Brasil

Não vai ter golpe… já teve!

Toda a atual narrativa política da esquerda liberal se resume a devaneios idealistas e posturas oportunistas, já que abandonou completamente a ‘análise concreta da situação concreta’ para constituir um derrotismo moralista.

Por Eduardo Pessine

Bolsonaro não passa de uma "bucha de canhão" para que o setor entreguista do exército saia ileso de sua traição nacional. Foto por Eduardo Anizelli.
Bolsonaro não passa de uma “bucha de canhão” para que o setor entreguista do exército saia ileso de sua traição nacional. Foto por Eduardo Anizelli.

Toda a atual narrativa política da esquerda liberal se resume a devaneios idealistas e posturas oportunistas, já que abandonou completamente a ‘análise concreta da situação concreta’ para constituir um derrotismo moralista, que esconda seu completo fracasso político-ideológico.

Desde a posse de Bolsonaro no início de 2019, os meios de comunicação social-liberais e progressistas anunciam sua “queda” – um fenômeno quase religioso, a fé de que o governo colapsará sobre suas próprias contradições, sem qualquer oposição política, mas pelo seu próprio “despreparo” e “incompetência”. É evidente aqui uma postura claramente desesperada, de um grupo político que já não oferece mais nada ao povo brasileiro e que busca sua manutenção no campo eleitoral através de um discurso puramente moralista: rebaixando seu oponente apenas em termos morais, e nunca políticos.

Entretanto, o ataque moralista não é direcionado ao governo, mas apenas a um suposto setor do governo, uma dita “ala ideológica” – o grupo que supostamente adere às reflexões ideológicas de Olavo de Carvalho, liderado pelo chanceler Ernesto Araújo, o Ministro da Educação Abraham Weintraub, a ministra dos Direitos Humanos Damares Alves e o próprio presidente. Nessa fajuta divisão, existiria outro setor do governo, a chamada “ala racional”, composta basicamente pelos militares que seriam supostamente pragmáticos, nacionalistas e grande conhecimento técnico. Basta acompanhar os meios de comunicação hegemônicos do país para concluir que esse setor, os racionais, nunca são alvos de ataque por parte da dita esquerda! Ao contrário, eles são vistos como último lastro de racionalidade do governo, a pedra angular que impede o país de afundar de vez sob comando de Bolsonaro.

Essa narrativa possui, porém, uma grande contradição, já que a equipe ministerial e de diversos outros cargos do executivo é composta em grande parte por militares. Mais precisamente, dos 22 ministérios, 8 são liderados por militares, e o número de fardados em cargos de chefia ou assessoramento já ultrapassou os 2.500, fenômeno iniciado já no governo de Michel Temer. Com uma presença tão robusta no governo, como é possível que esse setor das Forças Armadas – o que é importante ressaltar, já que países independentes como a Venezuela também possuem executivos semi-militarizados, mas com um claro viés anti-imperialista, o que infelizmente não é o caso brasileiro – não seja também responsabilizado pelas ações, ou falta delas, do governo federal?

Aliás, não é necessário pesquisar muito para concluir que esse setor militar que hoje controla o governo federal tem um claro viés político filoestadunidense e antinacional, replicando em detalhe o discurso de Olavo de Carvalho em declarações públicas, como fez o General Ajax Porto Pinheiro – que atualmente ocupa o cargo de Assessor Especial do Presidente do STF – às vésperas das eleições de 2018:

Aliás, segundo a jornalista burguesa Maria Cristina Fernandes afirma em coluna da Valor, Olavo de Carvalho manteve uma vasta colaboração com esse setor militar durante anos, e “antes de se transformar no principal ideólogo da conspiração militar no governo Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho fez carreira como conferencista em colóquios das Forças Armadas e recebeu estreladas condecorações”. Esse setor é adepto, há anos, do revisionismo de Olavo.

Essa é a suposta “ala racional”?

Com o mergulho da crise capitalista global, a partir do estopim da pandemia de coronavírus, a burguesia brasileira busca um projeto político de estabilização, já se preparando para a crise social iminente no continente latinoamericano. Esse projeto necessitará de dois eixos: primeiro, uma sofisticada gestão econômica neoliberal, que agrave ainda mais a drenagem de recursos do país para o sistema financeiro internacional e para manutenção das exonerações fiscais e taxas de lucro da grande burguesia “brasileira”; e segundo, um estado policial que instaure a ordem, frente às agitações sociais que virão com o brutal ajuste fiscal futuro, somado à própria crise do sistema capitalista mundial que tende a pauperizar ainda mais a classe trabalhadora. Somado a tudo isso, ainda temos a grave situação econômica e geopolítica dos Estados Unidos, que ao perder cada vez mais espaço em África, Europa e Oriente Médio para a China, tenderá a fortalecer a dominação imperialista sobre seu último território de forte hegemonia, a América Latina. Esse fortalecimento da dominação imperialista significará um aprofundamento ainda maior de nossa dependência político-econômica e de nossa condição de colônia financeira.

