América Latina

Estados Unidos ameaçam a assistência iraniana para a Venezuela

Por William Camacaro, Frederick B. Mills e Danny Shaw, via COHA, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Um petroleiro iraniano atraca em uma instalação de petróleo na ilha de Kharg, no Golfo Pérsico. Foto via AFP.
Um petroleiro iraniano atraca em uma instalação de petróleo na ilha de Kharg, no Golfo Pérsico. Foto via AFP.

Cinco navios petroleiros iranianos, carregados com aproximadamente 200 milhões de litros de gasolina e produtos relacionados a combustíveis estão atualmente cruzando o Atlântico, com a Venezuela como seu provável destino final. Autoridades estadunidenses especulam que a Venezuela irá pagar por esses carregamentos em ouro1. A Venezuela e o Irã, ambos sujeitos a brutais sanções estadunidenses, são aliados naturais na luta contra a pandemia de Covid-19 enquanto fornecem alimentos e suprimentos médicos para suas populações. Caso Washington acione sua marinha para impedir esses cargueiros comerciais de chegarem ao seu destino, poderá provocar um sério conflito internacional.

Em meio à pandemia de Covid-19 e no contexto de um alerta pelo Programa de Segurança Alimentar da ONU de que “estamos também à beira de uma pandemia da fome”2, Washington está acentuando sua guerra econômica contra a Venezuela e Irã, em detrimento aos esforços destes países para contenção do vírus e obtenção de alimentos e suprimentos médicos. Uma das consequências do bloqueio econômico estadunidense sobre a Venezuela é a falta de gasolina, já que qualquer país que enviar os aditivos necessários para processar o petróleo venezuelano em combustível pode enfrentar duras sanções. No entanto, sem gasolina, os venezuelanos são incapazes de transportar alimentos e outras necessidades dos pontos de venda às suas residências e locais de trabalho. E essa preciosa mercadoria, que era vendida por centavos há apenas alguns meses, está atualmente sendo vendida no mercado negro por preços exorbitantes em dólar.

De acordo com a Reuters, um alto-funcionário anônimo do governo Trump disse que o carregamento iraniano “não é bem-vindo não somente pelos Estados Unidos, mas por toda região, e estamos estudando medidas que podem ser tomadas”3. Essa mensagem, apesar de não confirmada pelo governo Trump, foi levada a sério pelo Irã como uma ameaça de impedir a chegada dos navios petroleiros. Além disso, rumores desse fim de semana de que a Marinha dos EUA acionou quatro navios de guerra adicionais para o Caribe juntamente à aeronave multimissão P-8 Poseidon4 dispararam os alarmes em Teerã, conforme autoridades iranianas alertam contra a interferência estadunidense no comércio entre estados soberanos5.

Em resposta às ameaças aos seus carregamentos, o chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif escreveu ao secretário-geral da ONU Antonio Guterres, dizendo que “coagir nações à cumprirem às demandas ilegais dos Estados Unidos ameaça o multilateralismo como fundamento das relações internacionais, e gera um perigoso precedente, pavimentando o caminho para aqueles que aspiram dividir, e não unir, as nações”6. Teerão apresentou um protesto ao embaixador suíço no Irã, que representa os interesses estadunidenses, contra quaisquer ações que venham a obstruir seus navios. A agência de notícias iraniana Nour alertou que “caso os Estados Unidos, como piratas, pretendam criar insegurança em vias internacionais, farão uma manobra arriscada que certamente não passará despercebida”7. O líder da Revolução Iraniana, o Aiatolá Seyed Ali Jamene, ressaltou a “repugnância” que a população mundial sente em relação às ameaças, ataques e ocupações estadunidenses. O Aiatolá declarou também que “os Estados Unidos serão expulsos dos [vizinhos do Irã] Iraque e Síria”8.

Como aponta a analista política Carmen Parejo Rendón, “em face da ânsia estadunidense para dominar duas regiões do mundo, a Venezuela desempenha na América Latina o mesmo papel que o Irã no Oriente Médio”9. Ambos os países insistem em preservar sua soberania nacional e pretendem exercitar o direito de comercializar em termos mutuamente benéficos, sem a interferência de uma potência externa. Ainda que a Venezuela tenha um sistema social diferente do Irã, acabou com um destino semelhante. Acima de suas diferenças, seus crimes, no quadro ideológico do excepcionalismo estadunidense, foram ousar existir fora da esfera de influência de Washington. Cerca de dois séculos após a Doutrina Monroe, os Estados Unidos continuam tratando ambas as regiões como parte de seu quintal (no dia 19 de maio, o Comando Sul dos Estados Unidos tweetou: “Devemos nos perguntar qual o interesse do Irã na Venezuela, onde vimos indícios recentes de apoio militar e de estado por parte do Irã. Visam ganhar uma vantagem posicional em nossa vizinhança como forma de contestar os interesses estadunidenses”).

Ambos Venezuela e Irã foram historicamente sujeitados à intervenção estadunidense contra governos democraticamente eleitos e pagaram caro por forjarem políticas internas e externas independentes. Desde a eleição de Hugo Chávez em 1998, Washington tem apoiado um amplo espectro de estratégias de “mudança de regime”, mais recentemente em nome do autoproclamado presidente da Venezuela, Juan Guaidó. Após diversas tentativas de golpes fracassadas, o mais recente fiasco de Guaidó foi atuar como “comandante” de um frustrado ataque mercenário ao país, há apenas duas semanas atrás10. A experiência democrática do Irã foi subvertida por uma operação da CIA em 1953, quando o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh foi derrubado por um golpe, levando a mais de duas décadas de um regime ditatorial apoiado pelos Estados Unidos.

