Europa

A operação Gladio

Por Pablo del Amo, via Descifrando la Guerra, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Ala oeste da estação de Bolonha, totalmente destruída após a explosão da bomba que causou o massacre em agosto de 1980. Foto por Beppe Briguglio.
Ala oeste da estação de Bolonha, totalmente destruída após a explosão da bomba que causou o massacre em agosto de 1980. Foto por Beppe Briguglio.

No dia 2 de agosto de 1990, o presidente do Conselho de Ministros da Itália, Giulio Andreotti, reconhecia a existência, durante a Guerra Fria, de uma rede na Europa de exércitos clandestinos apoiados pela OTAN e a CIA. Quais eram seus objetivos? Atuar ante uma hipotética invasão soviética e impedir a ascensão dos partidos políticos de esquerda aos governos ocidentais.

No dia 22 de novembro de 1990 o parlamento europeu aprovou uma resolução que condenava a existência durante mais de 40 anos, de uma organização clandestina de inteligência e operações armadas stay-behind1 em vários estados europeus, dirigida pelos serviços secretos destes países com a colaboração dos Estados Unidos.

Tal como disse a resolução do parlamento europeu, a chamada Operação Gladio (nome que se deu na Itália à rede clandestina) “poderia ter interferido na política interna de vários países europeus, além de estar envolvida em atos de terrorismo e criminosos. […] A Gladio tem a sua disposição arsenais militares independentes e recursos militares que colocam em perigo as estruturas democráticas dos países europeus”.

Giulio Andreotti, que foi presidente do Conselho de Ministros da Itália durante 7 anos. Foto via El País.
Giulio Andreotti, que foi presidente do Conselho de Ministros da Itália durante 7 anos. Foto via El País.

O parlamento europeu insistiu aos diferentes países europeus a realizarem investigações parlamentares para serem revelar mais informações, mas apenas a Itália, Bélgica e Suíça o fizeram, enquanto os demais países europeus apenas reconheceram a existência das diferentes operações stay-behind, sem dar mais detalhes a respeito.

O governo alemão, por exemplo, reconheceu sua existência revelando que constituía de uma centena de homens, e que, segundo sua declaração, foi dissolvida após a derrubada da União Soviética em 1991. Berlim não deu mais explicações a respeito.

Poucos dias depois, o Secretário Geral da OTAN, Manfred Wörner, frente a pressão midiática, reconheceu que a organização militar coordenava as ações da organização secreta.

Manfred Wörner, Secretário Geral da OTAN de 1988 à 1994. Foto via Nato.int.
Manfred Wörner, Secretário Geral da OTAN de 1988 à 1994. Foto via Nato.int.

Outro exemplo que podemos encontrar é o caso belga. Entre 1982 e 1985 na Bélgica, um grupo de indivíduos levaram a cabo uma onda de ataques violentos em que morreram 28 pessoas e 40 ficaram feridas. Uma linha de investigação atribui que os “massacres de Brabante” (o ducado belga onde ocorreram a maioria dos ataques) foram parte da rede stay-behind.

Vários dos atentados foram reivindicados pelo grupo Células Comunistas Combatentes (CCC), entretanto uma investigação jornalística dos anos 1990 assegurava que estes atentados haviam sido obra na verdade dos assassinos de Brabante. Em 2015, uma confissão envolveu vários policiais de extrema-direita, e o Ministro da Justiça belga, Koens Geens, após as ditas revelações, confessou que lhe constava que haviam ocorrido tentativas de manipular a investigação (parte dos documentos foram queimados quando uma nova equipe assumiu o caso). Uma investigação parlamentar revelou que as pistas que apontavam para a polícia haviam sido ignoradas deliberadamente. O processo está até hoje paralisado na Bélgica.

O caso italiano é o que merece maior atenção, já que foi neste mesmo país onde se descobriu a rede clandestina e de onde conhecemos mais informações sobre a mesma.

