Brasil

Muita calma nessa hora: as limitações do antifascismo no Brasil

Por Eduardo Pessine

Setores das torcidas organizadas puxaram uma manifestação antifascista nos últimos dias, no entanto, é importante não deixar de lado a contradição central que atualmente condena o Brasil à condição de colônia financeira: o rentismo. Foto via FOTOARENA.
Setores das torcidas organizadas puxaram uma manifestação antifascista nos últimos dias, no entanto, é importante não deixar de lado a contradição central que atualmente condena o Brasil à condição de colônia financeira: o rentismo. Foto via FOTOARENA.

É importante deixar claro, logo de início, que qualquer brasileiro comprometido com a libertação de nosso país e com a auto-determinação de nosso povo deve se opor a qualquer ideologia política que contenha elementos proto-fascistas. O fascismo italiano e o nazismo alemão são ideologias de profundo teor colonial, que utilizaram o discurso racial como meio para subordinar outros povos, outras nações. Foram uma extensão do colonialismo perpetrado pelas ditas “democracias” liberais, que condenaram a periferia do mundo à exploração e à penúria. Os nazistas e fascistas europeus nada mais fizeram do que aplicar o colonialismo aos próprios povos europeus, sendo derrotados apenas pelo corajoso sacrifício do povo soviético, que libertou as nações do leste europeu da exploração pelas burguesias ocidentais. Posto isso, é evidente que essas ideologias são parte do processo imperialista que condena nós, o Brasil, à condição de colônia financeira, e devem ser combatidas com todas as forças.

Dito isso, observemos a realidade brasileira, a realidade concreta de nosso país. A eleição de Bolsonaro é fruto de um longo processo de despolitização que serviu à manutenção da República Rentista, serviu para que todo nosso espectro político, da esquerda à direita, não tocaste neste assunto, enquanto o rentismo devasta nosso país. Os serviços públicos foram desmantelados, a condição de vida dos brasileiros foi arruinada, enquanto os banqueiros lucraram bilhões e bilhões. Não há saída para nosso país sem tocar nisto. O tímido e passageiro crescimento do consumo dos trabalhadores nos governos petistas logo foi vetado pelos rentistas, assim que sua manutenção, dada a crise econômica, requereria tocar nos rendimentos bilionários do esquema fraudulento da dívida dita “pública”, e assim foi feito.

O discurso de Bolsonaro possui sim elementos protofascistas, importados de linhas políticas da extrema-direita estadunidense. No entanto, a tentativa de consolidação de seu partido, a “Aliança pelo Brasil”, que seria o ponto gravitacional de sua ideologia, foi um fracasso absoluto, validando apenas 12.000 assinaturas até o último dia 22 de maio. Esse fato deixou claro que não existe uma adesão de massas à linha política de Bolsonaro, não existe uma “ameaça fascista” no Brasil.

Existem indivíduos fascistas, nazistas, ou qualquer outra variação deste tipo? Mas claro! Entretanto esses indivíduos não formam nenhum movimento de peso político real. São imbecis e aventureiros – que apesar de merecerem a repressão, não são dignos nem capazes de conduzir os rumos da política brasileira, nem de longe.

Vemos então que, apesar de muito bem intencionada, a movimentação antifascista possui uma profunda limitação: a centralidade de seu discurso combate um inimigo ínfimo, irrelevante politicamente. Bolsonaro e seus capangas não passam de cães-de-guarda da República Rentista! O atual presidente foi lá colocado para desmontar ainda mais os serviços públicos brasileiros e jogar cada vez mais dinheiro no saco sem fundo da dívida “pública”, e será em breve descartado.

Isso não significa, entretanto, que não exista um horizonte autoritário para o Brasil. A crise econômica, agravada ainda mais pela pandemia de coronavírus, e atrelada ao profundo descaso do estado e à destruição da saúde pública, poderá levar o país a um caos social, uma revolta espontânea de grandes magnitudes. A burguesia rentista está sem dúvidas atenta a isto, e busca uma saída de estabilização. Essa estabilização pode ocorrer através de um estado policial, contendo a revolta popular através da força, ou através de um regime “responsável”, que diminua as tensões políticas e sociais. No entanto, esta decisão está nas mãos da grande burguesia rentista e não de Bolsonaro, um mero fantoche, ou dos gatos-pingados fascistas que existem por aí.

Vejamos: Bolsonaro é apontado como a grande liderança do fascismo no Brasil, e frequentemente reforça essa posição com atitudes e referências ideológicas ligadas ao nazi-fascismo, agitando seus oponentes e assim gerando uma coesão em sua base eleitoral. Mas João Dória, ou Rodrigo Maia, por exemplo, não são colocados neste barco. Pois bem, ambos estão comprometidos com a manutenção do rentismo, e consequentemente, com nossa condição de colônia financeira. A derrota do setor fascista, em nosso caso, não tocaria na República Rentista, não tocaria em nenhuma das estruturas econômicas de nossa exploração.

A luta contra um possível horizonte autoritário deve então, necessariamente, tocar na contradição central do Brasil, apontar o dedo para os verdadeiros mandantes da penúria do povo brasileiro, aqueles que estão dispostos a subordinar toda nossa nação aos seus lucros astronômicos: os banqueiros! Só assim derrotaremos um futuro estado policial no Brasil, que servirá para manutenção do regime da dívida. Para uma vitória política efetiva, precisamos superar o antifascismo, precisamos de um anti-rentismo, uma luta pela destruição da República Rentista e pela libertação nacional!

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