África

O tabuleiro africano: a República da Turquia

Por Laura Revenga, via Descifrando la Guerra, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

O presidente turco, Recep Erdogan, é recebido pelo presidente somali em Mogadishu no dia 25 de janeiro de 2015. Foto via Presidência da Turquia.
O presidente turco, Recep Erdogan, é recebido pelo presidente somali em Mogadishu no dia 25 de janeiro de 2015. Foto via Presidência da Turquia.

“O tabuleiro africano” é uma série de artigos (publicados pelo Descifrando la Guerra) sobre a crescente disputa pela influência política no continente africano.

Nos últimos anos, estamos presenciando a entrada de um novo ator na disputa por África no terreno econômico e político. Desde 2002, a Turquia tem experimentado um crescimento econômico sem precedentes1, mostrando seu interesse no continente africano para suprir sua necessidade de recursos naturais e aliados para com os quais alcançar maior presença e importância no cenário internacional.

Os vínculos históricos entre a Turquia e África se dividem entre o norte do continente e sua região subsaariana. Sua presença entre os séculos XV e XVI, durante o Império Otomano, se concentrou no o norte de África com o controle das atuais regiões da Argélia, Tunísia, Egito e Líbia2. Essa relação passaria a ser residual até o final do século XX.

Mapa da expansão das regiões controladas pelo Império Otomano entre os séculos XIV e XIX. Vía peter.mackenzie.org.
Mapa da expansão das regiões controladas pelo Império Otomano entre os séculos XIV e XIX. Vía peter.mackenzie.org.

Em 1998 foi lançado o “Plano de Abertura Africana”, com o objetivo de aprofundar as relações entre Ancara e África. Entretanto, devido à instabilidade interna turca, esse plano foi implementado apenas em 2002 com a chegada do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP, em turco) ao poder3. A partir de 2005, as relações se intensificaram em todos os âmbitos, sobretudo econômica e politicamente, gerando um ambiciosos programa de investimentos e comércio.

‘A Turquia se beneficia por se abrir a África’. Nos últimos 15 anos o comércio entre ambos aumentou em 6 vezes para US$ 17,5 bilhões. Investimento turco em África subiu de US$ 100 milhões (2003) para US$ 6,5 bilhões (2017), e o número de embaixadas turcas no continente subiu de 12 (2003) para 41 (2017). Via SpotBlue.
‘A Turquia se beneficia por se abrir a África’. Nos últimos 15 anos o comércio entre ambos aumentou em 6 vezes para US$ 17,5 bilhões. Investimento turco em África subiu de US$ 100 milhões (2003) para US$ 6,5 bilhões (2017), e o número de embaixadas turcas no continente subiu de 12 (2003) para 41 (2017). Via SpotBlue.

A estratégia turca vai de acordo com sua maneira de conceber as relações internacionais. Seu plano se baseia no desenvolvimento de sua própria versão da narrativa indiana, chinesa e japonesa de ganha-ganha. Os países africanos enfrentam uma população em crescimento e uma carência de infraestruturas competitivas em termos econômicos. Neste aspecto, Ancara tem aproveitado seu potencial para realizar grandes investimentos e projetos por todo o continente em diversos setores.

O enfoque de softpower da Turquia se centra em três áreas principais: a cooperação, as relações comerciais e econômicas e a ajuda humanitária4. Por exemplo, através de algumas organizações internacionais como o Programa Mundial de Alimentos da ONU, a Turquia doou US$ 3,5 milhões a vários países africanos em 20085. Desde 2005, sua contribuição tem aumentado e focado em atenuar os problemas de fome em: Níger, Mali, Mauritânia e Burkina Faso6. Também realizou um investimento de US$ 1,8 milhões para Serra Leoa e Guiné7 para combater a fome nesses países.

Essa estratégia também é empregada por outros atores com resultados diversos. A modernização política e econômica da Turquia é vista por muitos países africanos como um modelo mais razoável para emular comparado ao da China ou Índia a médio e longo prazo8.