A operação Gladio foi descoberta pelo juiz veneziano Felice Casson, quando realizava uma investigação sobre um atentado em 1972 onde morreram 3 carabineiros. É nesse momento que o presidente do Conselho de Ministros italiano, Giulio Andreotti, decide revelar a investigação ao parlamento.

O juíz veneziano Felice Casson. Foto via La Repubblica.
O juíz veneziano Felice Casson. Foto via La Repubblica.

A guerra suja contra o Partido Comunista Italiano

Após a Segunda Guerra Mundial existiam, em 1948, dois partidos na Itália com chances reais de governo, de um lado a Democracia Cristã, e de outro o Partido Comunista Italiano (PCI). Estamos em um contexto de Guerra Fria, em que a Itália se colocava no campo ocidental, portanto uma vitória comunista no país era impensável para os Estados Unidos.

Depois da guerra, os partidos comunistas tinham forte enraizamento em alguns países ocidentais, como era o caso da França, onde chegaram a ser a maior força, mas também na Tchecoslováquia, Finlândia e Islândia. Isso se dava principalmente por seus membros terem encabeçado o movimento de resistência contra o nazismo.

Mas voltemos à Itália, onde o Partido Comunista nas eleições de 1948 tinha sérias possibilidades de alcançar a vitória. Como esperado, isso inquietava Washington e as elites italianas. Frente ao temor de uma vitória comunista, a CIA, com apoio do Vaticano, realizou um programa de propaganda e de guerra psicológica contra o Partido Comunista, além de financiar a campanha eleitoral dos democratas-cristãos com milhões de dólares. Esses feitos finalmente propiciaram a eles a maioria absoluta.

Resultado das eleições italianas de 1948. Imagem via Wikipedia.
Resultado das eleições italianas de 1948. Imagem via Wikipedia.

A instabilidade política foi a tônica das décadas seguintes na Itália, mas foi nos anos 1970, conhecidos como os “anos de chumbo”, que atingiu seu ponto máximo. É então que a violência toma as ruas do país, quando ocorre uma batalha urbana entre grupos de extrema-esquerda e neofascistas italianos.

É aqui que entra em cena a chamada “estratégia de tensão”, isto é, a perpetração de atentados terroristas para criar um clima de instabilidade que facilitasse a obstaculização do avanço eleitoral do Partido Comunista Italiano. Entra em cena a Operação Gladio.

A estratégia de tensão

No dia 12 de dezembro de 1969 ocorre o atentado da Piazza Fontana em Milão, que causou a morte de 16 pessoas e 90 feridos. As autoridades no primeiro momento culparam os grupos anarquistas pelo atentado. Essa será a tônica dos sucessivos ataques.

A sede do Banco Nacional de Agricultura após o atentado. Fotógrafo desconhecido.
A sede do Banco Nacional de Agricultura após o atentado. Fotógrafo desconhecido.

Não foi até anos depois, quando foi descoberta a rede de operações Gladio, que o general Gianadelio Maletti, ex-chefe de inteligência da Itália, revelou em uma entrevista ao jornal italiano La Republica que os atentados da Piazza Fontana foram perpetrados por grupos neofascistas apoiados pela CIA, cujo objetivo era deter o crescimento da esquerda no país.

Além disso, o general Maletti acrescentou que seus homens descobriram que uma célula terrorista de extrema-direita que operava na região de Veneza havia recebido explosivos militares da Alemanha, possivelmente provenientes dos serviços de inteligência norte-americanos.

É importante destacar que Maletti foi acusado de obstrução da justiça na investigação sobre o atentado do suposto anarquista Giafranco Bertoli, que no dia 17 de maio de 1973 assassinou com uma granada 4 pessoas e feriu 45 em um quartel policial de Milão. Posteriormente os juízes decidiram que Gianfranco Bertoli não era anarquista, mas sim um agente da inteligência italiana simpatizante da direita, e que por trás do atentado estava a organização neofascista Ordine Nuovo.

A resolução judicial decretou que Maletti estava ciente das informações sobre o ataque e que deliberadamente não fez nada para evitá-lo, além de não fornecer a documentação sobre o ataque à justiça.

