Europa

Por que o colapso do petróleo não despencou o rublo russo

Enquanto a baixa nos preços do “ouro negro” balança as economias mundiais e os grandes exportadores de petróleo tentam resistir a essa tendência, a moeda nacional russa provou que ainda tem uma carta na manga.

Por Ben Aris, via RT, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Cédulas da moeda russa, o rublo, que apesar da imensa queda nos preços do petróleo, conseguiu conter sua desvalorização nas mesmas proporções. Foto por Aleksey Sukhorukov.
Cédulas da moeda russa, o rublo, que apesar da imensa queda nos preços do petróleo, conseguiu conter sua desvalorização nas mesmas proporções. Foto por Aleksey Sukhorukov.

Enquanto a baixa nos preços do “ouro negro” balança as economias mundiais e os grandes exportadores de petróleo tentam resistir a essa tendência, a moeda nacional russa provou que ainda tem uma carta na manga.

O colapso dos preços do petróleo no início de março após a Rússia se retirar do acordo da OPEC+ foi um desastre para Moscou, que ainda se mantém altamente dependente das exportações de petróleo para financiar seu orçamento.

Mas então, algo curioso aconteceu: o preço do petróleo perdeu 56% de seu valor nos últimos meses até o dia 7 de maio, mas o rublo (₽) caiu apenas 19% no mesmo período. Como uma espécie de monge tibetano monetário, o valor do rublo conseguiu ‘levitar’ e se segurar, mesmo que o chão do petróleo tenha caído muito abaixo dele.

Há muito tempo o valor do rublo tem sido atrelado ao preço do petróleo e ambos costumavam oscilar em sincronia. Isso mudou quando o Ministro das Finanças russo introduziu a chamada “regra orçamentária” (ou regra financeira), que automaticamente drena qualquer excesso de lucros do petróleo para o Fundo Nacional de Bem-Estar Social (NWF, em inglês), a partir de todos os lucros obtidos a preços acima de US$ 42 por barril.

Essa regra gerou o acúmulo de uma reserva de ₽ 12 trilhões, ou 11% do PIB até o 1º de abril, e ajudou reduzir a inflação a níveis pós-soviéticos, mas, mais importante, quebrou em grande medida a ligação entre o valor do rublo e o preço do petróleo.

Isso mudou, entretanto. Como o preço do petróleo caiu abaixo da marca dos US$ 42 por barril, a regra orçamentária não faz mais diferença, assim o preço do óleo e do rublo devem se reatar.

O preço médio do rublo em 2018 foi de ₽ 62,7 por dólar, enquanto o preço médio do petróleo foi de US$ 70,8. Em 2019, o preço do petróleo caiu 11,4% para US$ 62,7, enquanto o rublo se desvalorizou menos, apenas 3,2% para ₽ 64,7 por dólar, principalmente devido ao efeito de estabilização da regra orçamentária.

Mas variações no primeiro trimestre de 2020 têm sido muito mais dramáticas. O preço médio do petróleo caiu em um terço (31,2%), para US$ 43,1 nesse período – incluindo janeiro e fevereiro, quando o preço era de US$ 63,7 e US$ 55,7 respectivamente – enquanto o preço médio do rublo foi de ₽ 68,7 por dólar, uma queda de apenas 6%.

Mesmo em março e abril, o pico da crise, o preço médio do petróleo caiu para US$ 32 e US$ 21,2, respectivamente, ou por mais um quarto (25,8%), seguido de outro colapso de um terço (33,6%) no mês seguinte, mas o valor do rublo nesses dois meses foi de ₽ 73,7 e ₽ 75,2, respectivamente, uma queda de apenas 7,3% em março e meros 1,9% em abril.

Isso não significa que o rublo passou ileso na atual crise, que é considerada a pior desde o total colapso do sistema financeiro russo em 1998, como mostram as tabelas semanais de câmbio rublo-dólar. Mas como pode o valor do rublo russo, na petro-dependente economia russa, desafiar tão facilmente a gravidade?

Banco Central da Rússia, ao resgate

Uma das razões pela qual se espera que a Rússia resista à crise melhor que muitos de seus parceiros emergentes é a decisão da chefe do Banco Central da Rússia (CBR, em inglês), Elvira Nabiullina, em permitir a livre flutuação do rublo como parte de sua resposta ao choque do petróleo de 2014, a última vez em que os preços do petróleo colapsaram.

