Brasil

A hipocrisia da defesa da ‘democracia’

Nas últimas décadas, a grande maioria do povo brasileiro teve seu direito mais básico, o direito à vida, negado. A defesa desta “democracia” é, na prática, a defesa do extermínio de dezenas de milhares de brasileiros pobres e negros todos os anos.

Por Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

A rapina das riquezas do Brasil por meia dúzia de banqueiros através do sistema da dívida dita "pública" condena nossas crianças ao convívio diário com a violência brutal nas periferias das grandes cidades. Foto por Silvia Izquierdo/AP.
A rapina das riquezas do Brasil por meia dúzia de banqueiros através do sistema da dívida dita “pública” condena nossas crianças ao convívio diário com a violência brutal nas periferias das grandes cidades. Foto por Silvia Izquierdo/AP.

Mais uma vez a realidade material se impõe e mostra que a suposta democracia brasileira é uma farsa. Nas últimas décadas, a grande camada majoritária do povo brasileiro teve seu direito mais básico, o direito à vida, negado. A defesa desta “democracia” é, na prática, a defesa do extermínio de dezenas de milhares de brasileiros pobres e negros todos os anos.

Na segunda-feira, dia 18 de maio, o jovem João Pedro foi assassinado dentro de sua própria casa em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro. É mais um caso em que os direitos básicos do povo pobre e negro brasileiro são negados de forma brutal, principalmente nas regiões mais precarizadas dos grandes centros urbanos – e mais um caso que gera uma relativa repercussão midiática, ao contrário das outras dezenas de milhares de assassinatos que ocorrem diariamente em nosso país, uma consequência mórbida de nossa atual condição de colônia financeira.

A esquerda liberal, que se coloca como suposta defensora dos direitos dessas populações, logo usa desse caso como um exemplo da violência de estado, do racismo – problemas sem dúvidas reais e graves, mas apontados por eles sem a ligação com sua razão concreta de ser, a nossa condição de colônia financeira – apenas, no entanto, oriundos do suposto governo “fascista” de Jair Bolsonaro. Seria assim, mais um exemplo de que precisamos “defender a democracia”, que até 2016, existia de forma “plena e funcional”, rompida apenas pelo golpe parlamentar que derrubou a então presidente Dilma Rousseff. É um discurso que faz apelo a um suposto passado melhor, cujo fim foi decretado pela derrocada dos governos liberais de FHC, Lula e Dilma.

Esse passado e essa democracia por eles reivindicada, no entanto, nunca existiu. É uma invenção ideológica que diz respeito à uma pequena parcela da população que, mergulhada nas ilusões neoliberais, acredita que “democracia” é uma mera formalidade, um rito institucional e republicano de diálogo e debate de idéias, e não uma dura luta que é travada pelo povo brasileiro há décadas e décadas pela melhora de suas condições reais de vida.

Vejamos os dados:

Gráfico: Evolução da taxa de homicídios por 100 mil habitantes no Brasil, de 1980 à 2017. Dados do Mapa da Violência do IPEA.
Gráfico: Evolução da taxa de homicídios por 100 mil habitantes no Brasil, de 1980 à 2017. Dados do Mapa da Violência do IPEA.

Com a fundação da República Rentista em 1994, com a eleição de FHC, e o grave aprofundamento da pilhagem financeira do estado brasileiro, vemos no gráfico que existe uma tendência clara de aumento da taxa de homicídios em nosso país. Com a desindustrialização, o aprofundamento da dependência econômica e a rapina de nossos recursos naturais e financeiros, temos um ciclo de violência brutal no Brasil, fruto das políticas neoliberais de privatização e destruição dos serviços públicos em prol do enriquecimento de meia dúzia de rentistas.

Taxas de homicídio por 100 mil habitantes por estado nos anos de 1994 (esquerda) e 2017 (direita). Dados do Mapa da Violência do IPEA.
Taxas de homicídio por 100 mil habitantes por estado nos anos de 1994 (esquerda) e 2017 (direita). Dados do Mapa da Violência do IPEA.

Vemos acima que esse fenômeno ocorreu em âmbito nacional, alastrando a violência por todo nosso território, principalmente nas regiões mais pobres e menos desenvolvidas – com a importante ressalva de que a redução das taxas de homicídios em São Paulo são conhecidamente fruto de manipulações estatísticas e acordos espúrios com o crime organizado por parte dos governos do PSDB. Existe sim uma tímida queda da taxa de homicídios durante os governos de Lula, mas que logo volta a subir para patamares ainda maiores do que antes. Uma clara política de estado, já que em 2007, após uma operação policial no Complexo do Alemão (RJ) que terminou com 19 brasileiros mortos, Lula defendeu-a, dizendo que “tem gente que acha que é possível enfrentar a bandidagem com pétalas de rosa ou jogando pó-de-arroz”.

Essa é a suposta “democracia” que os liberais de esquerda e de direita querem resgatar!

Com a crise financeira global de 2008 e a queda do preço das matérias primas em 2014, a burguesia financeira e o imperialismo tiveram que estrangular ainda mais nossa nação em seu benefício, o que levou à derrubada dos governos petistas e o fim do tímido ciclo de ampliação do consumo dos brasileiros. O que se seguiu foi a continuidade da República Rentista e da rapina de nossas riquezas de forma ainda mais brutal com as contra-reformas de Temer e Bolsonaro, que jogaram de vez nosso povo na miséria e penúria e aceleraram severamente nossa (já enorme) desindustrialização.

Este sistema é uma democracia meramente formal que vale apenas para uma parte minúscula do povo, onde todos os seus mecanismos sociais e econômicos funcionam em favor do enriquecimento de um seleto grupo de bilionários, que em nosso caso, nem mesmo vivem no Brasil, mas sim em suas mansões na Flórida ou na Suíça. Enquanto o número de brasileiros mortos por ano durante esse período quase dobrou, o lucro dos bancos tiveram um aumento de 550%, batendo recordes de quase R$ 200 bilhões!

Essa é a “democracia” liberal, a “democracia” do rentismo! Uma democracia linda no papel, mas que negou e continua negando a grande maioria do povo os direitos básicos do liberalismo do século XIX, como a inviolabilidade de sua própria casa e até mesmo o direito à vida. Não é, de forma alguma, uma democracia de verdade!

Todos esses dados que retratam o extermínio do povo brasileiro, no entanto, são ignorados pelos liberais de esquerda e de direita, são um mero detalhe! Nada disso os impede de defender a “democracia”, o retorno para esse passado (e presente) infernal sofrido por nosso povo todos os dias.

O jovem João Pedro, assim como outras dezenas de milhares de brasileiros negros e pobres, é mais uma vítima de nossa “democracia”, da República Rentista, e da maldita condição de colônia a que nosso Brasil foi condenado através da aliança e cumplicidade dos liberais com a elite rentista, “brasileira” e estrangeira. Esse “moinho de gastar gente”, como dizia o grande Darcy Ribeiro, só será derrubado com a nossa libertação nacional!

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