmados; 173 casos confirmados por 1 milhão de habitantes, comparado com 3.907 por milhão no Reino Unido. Nenhum trabalhador da saúde havia morrido, apesar de 92 terem sido infectados pelo vírus em meados de abril.

A resposta exemplar de Cuba é baseada em 5 aspectos de seu desenvolvimento socialista. Primeiro, seu sistema único, universal e gratuito de saúde que visa a prevenção antes da cura, com uma rede de médicos familiares responsáveis pela saúde da comunidade que vivem próximos aos seus pacientes. Segundo, a indústria biofarmacêutica de Cuba, que é movida pelas necessidades da saúde pública, produz cerca de 70% dos medicamentos consumidos internamente, e exporta para 50 países1. Terceiro, a experiência da ilha em matéria de defesa civil e redução de riscos de desastres, geralmente em resposta a desastres naturais e climáticos. Sua internacionalmente elogiada capacidade de mobilizar recursos para proteger vidas humanas é assegurada por uma rede de organizações de base que facilitam a comunicação e a ação comunitária. Quarto, a experiência do país em operar o controle de doenças infecciosas nas fronteiras. Por décadas, Cuba tem enviado profissionais da saúde para países que sofrem de doenças infecciosas já erradicadas na ilha, e tem convidado dezenas de milhares de estrangeiros desses países para estudarem em Cuba. O país possui procedimentos bem desenvolvidos de quarentena para pessoas que adentram a ilha. E quinto, o internacionalismo médico cubano, que já forneceu mais de 400.000 trabalhadores da saúde gratuitamente para populações carentes em 164 países; cerca de 28.000 trabalhavam em 59 países no início da pandemia. Ao final de maio, 2300 especialistas adicionais das brigadas médicas “Henry Reeve” de Cuba foram enviados para 24 países para o tratamento de pacientes com Covid-19.

O compromisso com uma saúde pública de alto-padrão

Em 1959, Cuba possuía apenas 6.000 médicos, porém metade deles foram embora rapidamente; apenas 12 dos 250 professores cubanos da Faculdade de Medicina da Universidade de Havana permaneceram na ilha. Havia apenas um único hospital rural. O governo revolucionário enfrentou o desafio de construir um sistema de saúde pública de alto-padrão praticamente do zero. Para isso, em 1960, foi estabelecido o Serviço Médico Rural (SMR) e ao longo da década seguinte centenas de médicos recém-formados foram designados para regiões remotas2. Os clínicos do SMR serviam como educadores sanitários assim como médicos. Programas nacionais para o controle e prevenção de doenças infecciosas foram estabelecidos. A partir de 1962, um programa nacional de imunização forneceu a todos os cubanos oito vacinas, completamente gratuitas. As doenças infecciosas foram rapidamente controladas, e então erradicadas. Já em 1970, o número de hospitais rurais já havia chegado a 53. Não foi até 1976 que a proporção de médicos e cidadãos do período pré-revolucionário foi restaurada, e os serviços de saúde disponibilizados nacionalmente e seus indicadores melhorados significativamente. Um novo modelo de policlínicas comunitárias foi estabelecido em 1974, garantindo às comunidades cubanas o acesso local a especialistas em cuidados básicos. Treinamentos e diretrizes enfatizaram o impacto de fatores biológicos, sociais, culturais, econômicos e ambientais nos pacientes. Programas nacionais focaram na saúde infantil e materna, doenças infecciosas, doenças crônicas e saúde dos idosos.

Em 1983, o Plano de Médicos e Enfermeiros Familiares foi introduzido nacionalmente. Neste sistema, as práticas de médicos familiares foram instaladas nos bairros, com o médico ou enfermeiro morando próximo às famílias, tornando a atenção médica disponível 24 horas por dia. Os médicos familiares coordenam o tratamento e lideram campanhas de saúde, enfatizando a prevenção e a análise epidemiológica. Eles trabalham com o histórico dos pacientes e suas habilidades clínicas, reservando procedimentos de alto-custo para aqueles que necessitam, realizando consultas na parte da manhã e atendimentos domésticos na parte da tarde. As equipes realizam diagnósticos médicos dos bairros, unindo a medicina clínica com a saúde pública, além da “Avaliação de Riscos e Exames Contínuos” (AREC) individualizada para seus pacientes. Os médicos e enfermeiros familiares também trabalham em grandes locais de trabalho e escolas, creches e casas de repouso, entre outros.

Em 2005, os cubanos já possuíam um médico para cada 167 pessoas, a maior proporção do mundo. Cuba possui hoje 449 policlínicas, cada uma atendendo de 20.000 a 40.000 pessoas e servindo como um núcleo para 15 a 40 médicos familiares. Existem mais de 10.000 médicos familiares espalhados igualmente por toda a ilha.