Como argumentou a bne IntelliNews, o Kremlin está focado em preservar as reservas cambiais russas, que totalizam US$ 569,7 bilhões até 1º de abril, já que as considera um ativo estratégico. O tamanho das reservas russas significa que o país é impermeável a sanções, já que pode simplesmente comprar uma saída caso os Estados Unidos imponham sanções severas, sem a necessidade de emprestar dos mercados internacionais, o que tornaria a Rússia vulnerável à pressão.

O CBR mostrou que está preparado para permitir o baque do petróleo na taxa de câmbio para preservar suas reservas, e não tem defendido sua moeda, ao contrário de muitos países, notavelmente a Turquia, que também sofreu um colapso cambial. Além disso, o dinheiro do NWF também não será usado para defender o rublo, já que será somente destinado para cobrir o déficit de ₽ 3-4 trilhões do orçamento federal esperado para esse ano.

Durante o choque do petróleo de 2014, o rublo também se desvalorizou, e muito mais. Antes daquela crise, se manteve na casa dos ₽ 35 por dólar por alguns anos, mas caiu subitamente para cerca de ₽ 80 por dólar. Os investidores entraram em pânico e acusaram Nabiullina de irresponsável e incompetente, mas naquela época, assim como agora, ela se negou a queimar as reservas russas para defender uma taxa de câmbio indefensível.

Aquela crise começou em outubro e teve seu pico em dezembro, quando o CBR finalmente impôs uma alta emergencial na taxa de 17% no dia 16 de dezembro de 2014, para cessar o colapso da moeda. O rublo tem se desvalorizado bem menos do que naqueles meses de 2014, o que significa que ambos o investidores e a população têm recebido essa crise com maior calma do que naquele ano. Isso também significa que o dano causado pela atual crise – pelo menos em termos de efeitos monetários – é ameno em comparação a 2014.

Surpreendentemente, ao contrário de 2014, quando o CBR fez o maior aumento pontual de taxas de juros na história Russa, o banco desta vez reduziu as taxas por agressivos 50 pontos-base em sua última reunião em abril para 5,5%, em um esforço para dar um impulso de crescimento na economia. Os cortes das taxas de juros em abril demonstram uma mentalidade totalmente diferente.

Geralmente, durante uma crise, os bancos centrais de mercados emergentes são forçados a aumentarem as taxas para protegerem suas moedas, como fez a Rússia em 2014, enquanto economias desenvolvidas as reduzem para impulsionar o crescimento. E, de fato, a primeira medida do Fed estadunidense em abril foi zerar as taxas de juros.

Nabiullina teve uma escolha difícil em abril, já que poderia ter escolhido ambos caminhos: reduzir as taxas para impulsionar o crescimento, ou aumentá-las para conter a inflação causada pela desvalorização do rublo. Mas é um registro da administração efetiva do CBR desde que ela assumiu sua chefia em 2013, a escolha por uma resposta de mercado desenvolvido ao grave choque externo.

Defendendo o rublo

O CBR abandonou o “corredor cambial do rublo” (“ruble exchange rate corridor”, em inglês) ao final de 2014 – um mecanismo utilizado há quase duas décadas e que obrigou-o a controlar o valor do rublo e conter desvalorizações súbitas.

A reservas da Rússia caíram esse ano de um pico de US$ 580 bilhões para US$ 570 bilhões no começo de abril, porém grande parte dessa queda é devido a efeitos de reavaliações cambiais dos ativos usados pelo CBR para sustentar as reservas russas. O CBR gastou de fato meros US$ 2 bilhões em dinheiro no último mês em intervenções monetárias e de mercado para suavizar a queda do rublo, o que é bem pouco.

Na verdade, espantosamente, as reservas russas aumentaram neste ano, em um pouco mais de US$ 7 bilhões dos US$ 562,3 bilhões em 1º de janeiro. A reservas caíram ligeiramente de US$ 570,3 bilhões em fevereiro para US$ 563,4 bilhões em março, mas, incrivelmente, cresceram em abril para os atuais US$ 569,7 bilhões.

O CBR não irá tocar nas reservas cambiais russas para defender o valor do rublo, e também não pode usar o dinheiro do NWF, que tecnicamente pertence ao Ministério das Finanças. Entretanto, o governo criou uma esquiva para disponibilizar mais dólares ao CBR para defender o rublo, o que explica sua performance anti-gravitacional dos últimos dois meses.

No dia 11 de abril, o CBR rapidamente acordou a venda de suas ações majoritárias (50% + 1) do gigante bancário estatal Sberbank ao Ministério das Finanças por ₽ 2,14 trilhões (US$ 29,1 bilhões). A troca de proprietários resolve alguns problemas de uma só vez. Primeiro, o banco central estava na posição desconfortável de ser simultaneamente o regulador do setor bancário e proprietário do maior banco do setor. Agora, esse banco é de propriedade do Ministério das Finanças, como deve ser.

