Ásia

De volta para o futuro: o bicho-papão ‘comunista malvado’ está de volta

Via Strategic Culture Foundation, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

As autoridades estadunidenses revivem a propaganda anticomunista para desviar a atenção do total fracasso e incapacidade do capitalismo ocidental em garantir o bem-estar de sua população. Foto por Carlos Garcia Rawlins.
As autoridades estadunidenses revivem a propaganda anticomunista para desviar a atenção do total fracasso e incapacidade do capitalismo ocidental em garantir o bem-estar de sua população. Foto por Carlos Garcia Rawlins.

Os analistas e políticos estadunidenses começaram, com muito entusiasmo, a tirar o pó do velho bicho-papão – o “comunismo malvado” – em referência à China e a pandemia de coronavírus. Tal palavrório tão retrógrado mostra o nível da falência política de Washington.

O líder da ofensiva é o Secretário de Estado Mike Pompeo, que agora raramente se refere à China apenas como “China” em suas entrevistas. Ele continua e fervorosamente iguala o país com o “Partido Comunista Chinês”. Nas últimas semanas, dado o número de vezes que a palavra “comunista” foi repetida pela mídia estadunidense, não seria absurdo imaginar que nós viajamos no tempo, de volta para os dias de macartismo da Guerra Fria, nos anos 1950 e 1960.

A Fox News, o canal pró-Trump e de propriedade de Murdoch, é a principal plataforma para essa ofensiva contra a China. Seus apresentadores e convidados retratam a “China comunista” como o “mal de nosso tempo”. Pompeo e outros falcões obsessivamente anti-China, como os senadores Lyndsey Graham, Tom Cotton e Marco Rubio, ou assessores de Trump como Peter Navarro e o ex-assessor Steve Bannon, receberam sinal verde para jorrar veneno retórico demonizando a China. A pandemia de Covid-19 parece ter libertado uma hostilidade reprimida, que já espreitava por Washington.

É como assistir uma paródia política do filme de ficção científica “De Volta para o Futuro”. Entretanto, a sua versão na vida-real está longe de ser engraçada. A Guerra Fria renovada contra a China está navegando perigosamente em direção ao conflito aberto.

Parece óbvio o que está acontecendo. O presidente Donald Trump e seu governo estão usando a China como bode expiatório para o desastre socioeconômico nos Estados Unidos, decorrente da pandemia de Covid-19. Com mais de 63.000 mortes em apenas dois meses, mais de 1 milhão de infectados – um terço do total mundial – e ao menos 30 milhões de desempregados, o governo Trump tenta culpar a China, ao invés de assumir a responsabilidade por seu próprio fracasso e brutal incompetência.

Nesta semana (01/05/2020) o presidente Trump está forçando ainda mais acusações de que a China é responsável pelo desastre. Ele busca delinear um argumento jurídico para forçar a China a pagar reparações enormes, de trilhões de dólares. Para isso, Trump está vendendo uma conspiração de que o novo coronavírus, causador da Covid-19, foi liberado por um laboratório em Wuhan, próximo à cidade onde o surto emergiu inicialmente em dezembro. Trump assegurou à mídia estadunidense que teve acesso a evidências que apoiam as acusações, mas se recusou a fornecer detalhes. Já existem registros de que seu governo está pressionando as agências de inteligência para encontrarem uma ligação entre o vírus e o Instituto de Virologia de Wuhan (o que lembra muito a Guerra do Iraque de 2003 e as armas de destruição em massa que nunca existiram).

O que é ainda mais grave é que Trump insinua que o governo chinês deliberadamente espalhou a doença como uma arma política para comprometer sua presidência. Ele alegou essa semana que a China favorece o candidato democrata Joe Biden e que Pequim “fará de tudo” para impedir a reeleição de Trump em novembro.

Isso é uma política insana. Já que, não se engane, Trump está seguindo um caminho cínico e perigoso em direção a uma guerra com a China. As acusações contra o governo chinês são absurdas. Sua teoria da conspiração foi desmascarada por análises científicas internacionais. O vírus foi um lastimável acidente natural que, por um acaso, emergiu na China1. Mas se de alguma maneira a inteligência dos Estados Unidos implicar uma responsabilidade chinesa, como Trump ambiciona, o plano para “punir” Pequim se torna implacável. A China, que alega estar sendo vítima de uma campanha de desinformação, não irá tolerar esse ataque audacioso e sem fundamento aos seus interesses vitais.

Ao seguir o plano de “culpar a China”, Trump e seus discípulos políticos e midiáticos estão presos à lógica de demonização da China. Isso explica o renascimento da retórica da Guerra Fria ao denunciarem a China como uma “perversidade comunista”. Trump aposta em agitar chauvinismo e xenofobia anti-China dentre os americanos que irão, se tudo der certo, culpar o “inimigo externo”, ao invés de criticarem duramente os fracassos internos do governo estadunidense, de sua economia e sociedade capitalista.

Essa mesma dinâmica desonesta também se aplicou à Guerra Fria original. Antigamente, a União Soviética foi o grande bicho-papão usado para desviar as atenções dos graves problemas de pobreza, racismo e guerras imperialistas dos Estados Unidos. Ainda existe um ranço tóxico desse legado, como ficou claro na histeria absurda do Russiagate, com alegações de interferência russa nas eleições presidenciais de 2016, que elegeu Donald Trump. Trump repetidamente ridicularizou essas acusações, corretamente, como “fake news” e “boataria” inventadas pelos seus inimigos políticos internos. Ironicamente, no entanto, Trump usa agora dessa mesma tática grotesca de distração do povo americano contra a China, visando seus próprios interesses.

O uso desse tipo de propaganda e operações psicológicas típicas da Guerra Fria – demonização, iscagem e conflito – demonstra o grau de falência da política americana. Era falida antigamente, e continua falida agora. Mas enquanto o restante do mundo seguiu em frente, o sistema político dos Estados Unidos ficou preso ao passado. E é por isso que não pode lidar com os desafios atuais e a razão pela qual, em última instância, está fadado ao fracasso. Isto é, caso antes não dê início a uma guerra catastrófica que acabe com todos nós.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


1  Nota do editor: Existem controvérsias em relação ao ponto de emergência do vírus. Já foram detectados casos iniciais de Covid-19 na França anteriores aos primeiros casos na China, no final de dezembro de 2019. É provável que o vírus tenha surgido primeiramente na Europa, e tenha sido detectado primeiramente em Wuhan. Caso isso se confirme, a resposta chinesa à pandemia se provará ainda mais notável.

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