Cuidados de saúde básicos como o pilar da resposta de Cuba

Um artigo da Medicc Review em abril de 2020 descreveu o sistema de cuidados básicos de saúde de Cuba como uma “arma poderosa” contra a Covid-193. “Sem acesso rápido aos testes, a testagem massiva claramente não era um opção estratégia inicial. No entanto, os cuidados básicos de saúde eram”. As autoridades cubanas garantiram que todos no sistema de saúde, incluindo as equipes de apoio, recebessem treinamento para a Covid-19 antes do vírus ser detectado. Médicos veteranos de cada província foram treinados no mundialmente famoso hospital cubano para doenças tropicais, o Instituto Pedro Kourí. Ao retornarem para suas províncias, ele treinaram seus colegas – diretores de hospitais e policlínicas. “E então o treinamento foi sendo passado para frente: para os próprios médicos e enfermeiros familiares, técnicos de laboratório e radiografia, equipe administrativa e de limpeza e motoristas de ambulâncias. Todos que poderiam ter contato com um paciente”, explicou um diretor de uma policlínica, Dr. Mayra Garcia, que é citado no artigo.

Cada policlínica também treinou pessoas que não são do setor da saúde em sua região, nos locais de trabalho, pequenos negócios, pessoas que alugam residências para estrangeiros ou administram creches, orientando-os a reconhecerem sintomas e tomarem medidas protetivas. Profissionais médicos veteranos das policlínicas foram enviados para os consultórios dos médicos familiares para reforço. Equipes médicos foram designadas em hotéis para fornecer tratamento e exames 24 horas para estrangeiros. Prontos-socorros foram reorganizados para separar aqueles com sintomas respiratórios e fornecer exames 24 horas. Consultas não relacionadas com a Covid-19 foram adiadas quando possível ou reagendadas para visitas domésticas para grupos prioritários.

O artigo também destaca a importância do modelo AREC no combate à Covid-19. Todos os cubanos já estão categorizados em 4 grupos: aparentemente saudável, com fatores de risco para doenças, doentes e em recuperação ou reabilitação. Os médicos conhecem a situação de saúde e as necessidades da comunidade que servem. “O modelo AREC também nos alerta automaticamente para pessoas que estão mais suscetíveis à infecções respiratórias, pessoas cuja doenças crônicas são fatores de risco comumente associados às complicações em pacientes com a Covid-19” explicou o Dr. Alejandro Fadragas.

Em todo o país, os comitês locais organizaram reuniões informativas sobre saúde pública para médicos e enfermeiros familiares orientarem os bairros em relação à pandemia. Assim que os primeiros casos foram confirmados, as visitas domésticas foram ampliadas e se tornaram a “ferramenta mais importante” para a detecção ativa de casos, para se antecipar ao vírus4. Cerca de 28.000 estudantes de medicina se uniram aos médicos para visitas de porta em porta para detectar sintomas. Esse procedimento significou que toda a população pôde ser examinada.

Vídeo sobre os médicos familiares cubanos (em inglês). Pode-se ativar legendas (imperfeitas, porém satisfatórias na medida do possível) em português com a função de “tradução automática” do YouTube, na opções de “Subtitles/CC” no canto inferior direito.

As pessoas que apresentavam sintomas eram direcionadas à policlínica local para um exame rápido. Os suspeitos de contaminação eram enviados para um dos centros de isolamento municipais instalados em toda a ilha. Ficavam lá pelo mínimo de 14 dias, realizando testes e recebendo atenção médica. Se o quadro apresentasse outra doença respiratória, eles poderiam voltar para casa, mas deveriam ficar em isolamento por 14 dias, com acompanhamento básico. Os hospitais ficaram reservados para os pacientes que realmente precisavam.

Os profissionais de atendimento básico também eram responsáveis pelo rastreamento de contato de todos os casos suspeitos, que eram testados e ficavam em isolamento em casa. Além disso, as casas e condomínios de pacientes enviados para os centros de isolamento eram desinfectadas por equipes de prontidão consistindo de diretores e vice-diretores de policlínicas, juntamente com membros da família. Os consultórios dos médicos familiares também são desinfectados diariamente. Enquanto isso, trabalhadores de hotéis que abrigam estrangeiros são examinados diariamente por equipes médicas. A policlínica os fornece equipamentos de proteção e desinfectantes, além de serem responsáveis, juntamente com os médicos familiares, pelo acompanhamento de 14 dias de pacientes de Covid-19 liberados dos hospitais.

