EUA

A libertação negra e o internacionalismo anticolonial de Du Bois

Onde intencionalmente divorciam os pólos inseparáveis do racismo e do capitalismo global, Du Bois nos segue lembrando que a luta anti-imperialista é parte essencial da luta contra o racismo.

Por Claudia de la Cruz, via Notas – Periodismo Popular, tradução de Eduardo Pessine

William Edward Burghardt Du Bois na Universidade de Atlanta em 1909. Foto dos Arquivos e Coleções Especiais da Biblioteca Amherst da Universidade de Massachusetts.
William Edward Burghardt Du Bois na Universidade de Atlanta em 1909. Foto dos Arquivos e Coleções Especiais da Biblioteca Amherst da Universidade de Massachusetts.

Em 1935 foi publicado no jornal Pittsburgh Courier um programa pela igualdade e pela libertação do povo negro estadunidense conhecido como The Atlanta Creed. William Edward Burghardt Du Bois se atreveu, desta forma, a fazer um chamado urgente pelo socialismo e o internacionalismo dentro dos Estados Unidos.

Em seu trabalho como escritor, historiador, sociólogo e ativista, William Edward Burghardt Du Bois encontrou e descreveu extensamente as similitudes perturbadoras entre as políticas racistas do sul dos EUA e os processos coloniais e imperialistas que exploravam e oprimiam as classe trabalhadoras do Havaí, Filipinas e Porto Rico.

Sua formação herdava da tradição ideológica e política abolicionista do final do século XIX, surgida das massas escravizadas, arrancadas de África e jogadas nos campos norte-americanos. É partir disso que seguiu os passos de abolicionistas como Frederick Douglass, Harriet Tubman, John Brown e muitas personalidades que, inspiradas pela Revolução Haitiana do início do século XIX, conquistaram sua liberdade e dedicaram suas vidas à libertação dos escravos e escravas fora do território estadunidense.

Em meados do século XIX, como resultado da guerra contra o México, a potência nortamericana se extendeu e adquiriu de maneira forçada 800.000 km² de território. O intervencionismo militar e as guerras sucessivas de Washington no continente tiveram como resultado um movimento internacional anti-imperialista e anticolonial. Du Bois foi um líder importante deste movimento, particularmente nos Estados Unidos.

Em uma carta escrita em 8 de novembro de 1919, afirmou seu apoio à Liga dos Povos Oprimidos, que se decicou a fomentar a solidariedade entre aqueles que lutaram contra o domínio colonial em todo o mundo. Du Bois afirmou em seus escritos que o colonialismo era a tendência principal da política externa estadunidense, e parte constitutiva do imperialismo. É dentro deste marco que entendeu que as estruturas opressivas do racismo e a supremacia branca só poderiam sobreviver dentro de uma lógica capitalista de tipo imperial.

Em 1926, viajou à União Soviética para presenciar, em primeira mão, a importância da Revolução Russa, e obter contribuições para a luta pela libertação negra em seu próprio país. Ao retornar, declarou: “Se o que presenciei com meus olhos e meus ouvidos é o bolchevismo, então sou bolchevique”. Sua convicção anti-imperialista foi reafirmada nesta viagem, onde pôde ver como uma grande potência mundial ratificava seu comprimisso com a defesa da igualdade e contra as forças coloniais.

Em 1959 e 1963, visitou a República Popular da China, e estabeleceu relações com o Partido Comunista Chinês. Neste processo, as visitas de Du Bois resultaram ser de grande importância como símbolo da aliança e solidariedade do povo chinês com os processos dos afrodescendentes do mundo todo. Sua companheira de vida e esposa, a compositora e dramaturga Shirley Graham, foi sepultada na China maoísta em 1977.

Mao Zedong cumprimentando Shirley e W.E.B Du Bois na China em 1959. Foto dos Arquivos e Coleções Especiais da Biblioteca Amherst da Universidade de Massachusetts.
Mao Zedong cumprimentando Shirley e W.E.B Du Bois na China em 1959. Foto dos Arquivos e Coleções Especiais da Biblioteca Amherst da Universidade de Massachusetts.

Em sua histórica obra sobre a Guerra Civil dos Estados Unidos, Black Reconstruction in America, Du Bois se referiu aos 200.000 escravos que deixaram as platações durante o conflito para lutar com o Exército da União como uma “greve geral” contra o sistema de escravidão. Ali argumentou que a emancipação foi conquistada pela própria atividade dos negros, que forçaram o Estado e seu presidente, Abraham Lincoln, a outorgarem uma liberdade legislativa formal.

A obra deste marxista negro é uma teoria e um retrato dos movimentos sociais e do socialismo vistos de baixo. As rebeliões de escravos, escreveu Du Bois, foram um “experimento do marxismo”, de uma classe trabalhadora em busca de sua própria emancipação. Apesar do rechaço e da perseguição por parte do estados e das agências federais dos Estados Unidos que o levaram a sair do país em 1963, se manteve firme em seu apoio aos processos revolucionários, e continuou denunciando as atrocidades do império.

Até hoje, como no The Atlanta Creed, ele oferece uma luz para iluminar o caminho: “Acreditamos no triunfo final de alguma forma de socialismo em todo o mundo; isto é, na propriedade estatal, o controle dos meios de produção e a igualdade de renda; cremos que o poder supremo do Estado deve estar nas mãos daqueles que trabalham, que o Estado deve ser governado por eles”.

A crise atual requer a recuperação das tradições rebeldes dos povos e a construção criativa do presente e do futuro. Para aqueles que vivem no coração do império estadunidense, onde intencionalmente divorciam os pólos inseparáveis do racismo e do capitalismo global, Du Bois nos segue lembrando que a luta anti-imperialista é parte essencial da luta contra o racismo.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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