O Irã tem boas razões para levar a ameaça contra seus cargueiros a sério. Em maio de 2018, o presidente Trump rompeu com os parceiros europeus e abandonou o acordo nuclear (JCPOA), que visava limitar o programa nuclear do Irã, e reinstituiu as sanções sobre o país. No verão passado, em uma notável demonstração de ‘dois pesos duas medidas’, a Marinha Real Britânica assaltou e deteve um navio iraniano “suspeito de transportar petróleo para a Síria”. Dias depois, de acordo com o Ministro da Defesa britânico, “contrariando o direito internacional, três embarcações iranianas tentaram impedir a passagem de um navio comercial, o British Heritage, no estreito de Ormuz”11. O assassinato pelo governo Trump, em janeiro, do General Qasem Soleimani, um herói nacional que coordenou os esforços anti terroristas no Oriente Médio, causou turbilhões na região e levou os dois países à beira de uma guerra12. No dia 22 de abril, no contexto de tensões elevadas entre Teerã e Washington, Trump tweetou: “Dei instruções para a Marinha dos EUA atacar e destruir todos e quaisquer navios de patrulha iranianos caso importunem nossos mares”13. Tanto no Golfo Pérsico quanto no Caribe, os navios de guerra estadunidenses se tornaram o braço explícito da diplomacia marítima de Washington.

Qualquer ação militar dos Estados Unidos para impedir a chegada dos cinco navios petroleiros iranianos aos portos da Venezuela pode dar início a um confronto entre Washington e as duas principais nações que têm sido alvo de suas intervenções. Caso os navios de guerra estadunidenses bloqueiem os cargueiros iranianos em águas internacionais e o país agredido faça valer suas ameaças de retaliação, outras nações podem ser arrastadas rapidamente para um conflito que pode arruinar os esforços da ONU de promover o fim de hostilidades internacionais. No entanto, caso os cargueiros cheguem seguramente a Venezuela, dois países sob sanções terão aberto uma brecha no bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos através de um ato de assistência mútua durante uma emergência alimentar e sanitária. Como Carmen Parejo Rendón observa, “o que os Estados Unidos não percebem é que continuam criando mais inimigos para si, e com isso reforçam o multilateralismo”.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


1  “Exclusive: U.S. weighs measures in response to Iran fuel shipment to Venezuela – source” https://uk.reuters.com/article/uk-venezuela-fuel-iran-usa-exclusive/exclusive-u-s-weighs-measures-in-response-to-iran-fuel-shipment-to-venezuela-source-idUKKBN22Q2RL

2  “WFP Chief warns of hunger pandemic as COVID-19 spreads (Statement to UN Security Council)” https://www.wfp.org/news/wfp-chief-warns-hunger-pandemic-covid-19-spreads-statement-un-security-council

3  Ver nota [1].

4  “US Sends 4 Warships to Caribbean for Possible Encounter with Iran Tanker” https://ifpnews.com/us-sends-4-warships-to-caribbean-for-possible-encounter-with-iran-tankers. Veja também “US Navy Patrol Squadron 26 ‘Tridents’ Deploy to 4th Fleet.” https://militaryleak.com/2020/05/18/us-navy-patrol-squadron-26-tridents-deploy-to-4th-fleet/ e https://www.navy.mil/submit/display.asp?story_id=112980

5  “Iran vs USA: Tehran threatens ‘immediate response’ if US blockades Venezuela bound tankers” https://www.express.co.uk/news/world/1283831/iran-usa-latest-news-us-venezuela-oil-tankers-caribbean-sea-world-war-3

6  “Iran asks U.N. chief to push back against U.S. sanctions on foreign minister” https://www.reuters.com/article/us-usa-iran-un-idUSKCN1UW2AQ

7  Ibid.

8  “Líder de Irán: EEUU no se quedará en Irak y Siria y será expulsado”, https://www.hispantv.com/noticias/politica/466300/jamenei-eeuu-explusar-irak-siria

9  “Venezuela juega en Sudamérica el papel de Irán en Asia Occidental” https://www.hispantv.com/noticias/politica/466301/petrolero-iran-venezuela-eeuu

10  “New information: Guaidó was the “commander in chief” of the failed mercenary operation against Venezuela” http://www.coha.org/new-information-guaido-was-the-commander-in-chief-of-the-failed-mercenary-operation-against-venezuela/

11  “Iranian boats attempted to seize a British tanker in the Strait of Hormuz” https://www.cnn.com/2019/07/10/politics/iran-attempted-seize-british-tanker/index.html.

12  “Trump authorized Soleimani’s killing 7 months ago” https://www.nbcnews.com/politics/national-security/trump-authorized-soleimani-s-killing-7-months-ago-conditions-n1113271

13  “Iran-US tensions rise on Trump threat, Iran satellite launch” https://abcnews.go.com/Politics/wireStory/trump-tweets-ordered-navy-destroy-iranian-gunboats-7028451

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