Do mesmo modo, as organizações religiosas turcas têm jogado em um papel de destaque nas projeções de Ancara no continente africano. Cabe mencionar que em 2006, a Direção de Assuntos Religiosos da Turquia (Diyanet, em turco) convidou os líderes religiosos dos países africanos para que celebrar assessorias e cooperação. A Reunião de Líderes Religiosos de Países e Sociedades Muçulmanas do Continente Africano foi realizada em Istambul em 2006, com a participação de representantes de 21 países africanos9. Por outro lado, é notável que Ancara tenha focado na promessa de efetuar uma mudança genuína na vida das populações dos países africanos10.

O restante dos atores no continente africano também realizam investimentos em diversos setores, como comércio, infraestruturas, etc. No entanto, a Turquia tem uma ‘carta na manga’ em relação a outros atores, como a França. Essa vantagem competitiva reside no setor privado turco no continente, onde as empresas da Turquia seguem estratégias que proporcionam uma melhor integração com as economias locais11. Isso não apenas se limita a uma questão puramente econômica, mas também em projetos no setor da saúde, meio-ambiente, entre outros12.

É importante mencionar a empresa Turkish Airlines realiza vôos para 52 destinos em 34 países do continente13, o que pode resultar em uma vantagem a longo prazo. Ancara pode apresentar projetos mais competitivos na região com o beneplácito dos governos africanos, já que a Turquia não possui um passado colonial na região14.

Ancara também está se concentrando no setor das infraestruturas. Neste sentido, a empresa Yapı Merkezi tem realizado investimentos no setor ferroviário na Etiópia, Tanzânia, Uganda e República Democrática do Congo (RDC)15. O projeto na RDC espera unir este país com Uganda em direção ao Oceano Índico. Da mesma forma, a Agência Turca de Cooperação de Coordenação (TIKA, em turco) tem financiado projetos na Somália para a construção de uma rede de rodovias, a renovação do aeroporto, entre outros setores16. A Türk Eximbank e outros investidores turcos tem realizado importantes investimento nos setores de construção de infraestrutura no Senegal17. A companhia Summa-Limak é a encarregada da construção do novo aeroporto de Dakar18, e também possui iniciativas em Ruanda e Guiné Equatorial neste sentido19.

As empresas turcas têm se deslocado à África atraídas por novos mercados para suas exportações, negócios e a obtenção de recursos naturais. Enquanto que as exportações turcas para África têm se incrementado e aumentado, por outro lado o petróleo, matérias primas, ouro e minerais ainda formam o grosso das exportações para a Turquia20. Para satisfazer sua exponencial demanda energética interna, a Turquia necessita da diversificação de suas rotas energéticas estratégicas, e a Confederação Turca de Empresários e Industriais já firmou um acordo de US$ 250 milhões para o setor energético em Ruanda21.

A diplomacia e a cooperação têm se tornado um vantagem para os interesses turcos. Ancara é o quinto país com mais embaixadas ao redor do continente, com um total de 41 em 201722. Além disso, a Turquia está fomentando a integração bilateral, multilateral e regional. Ancara participa ativamente da sensibilização da comunidade internacional e contribui aos esforços para encontrar soluções para os países menos desenvolvidos. Isso tem se concretizado nas resoluções 64/213 de 2009 e 65/171 de 2010, quando a Turquia convocou a Quarta Conferência das Nações Unidas sobre os Países Menos Desenvolvidos, em Istambul em 201123.

A República da Turquia tampouco fica de fora do plano militar. Os países africanos e a Turquia têm cooperado em diversos setores no âmbito da segurança. Um enfoque primordial da Turquia na segurança marítima tem girado em torno de sua preocupação pelo segurança em águas africanas, por exemplo, contra a pirataria no Chifre de África.