Desta forma, esse novo desenho vai aos poucos, tomando forma. A direita liberal mais tradicional, liderada atualmente por Rodrigo Maia e João Dória, vai ganhando força frente à ofensiva de desestabilização do governo Bolsonaro por parte do legislativo e da mídia hegemônica, tendo como ponta de lança a desastrosa gestão da pandemia, ainda que de forma dissimulada, sem revelar que essa gestão atua em favor do lucro dos bancos e dos mega-empresários em detrimento da saúde, da renda e do bem-estar dos brasileiros, e não é um mero “despreparo técnico” como visam retratá-la. Essa direita liberal tradicional parece ser o principal candidato à gestão econômica do Brasil pós-pandemia. Por outro lado, o setor militar que controla o governo (que é a representação direta dos comandos militares estadunidenses no Brasil) aparece como principal candidato à gestão social desse novo modelo político. Nesse jogo de poder – onde apresentam clara vantagem, já que controlam as armas – assumiram nos últimos meses uma posição moderadora, sem tomar lado frente a disputa intra-direita, em uma clara tentativa de angariar força para a futura mesa de negociação pós-Bolsonaro.

A interpretação da “esquerda” sobre esse fenômeno, no entanto, foi de que os militares estão do lado de Bolsonaro, o que é completamente equivocado. O poder de Bolsonaro, atualmente, é muito frágil – já que seu lastro são seus quase 25% de apoio eleitoral, um número relativamente significativo, porém muito sucetível à queda frente a ofensiva recente – em comparação com o setor militar, que já ocupa uma enorme quantidade de postos no governo. A conclusão feita a partir desta interpretação é de que Bolsonaro, com apoio dos militares, estaria preparando um “golpe”.

Não é estranho, no entanto, uma ofensiva de força dos militares contra uma institucionalidade que já os garantiu pleno poder? Os atuais 2.500 cargos ocupados pelo setor militar é superior a grande parte dos governos da ditadura empresarial-militar de 1964, uma ofensiva política que exigiu o uso da força para sua ascensão e manutenção. Além do mais, a composição política de nosso atual parlamento é muito semelhante ao parlamento do período pós-1964: de um lado, uma ampla maioria de apoio incondicional aos interesses da burguesia, e de outro, uma falsa oposição, que atuando inteiramente dentro das graves limitações instituicionais, imprime um efeito político na prática nulo, e serve apenas como lastro para uma suposta normalidade institucional. Sendo assim, se o ambiente político cumpre os mesmos objetivos – apesar das vastas diferenças na forma, correlação de forças nacionais e internacionais, agentes políticos, etc – de controle social, qual seria a razão de um golpe militar?

Uma das razões a se levantar poderia ser uma ameaça ao poder estabelecido, uma correlação de forças desfavorável, que exija uma medida de força para neutralizar a força política ou social desse inimigo. Em outras palavras, uma razão seria um forte movimento de massas com uma linha política aberta e diretamente contrária aos interesses do poder estabelecido. Para isso, teria de ser favorável a uma intensa mobilização popular extra-institucional, em contraste ao controle social imposto por um provável estado policial; teria de ser profundamente anti-imperialista, em contraste aos interesses estadunidenses no Brasil; e teria de ser radicalmente anti-liberal, em contraste as formas político-econômicas do rentismo.

Este movimento de massas, entretanto e infelizmente, ainda não existe no Brasil. A suposta oposição brasileira não possui nenhuma dessas características: ela incentiva a desmobilização popular, através do eleitoralismo e do cretinismo parlamentar; ela é profundamente cosmopolita e antinacional, através da importação de interpretações teóricas e da cultura estrangeira; e ela é inteiramente liberal, comprovadamente com a manutenção completa do regime rentista ao longo de seus 13 anos de governo. Sendo assim, ela é completamente inofensiva ao poder estabelecido, e até mesmo desejável, já que contribui para o teatro democrático.

Se não existe ameaça real ao poder, e se esse poder já é ocupado pelos supostos golpistas, porque haveria um golpe militar? A resposta é simples: não vai ter golpe… já teve! Ignorar isso é ignorar que hoje o Brasil é governado por uma coalizão entre o império, o rentismo e o setor entreguista das Forças Armadas. Em outras palavras, o Brasil é um país sob invasão estrangeira, e precisa urgemente de um movimento de libertação nacional!

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