África

As respostas de África à pandemia de Covid-19

Por Abayomi Azikiwe, via Global Research, tradução de Eduardo Pessine

Agente sanitário registra a temperatura de um passageiro em meio à pandemia de coronavírus no aeroporto internacional de Kotoka, em Gana, em janeiro de 2020. Foto por Francis Kokoroko.
Agente sanitário registra a temperatura de um passageiro em meio à pandemia de coronavírus no aeroporto internacional de Kotoka, em Gana, em janeiro de 2020. Foto por Francis Kokoroko.

A União Africana é composta por 55 estados-membros e abarca 1,2 bilhões de habitantes. Os governos ao redor do continente têm tomado iniciativas para reduzir a ameaça dos casos de Covid-19 confirmados na maioria destes países.

A África do Sul, o país mais industrializado da região e com uma população de 60 milhões, tem o segundo maior número de casos confirmados dentro da União Africana. O presidente Cyril Ramaphosa ordenou o isolamento social no final de março para previnir uma maior transmissão comunitária do vírus. No dia 22 de abril, o Ministro da Saúde, Dr. Zweli Mkhize, declarou à mídia que haviam 3.635 casos confirmados no país, que resultaram em 65 mortes. Mkhize disse que 134.000 testes foram administrados com cerca de 6.900 feitos em um período de 24 horas.

Ramaphosa mobilizou 3.000 membros da Força Nacional de Defesa Sul-Africana (SANDF, em inglês) para dar assistência às equipes médicas e de segurança na implementação do isolamento. O governo estabeleceu centros de quarentena em estádios esportivos para conter as pessoas que possam ter violado os protocolos de distanciamento social, se colocando em risco de exposição e contaminação.

Essas medidas criaram problemas sociais e econômicos adicionais. Muitas pessoas que vivem e diversas regiões do país não podem ficar em isolamento devido às necessidades de renda e trabalho. Muitos vivem em habitações superlotadas onde não existe espaço suficiente para efetivamente minizar o contato.

Ramaphosa anunciou no dia 22 de abril, que 73.000 tropas da SANDF estavam sendo colocadas em prontidão conforme ele se preparava para os comunicados sobre o status das políticas de prevenção do Covid-19, já em vigor há quatro semanas. A escalada de preparações militares podem ser uma resposta aos registros de ataques a caminhões de alimentos e a tentativa mal-sucedida de saques de lojas em um shopping em Mitchell Plains, próximo a Cidade do Cabo.

As pessoas que não podem trabalhar de casa estão sofrendo com a falta de renda. O desespero cresceu para os setores marginalizados da classe trabalhadora que já está submetida a uma taxa de desemprego de 29%.

O Ministro da Defesa sul-africano, Nosiviwe Mapisa-Nqakula, comentou sobre a decisão de mobilizar e prontificar dezenas de milhares de tropas, dizendo:

“Se você olhar os números e o ritmo de crescimento das contaminações, você verá que em algum momento, de fato, precisaremos de um tipo de mobilização humana que nunca foi vista antes”1.

Em face do impacto econômico da pandemia e o subsequente fechamento da economia, Ramaphosa anunciou um pacote de estímulo que pode ajudar com a incerteza futura. O pacote, equivalente a US$ 26 bilhões, visa sustentar os negócios e fornecer renda para três milhões de trabalhadores.

Quênia mantem medidas de emergência em meio a pandemia

O Quênia, a maior economia do leste africano, está sob estado de emergência desde o último mês. O presidente Uhuru Kenyatta tem feito comunicados ao país regularmente para incentivar o cumprimento das restrições em relação à reuniões e movimentações públicas2. O Ministro da Saúde queniano tem fornecido atualizações regulares sobre o número de contágios e mortes relacionados à pandemia. O país, que depende muito do turismo, agricultura e indústria leve, tem sofrido uma súbita baixa na receita nacional.

Até 22 de abril, o Quênia confirmou mais de 300 casos dentre os 15.000 cidadãos testados. Já morreram 14 pessoas da Covid-19 e 83 foram oficialmente recuperados. As autoridades de saúde estão preocupadas com o alto número de casos assintomáticos. Uma reportagem da Daily Nation relatou esse fenômeno no caso de um paciente, afirmando que “o Sr. Kevin Aura, de 26 anos, é um dos pacientes considerados assintomáticos, que agora já somam quase metade dos casos confirmados no Quênia. Conforme os casos diários aumentam, o ministro diz que existem evidências de casos assintomáticos espalhando o medo de transmissões involuntárias”.

A Nigéria age para proteger o estado mais populoso de África

Lagos, a capital comercial da Nigéria, país com uma população de 206 milhões, está em isolamento desde o final de março, quando o presidente Muhammadu Buhari fez um comunicado nacional sobre o atual impacto do vírus no país petroleiro. Desde o primeiro caso detectado em 27 de fevereiro, o governo federal paralisou todos os vôos domésticos e internacionais de passageiros, fechou as instituições educacionais enquanto expandiu o isolamento para os estados de Abuja e Ogun.

Buhari anunciou no dia 29 de março que o país estava trabalhando com República Popular da China para desenvolver medidas para conter a propagação da Covid-19 e para o tratamento de pacientes. O presidente enfatizou a necessidade de se seguir as diretrizes desenvolvidas pelos profissionais médicos nigerianos. Em seu discurso, Buhari disse, “O Diretor Geral do Centro de Controle de Doenças da Nigéria (NCDC, em inglês) foi um dos dez líderes sanitários globais convidados pela OMS para visitar a China e compreender sua abordagem de resposta. Eu estou pessoalmente orgulhoso do Dr. Ihekweazu por fazer isso em nome de todos os nigerianos. Desde seu retorno, o NCDC tem implementado diversas estratégias e programas para garantir que o impacto negativo do vírus em nosso país seja minimizado. Pedimos a todos os nigerianos que apoiem o trabalho que o Ministério da Saúde e o NCDC vêm fazendo, liderados pela Força Tarefa Presidencial”3 .