Caberia mencionar que a presença da Turquia na Somália tem se reforçado nos últimos anos. Isso tem feito com que a presença turca no país tenha ganhado um grande apoio interno somali, o que é usado pela Turquia para se projetar como potência em algumas organizações regionais como a Liga Árabe.

Em janeiro de 2020, o parlamento turco aprovou uma moção que autorizou o envio de tropas turcas à Líbia. Essa intervenção da Turquia a favor do Governo de Acordo Nacional (GNA) na Líbia marcou um antes de depois do desenvolvimento da guerra civil no país norte-africano24. Existem vários motivos que explicam essa ação por parte de Ancara, mas consolidar a Líbia permite ao governo turco obter uma posição privilegiada no Norte de África e ganhar maior influência no mundo árabe25.

Da mesma forma, o exército turco tem começado a desempenhar um papel mais relevante nos estados da África Ocidental, por exemplo, a ajuda ao G5 Sahel com um marco institucional para a coordenação dos assuntos de segurança e da cooperação regional contra o terrorismo, além do financiamento da força antiterrorista conjunta na região26. A Turquia também tem firmado acordos de associação com a África do Sul (Acordo de Cooperação da Indústria de Defesa), Nigéria em 2011, entre outros, de treinamento de militares em diferentes estados africanos27.

Ancara está se envolvendo cada vez mais em missões de paz. Ao final de 2012, a Turquia havia participado de cinco missões das Nações Unidas em África, incluindo a Missão da ONU na Costa do Marfim (ONUCI), a Missão da ONU na Libéria (UNMIL), a Missão da ONU na RDC (MONUC), a Missão da ONU no Sudão (UNMIS) e a Missão Conjunta da União Africana e ONU em Darfur (UNAMID)28. Além disso, a Turquia recebeu a Cúpula Somali da ONU em Istambul, e se coloca como mediadora do conflito no país29.

Oficial da polícia turca da ONU em missão no Haiti, no dia 29 de maio de 2012. Via passblue.com.
Oficial da polícia turca da ONU em missão no Haiti, no dia 29 de maio de 2012. Via passblue.com.

A segunda Cúpula da Associação Turquia-África celebrada em 2014 na Guiné Equatorial contou com delegados da maior parte dos estados africanos. Um grande número deles são parte da União Africana, entre eles Ruanda, Guiné, Egito, Nigéria, Argélia, Senegal, Líbia, África do Sul, Uganda, Madagascar, Etiópia, Togo, Gabão, Chade, e representantes da Comissão da União Africana. Da mesma forma, Djibuti, Costa do Marfim, Sudão, Somália e Tanzânia foram convidados na qualidade de observadores30.

Esse foi o maior conclave diplomático já celebrado até então, já que a edição anterior, que ocorreu em 2008, teve um caráter mais discreto31. Durante a segunda Cúpula da Associação Turquia-África foram aprovados uma declaração e um plano de ação conjunta entre 2015-2019, que incluiu a cooperação nas áreas de comércio, intercâmbio cultural e a luta contra o tráfico de pessoas, entre outras áreas comuns de cooperação. Também foi acordada a celebração da terceira reunião para o ano de 201932.

Nkosazana Dlamini Zoma, a presidenta da Comissão da União Africana, o presidente turco Recep Erdogan e o ex-presidente da União Africana, Hailemariam Desalegn em Malabo. Via worldbulletin.net.
Nkosazana Dlamini Zoma, a presidenta da Comissão da União Africana, o presidente turco Recep Erdogan e o ex-presidente da União Africana, Hailemariam Desalegn em Malabo. Via worldbulletin.net.

A competição pela hegemonia mundial e regional entre diversas potências tem feito com que certas regiões anteriormente esquecidas voltem a ter importância. A emergência da Turquia, Índia e outros atores têm colocado em xeque as antigas práticas baseadas na vantagem efetiva das potências frente aos estados africanos.