Segundo, o acordo irá colocar mais dinheiro no orçamento. O Sberbank é o banco mais lucrativo do setor, e recentemente prometeu aumentar seus pagamentos de dividendos para 50% de sua receita, já que o governo usa cada vez mais dividendos para acessar os lucros de suas melhores empresas, ao invés de impostos. No entanto, o CBR regularmente segurava parte desses pagamentos para mantê-los em seu próprio balanço. Agora, todos os dividendos do Sberbank serão pagos diretamente ao orçamento.

Terceiro, o acordo, na prática, fornece uma rota de fuga para o CBR acessar o NWF, garantindo-o dinheiro para gastar nos mercados monetários para defender o rublo, já que o pagamento do acordo pelo Ministro da Finanças foi feito com dinheiro do NWF, que caiu agora para cerca de ₽ 9 trilhões.

Esse último ponto é central, já que a alternativa do CBR para segurar o valor do rublo seria aumentar novamente suas taxas, o que teria impedido qualquer crescimento da economia russa durante a recuperação do colapso de abril.

A forma que o CBR usará esse dinheiro continua incerta, mas se acredita que os US$ 29 bilhões que agora possui sejam suficientes para defender o rublo até setembro, quando o governo acredita que a situação já tenha se estabilizado e os preços do petróleo tenham se recuperado o suficiente para retirar a pressão das finanças governamentais, especialmente após o acordo de corte de produção da OPEC+ que diminuirá a produção de petróleo por 9,7 milhões de barris por dia, assinado em 13 de abril.

“O CBR irá gradualmente vender [os US$ 29 bilhões] até o final de setembro, enquanto o preço do ural [petróleo russo] se mantiver abaixo de US$ 25 por barril”, disse Ivan Tkachev, editor econômico do RBC, em um artigo recente. “Desde o início dessas intervenções, o preço do ural nunca excedeu o limite, e o CBR vendeu mais de US$ 2 bilhões em abril. Quanto mais o petróleo russo desvia dos US$ 25, maior a quantidade de moeda vendida pelo CBR. Assim, o banco central está efetivamente compensando a falta de receita de exportações, fornecendo ao mercado doméstico a mesma quantidade de moeda como se o preço do ural fosse US$ 25.”

As vendas de moeda do CBR irão automaticamente proteger o rublo de uma grande desvalorização durante a baixa do petróleo, e compra 5 meses de tempo para os piores efeitos da crise passarem. A US$ 25 por barril, o valor aproximado do rublo é de ₽ 75-76 por dólar, estima Tkachev.

O preço do brent era de US$ 30,97 até 9 de maio, e o valor do rublo era de ₽ 73,4 por dólar – um pouco melhor do que as menores estimativas de Tkachev em relação ao câmbio. E o dinheiro do Sberbank não é o único recurso usado pelo governo em defesa do rublo. Para além das operações do próprio CBR, o Ministro das Finanças também vende nos mercados monetários. As estatísticas do CBR agregam dados de ambos mecanismos, já que é o próprio banco central o agente de vendas monetárias em ambos os casos, diz Tkachev.

“Diferente das vendas variáveis do CBR, as operações do Ministério das Finanças são fixadas com um mês de antecedência. Em abril, sua venda diária de moeda estrangeira foi equivalente a ₽ 3,5 bilhões (cerca de US$ 46 milhões). Mas a partir de 10 de março, quando o CBR lançou intervenções monetárias em nome do Ministério das Finanças, até 22 de abril, mais de US$ 5 bilhões foram vendidos através de ambos canais”, disse Tkachev.

A venda de dólares sob a regra fiscal não está ocorrendo, já que o preço do petróleo está abaixo da marca de US$ 42 por barril. Entretanto, no dia 8 de maio, o CBR formalizou uma “regra fiscal auxiliar” informal. O CBR anunciou que irá intervir nos mercados cambiais quando o ural (que geralmente custa cerca de US$ 2 a menos que o brent) caia abaixo dos US$ 25.

Isso significa que o CBR venderá mais US$ 0,5-1,5 bilhões nos mercados abertos para cada US$ 5 de queda no preço do ural abaixo dos US$ 25, estimam os analistas da VTB Capital.

“Este é o principal motivo pelo qual o rublo não acompanhou a queda dramática dos preços do petróleo”, diz Tkachev.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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