Até 20 de abril, as autoridades sanitárias da Nigéria haviam confirmado 86 novos cases da Covid-19, o maior número de casos diários já registrado, totalizando 627 casos. As estatísticas compiladas pelo NCDC ilustram que a epidemia está se alastrando mais rapidamente no último mês. A Nigéria já confirmou 21 mortes e 170 recuperações relacionadas ao vírus.

O Egito enfrenta a pandemia e o impacto econômico

Até 22 de abril, o Egito havia registrado o maior número de casos de Covid-19 no continente africano. O Ministério da Saúde registrou 169 novos casos e 12 novas mortes. Esses números colocam o total de casos confirmados no Egito em 3.659 e o total de mortes em 276. O Ministro da Saúde também anunciou que 935 pessoas já haviam se recuperado da doença.

A pandemia tem influenciado a forma que o parlamento egípcio tem conduzido seus trabalhos. Uma sessão do parlamento desenhada para aumentar a autoridade do presidente Abdel-Fattah el-Sisi para que tome medidas de conteção da Covid-19 foi conduzida com limitações ao número de pessoas presentes nas câmaras.

O jornal estatal, Al-Ahram, fez uma cobertura sobre as emendas a alguns artigos da constituição, dizendo, “os 17 novos poderes incluem o direito de fechar escolas e universidades, fechar determinados ministérios, autoridades e empresas total ou parcialmente, adiar o pagamento de contas de água, eletricidade e gás total ou parcialmente, e exigir o cumprimento de medidas de saúde e quarentena aos egípcios vindos do exterior. Os poderes também dão ao presidente a autoridade de alocar assistência financeira e em espécie a indivíduos e famílias, oferecer apoio financeiro para pesquisas médicas, fornecer assistência financeira ou em espécie para setores econômicos afetados, adiar o pagamento de determinados impostos, e transformar escolas e creches em hospitais de campanha”.

Com a chegada do Ramadan, a forma da celebração muçulmana mudou drásticamente no Egito. Casas de culto foram fechadas devido à pandemia e a reunião de muitas pessoas foi proibida.

A União Africana encoraja um esforço continental para erradicar a pandemia

A cidade de Addis Ababa, capital da Etiópia, é o quartel-general da Comissão da União Africana que tem monitorado a propagação da Covid-19 na região. Os números publicados em seu site indicam que 52 países registram 21.096 casos e 1.055 mortes. Cerca de 4.974 pessoas já se recuperaram da doença.

Dois estados-membros da UA, Comores e Lesoto, não possuem casos confirmados. Lesoto está sob isolamento já há algumas semanas. O país é completamente cercado pela África do Sul, que já tem mais de 3.600 casos. Ambos os países, Comores e Lesoto, são membros da Comunidade de Desenvolvimento do Sul de África (SADC, em inglês), uma filial regional da UA.

Os relatórios diários estão sendo publicados pelo Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (ACDC, em inglês), uma agência da UA. De acordo com seu portal, “o ACDC é uma instituição técnica especializada da União Africana estabelecida para apoiar iniciativas de saúde pública de estados-membros e fortalecer a capacidade de suas instituições públicas de saúde para detectar, previnir, controlar e responder rapida e efetivamente à ameaças sanitárias. O ACDC presta assistência aos estados-membros da UA fornecendo soluções coordenadas e integradas para seus problemas de sua infraestrutura de saúde pública, recursos humanos, rastreamento de doenças, diagnósticos de laboratório, e preparação e resposta à emergências e desastres sanitários”.

Esses objetivos são ligados intimamente com a capacidade social, política e econômica dos estados-membros da UA para enfrentar problemas de saúde pública no continente. A Comissão da UA tem reconhecido o impacto econômico da pandemia nas várias economias da região. Uma reportagem da Voice of America apontou no início de abril que, “pesquisadores da UA acreditam que o continente entrará em uma recessão neste ano devido ao impacto do coronavírus no comércio, nos pagamentos, no turismo, e na queda dos preços do petróleo. Um relatório da UA visto pela Voice of America estima que os governos perderão cerca de US$ 270 bilhões de comércio. O relatório, publicamento inicialmente pela Reuters, também afirma que os governos precisarão de ao menos US$ 130 bilhões de gastos públicos adicionais para combater o vírus”.

O advento da Covid-19 certamente levantará uma profunda discussão sobre o futuro das políticas econômicas dos estados-membros da UA. As prioridades relacionadas ao planejamento econômico, o empoderamento da classe trabalhadora, das mulheres, jovens e camponeses, a necessidade de treinamento e retenção de profissionais da saúde, todas são essenciais para fortalecer África para combater a atual crise e outras que podem sugir no futuro.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.


1  Leia mais em https://www.theguardian.com/world/2020/apr/22/south-africa-puts-soldiers-on-standby-as-lockdown-tensions-mount

2  Leia mais em https://ntv.nation.co.ke/news/2720124-5528492-vi54epz/index.html

3  Leia mais em https://www.tvcnews.tv/president-buhari-addresses-nigerians-on-covid-19/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s