Medicamentos nacionais

O protocolo de tratamento para pacientes de Covid-19 em Cuba inclui 22 medicamentos, a maioria produzida internamente. O foco tem sido a prevenção, com medidas para aprimorar a imunidade natural. Desde cedo o potencial do antiviral cubano Heberon foi identificado. O produto de biotecnologia se provou efetivo para doenças virais incluindo a hepatite tipo B e C, hérpes, AIDS e dengue. Produzido em Cuba desde 1986 e na China desde 2003 através de um investimento conjunto Sino-Cubano, a ChangHeber, foi selecionado em janeiro de 2020 pela Comissão Nacional Chinesa de Saúde dentre 30 tratamentos para pacientes da Covid-19. Rapidamente subiu para o topo da lista de antivirais, demonstrando ótimos resultados.

A droga tem maior eficácia quando usada de forma preventiva e nos estágios iniciais de infecção. Em Wuhan, na China, cerca de 3.000 médicos receberam o Heberon como medida preventiva para melhorar sua resposta imunológica; nenhum deles contraiu o vírus. Enquanto isso, 50% dos outros 3.300 médicos que não receberam o medicamento contraíram o vírus. O Heberon cubano é recomendado nos protocolos médicos de diversos países, pela Organização Mundial da Saúde, pelo Johns Hopkins Medical Centre e pelo World Journal of Paediatrics, dentre outros. O produto já foi registrado na Argélia, Argentina, Chile, Equador, Jamaica, Tailândia, Venezuela, Vietnã, Iêmen e Uruguai. Em meados de abril foram recebidos pedidos para seu uso por mais de 80 país e estava sendo administrado pelas brigadas médicas cubanas para o tratamento da Covid-19 ao redor do mundo. No dia 14 de abril foi divulgado que 93,4% dos pacientes de Covid-19 em Cuba foram tratados com o Heberon e apenas 5,5% deles entraram em estado grave. A taxa de mortalidade nesta data era de 2,7%, mas para os pacientes tratados com o Heberon era de apenas 0,9%.

Outros medicamentos cubanos que registram resultados promissores incluem:

• A Biomodulina T, um imunomodulador que estimula o sistema imunológico de indivíduos vulneráveis que tem sido usado em Cuba por 12 anos, principalmente para tratar infecções respiratórias recorrentes em idosos.

• O Itolizumab Anti-CD6, usado para tratar linfomas e leucemia, administrado para pacientes de Covid-19 em condição grave para reduzir a secreção de citoquinas inflamatórias, que causam o fluxo massivo de substâncias e líquidos nos pulmões.

• O CIGB-258, um novo peptídeo imunomodulador projetado para reduzir processos inflamatórios. Em 22 de maio, 52 pacientes de Covid-19 foram tratados com o CIGB-258; dentre os em estado grave, a taxa de sobrevivência foi de 92%, em relação a uma taxa global de 20%. Para aqueles em condição crítica a taxa foi de 78%.

• Plasma sanguíneo para pacientes recuperados.

Cientistas médicos cubanos estão produzindo sua própria versão do Kaletra, uma combinação antirretroviral de Lopinavir e Ritonavir, usado no tratamento de AIDS. A produção nacional irá eliminar custosas de importações das empresas farmacêuticas capitalistas e a sujeição ao bloqueio estadunidense. Enquanto isso, o medicamento homeopático, Prevengho-Vir, que se acredita fortalecer o sistema imunológico, foi distribuído gratuitamente para todos na ilha. Cientistas médicos estão avaliando duas vacinas para estimular o sistema imunológico e quatro candidatos para vacina preventivas especificamente para a Covid-19 estão sendo desenvolvidas.

No início de maio, cientistas cubanos adaptaram o SUMA, um sistema cubano computadorizado de diagnóstico, para detectar anticorpos para a Covid-19 rapidamente, possibilitando a testagem massiva a baixo custo. “O objetivo é encontrar novos casos e intervir, isolar, traçar os contatos, e tomar todas as medidas possíveis para garantir que Cuba continue como está”, disse o maior epidemiologista cubano, Francisco Durán, durante seu informe diário na televisão no dia 11 de maio. Isso significa que a ilha não depende mais da doação ou da compra de testes caros internacionalmente. A já alta taxa comparativa de testagem em Cuba certamente irá disparar.

A BioCubaFarma está produzindo máscaras, equipamentos de proteção e produtos médicos e sanitários em massa, além de coordenar empresas estatais e trabalhadores autônomos na reparação de equipamentos vitais, como respiradores. Os esforços de Cuba para comprar novos respiradores foi obstruído pelo bloqueio estadunidense, que por quase 60 anos têm incluído alimentos e medicamentos dentre suas proibições.