Em 1972 se perpetrou um novo ataque que matou 3 carabineiros em Peteano. Outra vez a esquerda foi acusada de ser responsável pelo atentado, ainda que as dúvidas voltaram a surgir como no atentado da Piazza Fontana. O general Gerardo Serravalle, ex-responsável por um seção do SID (Serviços Secretos Militares da Itália), declarou em uma entrevista que depósitos de explosivos C4 pertencentes à Gladio haviam desaparecido dois meses antes do atentado.

O general Serravalle também confessou em uma comissão parlamentar que a Gladio foi formada em 1956 para defender a Itália de uma possível invasão soviética, destacando que a operação visou provocar uma guerra civil em 1973 “para acabar com o Partido Comunista Italiano”.

Vincenzo Vinciguerra, membro do grupo neofascista Avanguardia Nazionale, revelou sob júri, ter sido autor do atentado de Peteano. Além disso, confirmou a existência de uma “super organização” vinculada à OTAN com a colaboração dos serviços secretos italianos. Vinciguerra contextualizou as ações de grupos neofascistas tais como Ordine Nuovo ou Avanguardia Nazionale como ações levadas a cabo dentro da Operação Gladio. Ele assegurou que a OTAN lhes fazia cobertura e que, de fato, alguns membros da operação perseguidos pela justiça italiana foram enviados à Espanha em plena ditadura franquista pois “alí não corriam perigo”.

Em 1974 houve um novo atentado em uma manifestação antifascista em Bréscia, onde morreram 8 pessoas e 102 ficaram feridas. Em 1982, os neofascistas acusados do atentado foram absolvidos pela justiça, o que causou uma manifestação em Bréscia como forma de protesto.

Um homem chora sobre o cadáver de seu irmão, coberto com bandeiras, morto por consequência de uma bomba plantada pelo grupo de extrema-direita Ordine Nuovo na Piazza della Loggia, em Bréscia, durante uma manifestação antifascista em 1974. Foto via Archivos de la Historia.
Um homem chora sobre o cadáver de seu irmão, coberto com bandeiras, morto por consequência de uma bomba plantada pelo grupo de extrema-direita Ordine Nuovo na Piazza della Loggia, em Bréscia, durante uma manifestação antifascista em 1974. Foto via Archivos de la Historia.

Não seria até julho de 2015 que o Tribunal de Apelação de Milão, já após a descoberta da rede Gladio, condenaria à prisão perpétua os dois autores do atentado de Bréscia, Carlo María Maggi e Maurizio Tramonte, ambos militantes do grupo neofascista Ordine Nuovo.

Seguindo a estratégia de tensão, meses depois do atentado de Bréscia, o grupo neofascista Ordine Nero (uma dissidência do Ordine Nuovo) perpetrou um atentado à bomba no trem Italicus, que viajava de Roma à Munique. Doze pessoas morreram e 48 ficaram feridas.

“O compromisso histórico”

O “compromisso histórico” foi uma estratégia política defendida pelo secretário-geral do Partido Comunista Italiano, Enrico Berlinguer, no início dos anos 1970. Consistia na necessidade dos comunistas entrarem em um governo de coalizão com os democratas-cristãos e os socialistas para dar assim maior estabilidade política à Itália.

Aldo Moro, o então presidente dos democratas-cristãos, acolheu com entusiasmo a idéia. Entretanto, isso não agradou aos Estados Unidos e à cúpula da OTAN que, segundo documentos secretos, cogitaram um golpe de estado na Itália para expulsar o PCI, embora a idéia tenha sido abandonada.

O “compromisso histórico” entre Enrico Berlinguer (à esquerda) e Aldo Moro (à direita). Foto via Wall Street International.
O “compromisso histórico” entre Enrico Berlinguer (à esquerda) e Aldo Moro (à direita). Foto via Wall Street International.

