Oriente Médio

A Jordânia e o plano de anexação

Por Abdel Bari Atwan, via Raialyoum, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

O rei Abdullah II da Jordânia chega na abertura da 4º Sessão Parlamentar Ordinária na capital, Amã, no dia 10 de novembro de 2019. Foto por Khalil Mazraawi.
O rei Abdullah II da Jordânia chega na abertura da 4º Sessão Parlamentar Ordinária na capital, Amã, no dia 10 de novembro de 2019. Foto por Khalil Mazraawi.

A ofensiva do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu para estender a soberania de Israel à Cisjordânia significa efetivamente a anulação da Autoridade Nacional Palestina (ANP) e o abandono dos Acordos de Oslo e da solução de dois estados. Prepara o terreno para a expulsão de centenas de milhares, senão milhões de palestinos dos grandes centros populacionais para a Jordânia, que Israel considera ser sua “pátria alternativa”.

Não é difícil imaginar o que o mundo árabe fará para impedir esse plano, que é a assinatura política da nova coalizão de Netanyahu com o General Benny Gantz, que está pronta para ser implementada no início de junho. A questão é o que será feito pela ANP e seu presidente, Mahmoud Abbas, e sua outra vítima principal, a Jordânia.

A recente ameaça de Abbas, de dissolver a ANP e se retirar dos Acordos de Oslo e de todos os compromissos associados – incluindo a cooperação em segurança – caso Israel anexe uma polegada sequer da Cisjordânia ou do Vale do Jordão, não são confiáveis. Já ouvimos ameaças semelhantes diversas vezes e elas nunca se concretizaram. Seu plano é continuar em seu palácio em Ramala até o dia de sua morte, ou até ser expulso por um jovem recruta israelense. Na ausência de uma ação oficial para impedir esse roubo de terras apoiado pelos americanos, recai sobre o povo palestino e jordano resistir, usando de todos os meios possíveis e disponíveis.

O rei Abdullah sabe muito bem que o plano israelense liderado por Netanyahu não acaba com a anexação da Cisjordânia e do Vale do Jordão, mas também inclui derrubar a monarquia Hachemita e transformar a Jordânia em um estado-fantoche palestino. O plano de anexação impõe assim uma ameaça direta à Jordânia. Removerá a ligação territorial do país com as regiões palestinas e seguirá certamente com a “transferência” dos palestinos para a Jordânia. Daí vem seu recente alerta em uma entrevista para o jornal alemão Der Spiegel, de que o plano israelense irá causar um “enorme conflito”.

Eu me encontrei com o monarca jordaniano em algumas ocasiões, mais recentemente em outubro de 2018. Nada o preocupava mais do que a perspectiva de uma anexação israelense da Cisjordânia e do Vale do Jordão. E afirmou francamente que qualquer expulsão de palestinos das cidades antes, durante ou depois de tal processo significaria uma “declaração de guerra” da qual a Jordânia não ignoraria, mas responderia com toda sua força, a qualquer custo.

Lembrei-me disso enquanto lia a entrevista no Der Spiegel, especialmente sua observação sobre o “enorme conflito” caso a anexação se concretize – o que parece cada vez mais certo após a visita do Secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, à Jerusalém ocupada, dando a “benção” americana ao plano.

A Jordânia tem vários opções para retaliar Israel caso esse conflito ocorra. A primeira é o cancelamento do tratado de paz de Araba e tudo que dele advém: relações normais, coordenação em segurança, cooperação econômica, laços diplomáticos e acordos comerciais – especialmente o vergonhoso acordo de importação do gás natural roubado dos palestinos.

No meu último encontro com o monarca jordaniano, ele estava visivelmente preocupado principalmente com três questões: a forma com que alguns estados do Golfo havia abandonado a Jordânia, cortando a ajuda financeira e contornando seu “papel” ao abrirem canais diretos de comunicação com os israelenses; o apoio total do governo Trump ao governo de Netanyahu e sua cruel política colonial; e o movimento de protestos populares na Jordânia, que na época estavam no seu auge.

Mas apesar de todas as suas dificuldades econômicas e a traição dos seus antigos aliados do Golfo – somados às novas pressões da crise do coronavírus – a Jordânia tem muitos pontos fortes. O maior delas é que seu povo está comprometido com a monarquia e totalmente unido na causa de resistir a ameaça existencial enfrentada pelo país.

A Jordânia também possui uma fronteira de 600 km com a Palestina ocupada, que Israel – mesmo com sua alta capacidade e tecnologia de inteligência e de armamentos sofisticados – jamais conseguiria controlar e proteger caso a guerra, em todos os sentidos da palavras, se rompesse.

Uma opção que o rei jordano e seus dirigentes não podem descartar é forjar alianças com o “eixo da resistência” na região. Isso deveria ter sido feito antes, quando ficou claro que Trump abandonaria a Jordânia e se alinharia totalmente ao lobby de Israel, a quem a dependência aumentou ainda mais agora, após seus múltiplos fracassos na resposta à crise do coronavírus e o consequente colapso econômico.

A Jordânia está fortalecida por seu povo, sua localização geográfica e pela unidade nacional. Possui muitas cartas na manga. Assim como se recusou a renovar seus acordos de arrendamento de terras com Israel, apesar da forte pressão estadunidense, o país deve usar todos meios possível para resistir ao plano de anexação israelense, mesmo que isso leve ao confronto militar. Aqueles que citam o desequilíbrio de poder como uma barreira, devem lembrar que Netanyahu fracassou em avançar dentro da Faixa de Gaza e no sul do Líbano quando travou uma guerra contra ambos, entrando em pânico quando três pequenas brechas foram encontradas na fronteira libanesa. Imagine a situação caso jordanos de todos os tipos fossem lançados a fronteira para libertar os seus locais sagrados e seus irmãos palestinos.

A Jordânia está mudando. Seu povo e seu exército nunca estiveram tão dispostos a enfrentar o desafio e os sacrifícios necessários. Caso Netanyahu siga em frente com seu plano de anexação, poderá dar início ao fim do racismo e da impunidade de Israel.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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