Europa

A pressão anti-nuclear na Alemanha e o lucro da aviação estadunidense

Por Finian Cunningham, via Strategic Culture Foundation, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Manifestante veste máscara de Ronald Reagan em protesto em Bonn, Alemanha Ocidental, no dia 22 de outubro de 1983, contra os planos da OTAN de plantar novos mísseis nucleares no país. Foto por Helmuth Lohmann.
Manifestante veste máscara de Ronald Reagan em protesto em Bonn, Alemanha Ocidental, no dia 22 de outubro de 1983, contra os planos da OTAN de plantar novos mísseis nucleares no país. Foto por Helmuth Lohmann.

Quando os social-democratas alemães – o parceiro minoritário da coalizão governista – renovaram os antigos chamados pela retirada das bombas nucleares estadunidenses do país, a retaliação de Washington foi rápida e furiosa.

Richard Grenell, o embaixador estadunidense em Berlim, escreveu um artigo de opinião para a mídia alemã atacando o movimento como uma “sabotagem” da dissuasão nuclear da OTAN na Europa. Grenell, que também é o atual Diretor de Inteligência Nacional dos EUA, foi contundente, reiterando as alegações injuriosas do presidente Trump de que a Alemanha não está se empenhando o suficiente em seus compromissos com a OTAN.

Grenell tem sido o pesadelo de muitos políticos alemães, de diversos espectros, em relação ao que vêem como uma interferência arbitrária por parte do embaixador nos assuntos internos do país, até mesmo com uma ex-liderança social-democrata equiparando-o a uma “autoridade colonial”.

E então ocorreu a intervenção do embaixador americano na Polônia, Georgette Mosbacher, que proferiu maliciosamente que caso a Alemanha não queira comportar as ogivas nucleares estadunidenses, a Polônia poderia fornecer um local alternativo para os armamentos. Dado o histórico de más relações entre a Alemanha e a Polônia, sem contar a provocação incendiária à Rússia, a sugestão de Mosbacher é grotesca. Mas de qualquer maneira, ilustra a dura retaliação de Washington aos chamados renovados pela remoção das armas nucleares estadunidenses do território alemão.

Acredita-se que existam cerca de 20 bombas nucleares B-61-3/4 armazenadas na base aérea de Bucher, no oeste da Alemanha, sob comando dos Estados Unidos. No caso de uma guerra nuclear, as bombas seriam carregadas em aviões alemães pilotados por membros da Luftwaffe e ativados por códigos secretos americanos. Esse acerto é parte de um histórico acordo de compartilhamento nuclear mais amplo da OTAN na Europa, que data da Guerra Fria, e inclui bombas controladas pelos EUA instaladas também na Bélgica, Países Baixos e Itália.

Os cidadãos alemães clamam há tempos pela remoção das bombas estadunidenses de seu território, temendo que os armamentos aumentem a instabilidade e o perigo de uma guerra com a Rússia. Em 2010, o parlamento alemão (Bundestag) votou para que Berlim trabalhasse com Washington pela remoção das bombas.

No entanto, os sucessivos governos alemães têm ignorado o voto do parlamento. Recentemente, no começo deste mês (maio/2020), Berlim jurou a continuidade do acordo de compartilhamento nuclear da OTAN.

Deve ter sido alarmante para Washington a notícia de que os parceiros minoritários dos democratas-cristãos de Angela Merkel, os social-democratas, tenham recentemente revigorado os clamores para que os Estados Unidos removam seu arsenal nuclear do país.

Rolf Mützenich, a liderança parlamentar dos social-democratas, disse, “já é tempo da Alemanha decidir contra elas [armas nucleares estadunidenses] ficarem aqui no futuro”. Ele acrescentou, “armas nucleares em solo alemão não fortalecem nossa segurança, muito pelo contrário”.

A manutenção de suas armas nucleares em território europeu é um elemento crucial do controle de Washington sobre a OTAN e a política externa europeia. Particularmente, esses bombas permitem a projeção de poder estadunidense sobre a Rússia. Mas ainda mais importante, seu valor estratégico vem da capacidade de Washington de impor uma agenda do medo visando dividir a Europa na condução de relações normais com Moscou. Isso tem sido há muito tempo a função real da aliança dominada pelos Estados Unidos na OTAN. “Manter a União Soviética de fora, os americanos dentro, e os alemães de joelhos”, ressaltou um de seus fundadores.

Mas também existe um fator mais contemporâneo – os lucros multimilionários da indústria militar estadunidense.

Tem ocorrido uma longa disputa política em Berlim em relação à modernização da Força Aérea da Alemanha. A antiga frota de Tornados da Luftwaffe data do início dos anos 1980, e devem ser substituídos até 2025. As autoridades alemãs têm especulado sobre substituir os Tornados pelos Eurofighter Typhoons feitos na Europa ou por F-35s e F-18s produzidos nos Estados Unidos. Por vezes Berlim parece favorecer o Eurofighter, por outras a opção americana.

O consórcio da Airbus envolvido na fabricação do Eurofighter é uma parceira entre alguns governos europeus, incluindo o alemão. Para além dos lucros da venda dos aviões, existem também benefícios indiretos como a geração de empregos e contratos de manutenção.

A Boeing, a fabricante do F-18, tem sofrido perdas financeiras devastadores no último ano devido aos acidentes fatais envolvendo seu avião comercial Max-8. Dessa forma, há muito em jogo para a empresa – a principal fabricante estadunidense – que depende muito da decisão da Alemanha sobre qual avião irá escolher para modernizar sua frota de Tornados.

A Ministra da Defesa alemã, Annegret Kramp-Karrenbauer, supostamente informou em abril sua contraparte americana, Mark Esper, que Berlim finalmente tomou a decisão de comprar ao menos 45 F-18s.

Kramp-Karrenbauer também encabeça o Partido Democrata-Cristão, após tomar a liderança de Angela Merkel em 2018. Ela é uma grande defensora da manutenção da Alemanha no acordo nuclear da OTAN, o que significa a manutenção das bombas nucleares americanas no território alemão. A ministra enfatizou que qualquer modernização da frota alemã deverá cumprir “integralmente” os dois papéis dos antigos Tornados: operar tanto em combate convencional quanto nuclear.

Se um governo futuro de Berlim conquistasse a remoção dos armamentos nucleares estadunidenses da Alemanha, isso dispensaria a necessidade de aviões com capacidades nucleares. O F-18 e o F-35 são facilmente certificáveis por Washington para carregarem as bombas B-61 estadunidenses, enquanto o Eurofighter não é certificado e enfrentaria um longo atraso para receber a autorização americana, e isso caso realmente consiga, o que não é certo. Os americanos já afirmaram abertamente que o Eurofighter estaria sob desvantagem em relação aos F-35 e F-18 para receber autorização de operar bombas nucleares estadunidenses.

No entanto, caso a Alemanha não fizesse mais parte do arsenal nuclear dos Estados Unidos e suas aeronaves não precisassem mais dessa capacidade de carregamento, o Eurofighter se tornaria ainda mais atrativo, especialmente dada a vantagem para as indústrias e empregos na Europa.

Isso explicaria a razão do recente debate na Alemanha sobre a remoção das armas nucleares dos Estados Unidos ter suscitado uma reação tão dura por parte de Washington. Isso não diz respeito apenas à dominação sobre a Europa através do histórico acordo nuclear da OTAN. Além disso, existem bilhões de dólares em jogo para as fabricantes de aviões americanas. Essa é a razão pela qual Washington está pressionando Berlim pela manutenção de seu arsenal nuclear. É parte integrante da venda de mais aviões de guerra estadunidenses.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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