Oriente Médio

Egito e Etiópia: haverá uma guerra?

Por Abdel Bari Atwan, via Raialyoum, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

A Grande Barragem do Renascimento Etíope, na região oeste da Etiópia. Foto da Embaixada da Etiópia em Ruanda.
A Grande Barragem do Renascimento Etíope, na região oeste da Etiópia. Foto da Embaixada da Etiópia em Ruanda.

Enquanto as atenções do mundo se voltam à crise do coronavírus, a Etiópia começará, em algumas semanas, o abastecimento do reservatório de sua Grande Barragem do Renascimento Etíope (GERD, em inglês), no Nilo Azul, para o assombro do Egito, cuja vital fonte de água será severamente reduzida.

Na semana passada (13/05/2020), o chanceler egípcio Sameh Shoukri enviou uma carta para todo os membros do Conselho de Segurança da ONU definindo a perspectiva do país em relação às questões envolvendo a longa disputa sobre a barragem, detalhando seus esforços para alcançar uma solução justa, alertando sobre os perigos caso o impasse persista.

A atitude sucedeu o colapso das negociações trilaterais realizadas em Washington em fevereiro, entre o Egito, Etiópia e Sudão. Deveriam assinar um acordo preliminar elaborado pelos Estados Unidos e o Banco Mundial, sobre as regras para o abastecimento e a operação da barragem, mas enquanto o chanceler egípcio assinou o documento e o sudanês expressou ressalvas, o etíope rejeitou-o e abandonou as negociações, anunciando os planos para iniciar o abastecimento do reservatório em julho, sem nenhum acordo com os dois países afetados a jusante.

Muitas questões foram levantadas sobre o momento e as implicações do recurso do Egito ao Conselho de Segurança e os cenários futuros que podem se desdobrar.

A opinião que prevalecente no Cairo é de que, após baterem em todas as portas e tentarem diversas mediações – americana, russa e africana – para formulação de um acordo, as autoridade egípcias perderam a paciência. Não podem mais tolerar o impasse contínuo enquanto a Etiópia está prestes a impôr um fait accompli1, em linha com a estratégia que seguia desde o início das disputas. O país, durante todo o processo, tratou a barragem, as águas do Nilo Azul e o momento e duração do abastecimento da barragem como uma questão puramente de soberania etíope na qual ninguém tem o direito de interferir.

Uma ex-autoridade egípcia declarou ao Raialyoum que estava convencido que o memorando ao Conselho de Segurança deve servir como registro antes de Cairo recorrer a outras opções. Essas incluem, acima de tudo, a opção militar: usar a força para impedir a construção da barragem e o abastecimento do reservatório em defesa da segurança hídrica do Egito e o sustento de milhões de produtores rurais e camponeses, que sofrerão gravemente com a falta de água causada pelo ato de “agressão” etíope.

Não é esperado qualquer avanço diplomático por parte da Etiópia que evite o conflito nas semanas anteriores ao abastecimento do reservatório com capacidade de 74 bilhões de metros cúbicos. As posições dos dois lados estão muito distantes. A Etiópia insiste em reduzir o fluxo anual do Nilo Azul para o Egito para 31 bilhões de m³ e preencher o reservatório em 3 anos, enquanto o Egito quer uma alocação de 46 bilhões de m³ e o tempo de preenchimento de ao menos 7 anos. Os Estados Unidos propuseram oficialmente um compromisso de 37 bilhões de m³ em um período de 6 anos no acordo preliminar rejeitado pela Etiópia.

O aviso egípcio cifrado em linguagem diplomática ao Conselho de Segurança efetivamente serve como advertência de que existem apenas duas saídas para a crise: ou a Etiópia assina o acordo preliminar formulado pelos Estados Unidos e o Banco Mundial, especificando o fluxo de água para o Egito enquanto o reservatório é preenchido ao longo de um período razoável; ou caso não haja nenhum acordo de última hora, o Egito, tendo feito todos os esforços para buscar um acordo justo nos últimos anos, irá utilizar de todos os meios disponíveis, incluindo a força militar, para impedir o preenchimento do reservatório e proteger seus legítimos direitos hídricos.

Ex-oficiais do Egito e outros que estão em contato com o regime e informados sobre sua atual abordagem acreditam que o memorando ao Conselho de Segurança pode ser o último dado diplomático lançado antes de recorrer à força. Eles dizem que Cairo tem estado cada vez mais combativo desde que o presidente estadunidense Donald Trump lavou sua mãos sobre a questão e efetivamente entregou-a às mãos de Israel, o principal apoiador e aliado da Etiópia. Eles estão convencidos que a Etiópia visa aproveitar a preocupação mundial com a crise do coronavírus para avançar livremente com seus planos e impôr seus termos integralmente.

As autoridades etíopes alegam que têm um compromisso com seu povo para a construção da barragem e o preenchimento do reservatório, e não podem abandoná-lo com as eleições gerais se aproximando. Ressaltam que 70% dos etíopes não possuem acesso à eletricidade, e que o país precisa urgentemente da energia que será gerada pela barragem para suas exportações e desenvolvimento econômico. Também alertam que caso o Egito bombardeie a GERD, que é protegida por sistemas anti-aéreos israelenses, irão retaliar contra a Represa Alta de Assuã: barragem por barragem, em outras palavras.

E qual a atual situação do Egito? Como colocou um ex-diplomata britânico do Cairo, e especialista em assuntos egípcios, o presidente Abdelfattah as-Sisi tem duas opções. Ele poderá entrar para a história como o homem que dilapidou os direitos hídricos do Egito, permitiu a fome de milhões de egípcios e aceitou essa ameaça existencial ao país. Ou poderá ser o líder que derrotou um ato de agressão mirado em negar ao Egito seu direito à água que o sustentou por milhares de anos. Como um herdeiro do establishment militar que governa com seu apoio, é improvável que Abdelfattah as-Sisi escolha a primeira opção.

A GERD impõe um desafio existencial ao Egito mais grave que a crise do coronavírus. Os dirigentes egípcios estão em estado de alerta, especialmente os militares. Decisões duras e fatais podem ser tomadas nas próximas semanas.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


1  A expressão fait accompli se refere a uma atitude unilateral que não consulta os afetados, deixando-os sem opção além de aceitá-la.

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