Da mesma forma, o papel de Ancara em África tem crescido a um ritmo constante e exponencial em diversos setores. À medida que aumenta sua participação com os países africanos, a Turquia terá que manejar hábil e diplomaticamente seus esforços no continente. Entretanto, a diversificação do mercado de exportações turco dentro de África é muito limitada, já que mais da metade delas se concentram em um estado33.

A Turquia vive atualmente um período de crise monetária interna que pode limitar seus investimentos em África no médio prazo, mas tem o potencial de estabelecer uma relação com as nações africanas não apenas no âmbito meramente comercial. Certas potências atualmente predominantes, como a França, correm o risco de perderem sua influência no continente caso não se adaptem às novas dinâmicas dos novos atores na região.

Leia mais: série de artigos O tabuleiro africano.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


1  https://es.news-front.info/2018/08/20/finalizado-el-milagro-turco-como-paso/

2  https://scholar.harvard.edu/files/jasonwarner/files/kaya_and_warner_2013_turkey-africa.pdf

3  Ibid.

4  https://www.academia.edu/2609772/TURKEY-AFRICA_RELATIONS

5  Ibid.

6  http://www.mfa.gov.tr/dunya-gida-programi-_world-food-programme-_-wfp_.tr.mfa

7  Ibid.

8  https://www.academia.edu/2609772/TURKEY-AFRICA_RELATIONS

9  Ibid.

10  Ibid.

11  http://www.hurriyetdailynews.com/turkeys-biggest-advantage-in-africa-is-its-reputation-138123

12  https://www.forbes.com/sites/mfonobongnsehe/2018/06/15/why-turkeys-economy-is-rising-and-what-it-means-for-trading-partners-in-africa-nihat-zeybekci/

13  Ibid.

14  http://turkishpolicy.com/Files/ArticlePDF/turkeys-rising-role-in-africa-winter-2010-en.pdf

15  https://constructionreviewonline.com/2017/08/turkish-construction-giant-eyes-africa-projects-ethiopia-tanzania-railways/

16  http://www.balkanalysis.com/turkey/2015/09/03/turkey-africa-relations-a-partnership-under-review/

17  https://www.dailysabah.com/business/2018/11/27/turkeys-major-infrastructure-investments-bring-youth-olympics-to-senegal

18  https://www.dailysabah.com/business/2017/06/22/infrastructure-projects-in-senegal-count-on-turks

19  https://asia.nikkei.com/Politics/International-relations/Turkey-jockeys-with-China-for-influence-in-Africa

20  http://turkishpolicy.com/Files/ArticlePDF/turkeys-rising-role-in-africa-winter-2010-en.pdf

21  https://www.theeastafrican.co.ke/rwanda/Business/Turkey-ramps-up-investment-in-Rwanda–eyes-energy-sector–/1433224-2645012-xhlivvz/index.html

22  https://www.economist.com/briefing/2019/03/07/africa-is-attracting-ever-more-interest-from-powers-elsewhere

23  http://www.mfa.gov.tr/turkey_s-development-cooperation.en.mfa

24  https://www.descifrandolaguerra.es/operacion-tormenta-de-paz/

25  Ibid.

26  http://www.hurriyetdailynews.com/turkey-helps-to-combat-terrorism-in-africa-envoy-145416

27  https://scholar.harvard.edu/files/jasonwarner/files/kaya_and_warner_2013_turkey-africa.pdf

28  https://scholar.harvard.edu/files/jasonwarner/files/kaya_and_warner_2013_turkey-africa.pdf

29  Ibid.

30  https://www.aa.com.tr/en/africa/turkey-in-intense-cooperation-with-africa-/1059565

31  https://au.int/en/partnerships/africa_turkey

32  http://afrika.mfa.gov.tr/data/21-november-2014-summit-declaration.pdf

33  https://www.gtap.agecon.purdue.edu/resources/download/7160.pdf

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