Nas eleições de 1976 os democratas-cristãos alcançaram a vitória, tendo como fato determinante a ajuda econômica dada por Washington durante vários anos. Em 1969, Richard Nixon enviou como embaixador na Itália, a pedidos de membros da direita italiana, Graham Martin, que distribuiu 25 milhões de dólares aos democratas-cristãos e neofascistas.

Mesmo assim o PCI ficou próximo do primeiro lugar, alcançando os melhores resultados de sua história. Após as eleições, o Partido Comunista Italiano daria um apoio externo ao governo democrata-cristão de Giulio Andreotti, já que ambos setores de esquerda e de direita eram contrários ao acordo.

Em março de 1978, Aldo Moro, o grande apoiador do “compromisso histórico”, foi sequestrado no caminho de uma apresentação uma moção ao parlamento em favor do governo de Andreotti com o apoio do PCI. Ficou sequestrado por 55 dias, até ser executado pelo grupo esquerdista Brigadas Rojas. Até hoje o assassinato de Aldo Moro permanece rodeado de mistérios.

A comissão do Senado que investigou a Operação Gladio na primeira metade da década de 1990 suspeitava que a CIA, os serviços secretos italianos e a Gladio poderiam ter participado no assassinato de Moro.

Quando a comissão parlamentar se dispôs a investigar essa hipótese, descobriram que a maior parte dos documentos relacionados ao sequestro e assassinato haviam desaparecido. Entre os acusados no caso de Aldo Moro se encontrava Giulio Andreotti, que posteriormente em 1999 foi declarado inocente. Entretanto, em 2002, Andreotti foi considerado culpado de instigar o assassinato e depois foi absolvido em 2003 pelo Tribunal Supremo.

Andreotti é um personagem obscuro da política italiana, já que foi também acusado da morte do jornalista Carmine Percorelli, que após o assassinato de Aldo Moro estava investigando os vínculos entre Andreotti e a máfia. Andreotti foi considerado culpado e sentenciado a 24 anos de prisão, para ser novamente absolvido logo em seguida.

Observe também que Andreotti negou qualquer envolvimento de sua pessoa com a Gladio, além de apontar que a rede já estava desmontada quando confessou sua existência. Isso foi desmentido em 1991 pelo ex-agente Alberto Volo, que declarou que a organização ainda seguia em atividade.

O último atentado

Em agosto de 1980 ocorreu um atentado na estação de trem de Bolonha, onde 85 pessoas morreram e 200 ficaram feridas. Como já havia ocorrido antes, o governo italiano e a polícia atribuíram inicialmente o atentado a organizações de esquerda, neste caso, as Brigadas Rojas.

A estação de Bolonha após o atentado. Foto via El Itañol.
A estação de Bolonha após o atentado. Foto via El Itañol.

Não foi até 1995 que a comissão de investigação do Senado declarou que os neofascistas dos Núcleos Armados Revolucionários (NAR), sob o guarda-chuva da Gladio, estavam por trás do atentado em Bolonha, sendo esta a ação mais mortífera vinculada à organização. Na sentença de 1995 os agentes dos serviços secretos militares italianos Pietro Musumeci e Licio Gelli foram condenados a vários anos de prisão por darem pistas falsas à política, atrapalhando assim a investigação.

Ainda que três neofascistas tenham sido condenados por plantarem as bombas (faz anos que já deixaram a prisão), o executivo ainda não levantou o sigilo de estado sobre a investigação, para que se possa finalmente saber quem foram os arquitetos do atentado.

A matança de Bolonha marcaria a última ação importante da Operação Gladio. Segundo um informe do Senado italiano entre 1969 e 1987, 481 pessoas foram mortas e outras 1.181 foram feridas devido à violência dos “anos de chumbo”.

Já se passaram décadas desde que a Itália reconheceu a existência da Gladio, e ainda assim muitos documentos ainda estão sob sigilo de estado, as investigações judiciais foram encerradas, e restam muitas dúvidas a serem resolvidas. E é muito provável que nunca teremos essas respostas.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


1  São chamadas operações stay-behind aquelas em que um país instala organizações e grupos secretos em seu próprio território para serem usadas em caso de uma invasão inimiga.

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