Liderando a luta global

No dia 18 de março, Cuba permitiu que o cruzeiro MS Braemar, com 684 passageiros britânicos e 5 casos confirmados de Covid-19, ancorasse em Havana após uma semana isolado no mar, tendo sua recepção recusada por Curaçao, Barbados, Bahamas, República Dominicana e Estados Unidos. As autoridades cubanas facilitaram a transferência dos passageiros para seus vôos de repatriação. Três dias depois, uma brigada com 53 médicos cubanos chegou na Lombardia, Itália, no momento em que a região era o epicentro da pandemia, para dar apoio às autoridades de saúde locais. Os médicos eram membros do Contingente Henry Reeve de Cuba, que recebeu um Prêmio de Saúde Pública da OMS em 2017 em reconhecimento de sua assistência médica gratuita. Foi a primeira missão médica de Cuba na Europa. No dia 21 de maio, mais de 2.300 profissionais da saúde cubanos já haviam ido para 24 países para tratar pacientes de Covid-19, incluindo uma segunda brigada ao norte da Itália e outra para o principado europeu de Andorra.

A ameaça de um bom exemplo

O internacionalismo médico de Cuba começou em 1960, mas a exportação de profissionais da saúde não foi uma fonte de renda para o estado até meados dos anos 2000, com o famoso programa “petróleo por médicos”, no qual 30.000 trabalhadores médicos cubanos serviram na Venezuela. O governo de Bush respondeu visando sabotar a receita da exportação cubana com o Programa de Indultos para Médicos Cubanos, que incentivava profissionais cubanos, que tiveram educação gratuita, não pagaram taxas de matrícula e que haviam assinado contratos voluntariamente para trabalharem no exterior servindo populações carentes, a abandonarem suas missões em troca da cidadania estadunidense. O presidente Obama manteve o programa, ainda que elogiasse os médicos cubanos que combatiam o Ebola na África Ocidental. O programa foi encerrado no final de seu mandato, em janeiro de 2017.

Entrevistas com médicos cubanos sobre seu trabalho no exterior (em inglês). Pode-se ativar legendas (imperfeitas, porém satisfatórias na medida do possível) em português com a função de “tradução automática” do YouTube, na opções de “Subtitles/CC” no canto inferior direito.

O governo Trump tem renovado os ataques contra as missões médicas cubanas, incentivando sua expulsão do Brasil, Equador e Bolívia, e deixando milhões de pessoas nestes países sem atendimento médico. A motivação é a mesma: bloquear as receitas de uma nação que sobrevive há 60 anos a hostilidade dos Estados Unidos. No contexto da pandemia, quando os fracassos voluntários do governo estadunidense têm resultado em dezenas de milhares de mortes desnecessárias, a liderança socialista global de Cuba tem representado a ameaça de um bom exemplo. Como forma de ataque, o Departamento de Estado americano taxou os médicos cubanos de “escravos”, alegando que o governo de Cuba visa lucros e influência política, e tem pressionado os países beneficiários a rejeitarem a assistência cubana neste grave momento. Estes ataques são repugnantes; e é provável que Cuba não esteja recebendo nenhum pagamento, para além dos custos, por esse apoio.

Enquanto isso, o bloqueio criminoso dos Estados Unidos, que tem se intensificado no governo Trump, está impedindo a compra de urgentemente necessários respiradores para os próprios pacientes cubanos. Uma doação chinesa de equipamentos médicos foi bloqueada, pois a aeronave que carregava os bens não pôde chegar em seu destino por medo de sanções estadunidenses. Existe agora uma demanda internacional cada vez maior pelo fim de todas as sanções, especialmente sobre Cuba, que tem demonstrado uma liderança global no combate à pandemia de coronavírus. Nós devemos nos unir a essa demanda. Existem também pedidos de organizações e indivíduos pela nomeação do Contingente Henry Reeve de Cuba para um Prêmio Nobel da Paz. O que está claro a partir de seu histórico de internacionalismo médico é que, com ou sem reconhecimento, Cuba revolucionária irá continuar lutando pela saúde global onde quer que seus cidadãos, e seu exemplo, puderem alcançar.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


1  Veja Helen Yaffe, ‘Cuban medical science in the service of humanity’, www.counterpunch.org/2020/04/10/cuban-medical-science-in-the-service-of-humanity/

2  Veja C. William Keck and Gail A. Reed, ‘The Curious Case of Cuba’, American Journal of Public Health, 2012.

3  Tania L. Aguilar-Guerra and Gail Reed, ‘Mobilizing Primary Health Care: Cuba’s Powerful Weapon against COVID-19’, Medicc Review, abril de 2020. https://mediccreview.org/wp-content/uploads/2020/05/MR-April2020-1.pdf

4  Aguilar-Guerra and Reed, Mobilizing Primary Health Care.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: