Oriente Médio

Israel, a selvageria de um regime corrompido

Por Pablo Jofré Leal, via Rebelión, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Israelenses do assentamento ilegal de Modi'in Illit levantam bandeiras de Israel e cantam slogans contra os manifestantes palestinos do outro lado do muro, durante uma manifestação contra a ocupação israelense e o muro de separação no vilarejo de Bil'in na Cisjordânia, em 28 de junho de 2013. Foto por Ahmad Al-Bazz.
Israelenses do assentamento ilegal de Modi’in Illit levantam bandeiras de Israel e cantam slogans contra os manifestantes palestinos do outro lado do muro, durante uma manifestação contra a ocupação israelense e o muro de separação no vilarejo de Bil’in na Cisjordânia, em 28 de junho de 2013. Foto por Ahmad Al-Bazz.

A política externa estadunidense, controlada em suas linhas estratégicas pelo sionismo, decidiu apoiar a decisão do estado israelense de consumar a anexação de grande parte da Cisjordânia, com base na estratégia de impedir qualquer chance de se concretizar um estado palestino ao mesmo tempo que protege o acusado primeiro-ministro Benjamin Netanyahu das acusações de fraude, suborno e abuso de autoridade que o deixaram na corda bamba.

Israel costuma atuar de forma oportunista, executando suas ações criminosas quando as preocupações de suas vítimas estão sufocadas em outras situações, à espreita como um animal de rapina, lançando-se nelas com crueldade, violência, visando gerar o terror para aqueles cuja vida não tem importância. Israel é, portanto, um regime terrorista, nascido sob a ação de grupos extremistas como Haganáh, Lehi (grupo Stern), Irgún, Plamaj, a base paramilitar das atuais forças de ocupação da Palestina. Israel se sustenta em uma ideologia que representa inicialmente um movimento colonial europeu, destinado a forjar uma ponta de lança na Ásia ocidental em benefício do imperialismo britânico e onde o terror como ação política tem raízes inseparáveis em sua ideologia.

Israel é uma entidade e uma sociedade violenta, nutrida do sangue dos povos da região e especialmente do sangue do povo palestino, da vida de seus homens e mulheres, da terra de um povo que foi colonizado por estrangeiros, que como um patógeno virulento começou a gerar uma metástase mortal: o sionismo, que se impôs à Palestina, se propagando por todo o Levante.

Israel é a expressão de uma ideologia de origem européia, que em seu processo de ocupação e colonização de terras estrangeiras, se revestiu de características próprias de regimes fascistas como o Terceiro Reich. Um evidente paradoxo, pois se supõe que este regime fascista teve como centro de ação de sua ideologia racista o extermínio dos judeu dos países invadidos pela Alemanha nazista. Após o fim da Segunda Guerra e como cruel expressão de uma Síndrome de Estocolmo, o nacional-sionismo israelense começa a disseminar sua praga mortal, identificando-se e utilizando progressivamente os métodos que os próprios europeus de crença judia sofreram sob a ocupação nazista, e desta vez, contra o povo palestino: segregação, criação de guetos, ocupação de terras e sua colonização, criação de campos de concentração – que no caso sionista chegou a ápice da criatividade e perversidade, ao criar o maior centro de confinamento a céu aberto do mundo: a Faixa de Gaza.

Ali, naquele enclave costeiro, habitam 2 milhões de palestinos. Submetidos a um bloqueio desde 2006 até hoje. Um ataque sem misericórdia, brutal, violador dos direitos humanos mais básicos, que impede sua população de deslocar-se livremente. Vivem cercados de muros e valas, que os separam de sua Palestina histórica. Uma população sujeita a restrições de água e eletricidade, proibida de desenvolver uma vida autônoma. Uma faixa, com vista para o Mediterrâneo, mas no entanto, só podem acessar um espaço mínimo, vigiada por drones, barcos de patrulha e navios de guerra israelenses. Rodeados de assentamentos de colonos sionistas armados. Um enclave monstruoso, uma ratoeira onde a entrada e saída está nas mãos do sionismo, que somente em algumas ocasiões permitem o trânsito de caminhões de ajuda humanitária, fiscalizados e autorizados pelo exército ocupante.

Uma região, que nos últimos doze anos, tem sido vítima de três operações bélicas de grandes proporções, inúmeras incursões do exército ocupante. Assassinatos seletivos contra dirigentes políticos e militares. Bombardeiros, fogo de artilharia, uma permanente perseguição aos habitantes de Gaza. Ações que tem significado a morte, apenas neste período, de ao menos 8 mil palestinos, mais de 100 mil feridos e a destruição de grande parte de sua infraestrutura básica. Um território, que desde março de 2018 têm assentados, na fronteira artificial criada por Israel, centenas de franco-atiradores, que já assassinaram 350 homens e mulheres, 50 crianças, e entre eles, trabalhadores médicos. Cinquenta mil feridos, uma grande parte mutilados, o que mostra a perversidade e a essência criminosa destes soldados formados em ódio, racismo e desprezo por tudo aquilo considerado palestino.

Ao leste de Gaza se encontra a Cisjordânia, separada do enclave costeiro, por dezenas de assentamentos sionistas que, além de usurpar o território, servem de escudo frente ao direito do povo palestino de recuperar sua terra. Colonos armados até os dentes, que fizeram do saque, a usurpação e a bandidagem, sua história de formação de uma entidade surgida após a crise de consciência das potências vencedoras na Segunda Guerra Mundial. Uma decisão nefasta cuja vítima tem sido o povo palestino, que viu seu território cercado no ano 1948, após o fim do controle britânico sobre a Palestina, quando se declara o nascimento de Israel, ocupando territórios entregues a colonos estrangeiros, de crença judia, vindo principalmente da Rússia, Polônia, Alemanha, Bielorrússia, Moldávia, entre outros. A Palestina sofreu as consequências dos crimes cometidos por uma nação européia, com a cumplicidade de governos europeus alinhados ao Terceiro Reich e com o silêncio da maioria dos países, que logo usaram o povo palestino de bode expiatório. Começou assim a consolidar-se o que o acadêmico estadunidense (e judeu) Norman Finkelstein define como “a Indústria do Holocausto”.

A Cisjordânia se converteu também em um campo de concentração. Uma parte da Palestina fragmentada pela política de ocupação e colonização sionista. Com 5.860 km², 60% deles ocupados por Israel, delimitada pelo Rio Jordão e o Mar Morto ao leste e pela linha verde ao oeste, linha que também delimita e separa o norte e sul da Palestina histórica invadida desde 1948. a Cisjordânia é habitada por 3,2 milhões de palestinos (com milhões de refugiados considerados como tal em países vizinhos, em uma diáspora interminável). Rodeada por um muro da vergonha de 720 km de comprimento, que adentra e fere o território palestino, separando povos, aldeias, famílias, engolindo uma terra que resiste a morrer.

A Cisjordânia está recortada por centenas de postos de controle e bases militares, que impedem a livre circulação de seus habitantes, obrigados a pedirem permissão às forças de ocupação para entrarem ou saírem de seu próprio país, e sobretudo, com 125 assentamentos construídos em terras palestinas, onde 650 mil colonos usurpam, saqueiam, roubam e assassinam seus habitantes nativos. São centenas de milhares de estrangeiros dos quais 10% são de origem estadunidense. Uma massa invasora extremista de uma sociedade impregnada de violência, racismo e crime. Quase metade desses elementos rodeiam a Al Quds leste e os demais se espalham como um vírus pelo restante da Cisjordânia.

Esta região está hoje na mira da voracidade sionista, dos objetivos políticos do novo governo de coalizão formado pelo grupo político do Likud e seus aliados, comandados pelo processado Benjamin Netanyahu e a coalizão Azul e Branco, liderada pelo ex-chefe do estado maior do exército sionista, o general Benny Gantz, um lobo na pele de cordeiro. Ambos políticos, imbuídos do desejo de moldar o mito esculpido com violência, agressões e crimes e que hoje, através de um acordo de poderes compartilhados, se preparam para concretizar a anexação da Cisjordânia, ansiosos para avançarem com seu plano delirante.

A falsa Terra Prometida, uma infame quimera, tomou forma graças aos princípios da propaganda goebbeliana, de que uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade: que Israel é o povo escolhido e a Palestina é a terra prometida. Mitos sustentados por outras falácias, que pretendem garantir a colonização que começou ao final do século XIX, sob a idéia de que a Palestina “é uma terra sem povo para um povo sem terra”. Uma estratégia que tem um nome em hebreu: Hasbara, explicação, esclarecimento, o que não passa de uma justificativa para a infâmia.

Todo um processo sustentado em falsidades, que tem contado com o apoio, primeiramente do imperialismo britânico, e logo do imperialismo estadunidense, os grandes adeptos e cúmplices do assassinato de milhares de palestinos, do saque de suas terra e hoje, responsáveis por continuarem ‘dando asas’ aos esforços expansionistas israelenses. Um apoio que encontrou em Donald Trump um parceiro incondicional, ao concretizar ações como a mudança da embaixada dos Estados Unidos de Tel Avav a Al Quds, a formulação de um plano de intensificação da ocupação cujo objetivo é exterminar a população palestina no chamada “Acordo do Século”, que representa a imposição dos desejos e objetivos da parceria entre imperialismo e sionismo.

Esta cumplicidade tem sido criticada e denunciada como violadora da legislação internacional. Uma aliança com condutas acusadas de responsáveis por crimes contra a humanidade por grande parte dos países do mundo, organismos internacionais como a ONU e instituições relacionadas, a Liga Árabe e a União Européia. Uma crítica que se levanta novamente contra o anúncia estadunidense de dar o aval à anexação de grande parte da Cisjordânia. Com isto, fica evidente o embuste de Washington ao se apresentar como mediador e abrir um canal de negociações com uma Autoridade Nacional Palestina (ANP), de quem duvidam da capacidade de liderança e impõem a responsabilidade pelos eventos que estão por vir.

As autoridades da Cisjordânia, entre elas o ministro palestino de Assuntos Exteriores, Riad al-Maliki, assegurou que se o regime israelense seguir adiante a materializar tal plano, apresentarão uma demanda contra Israel nos tribunais internacionais. A ONU também expressou seu repúdio ao plano de anexação, através do enviado para a Ásia Ocidental, Nickolay Mladenov, que afirmou frente ao Conselho de Segurança da ONU: “A perigosa perspectiva de anexação de partes da Cisjordânia ocupada por Israel se converte em uma crescente ameaça. Tal ação expansionista constitui uma violação do direito internacional e atesta um golpe devastador à solução de dois estados, já que fecharia as portas para negociações entre as partes”.

As palavras de Mladenov, apesar de bem-vindas em meio às condenações à aliança imperialista-sionista, são apenas simbólicas, caso não se apliquem medidas coercitivas contra Israel, amparadas pelo capítulo VII da Carta das Nações Unidas. São declarações vazias, que permitem que o sionismo aproveite a pandemia global para avançar com sua maquinaria expansionista em zonas de enorme significado histórico e religioso para Palestina. Efetivamente, no último dia 21 de abril, na cidade de Al Jalil, cujo centro histórico está ocupado por mil colonos extremistas e diversos soldados, o procurador-geral e consultor jurídico do regime israelense aprovou o confisco de terras palestinas na área da Mesquita de Ibrahim.

Israel só entende a linguagem da força, por isso, o extremismo do sionismo deve ter respostas contundentes, que impliquem dotar de forças suficientes aqueles que buscam exterminar definitivamente. Lutar contra essa ameaça virulenta do sionismo, cujos principais portadores são hoje Benjamin Netanyahu e Banny Gantz junto à toda casta política, militar e de colonos extremistas, exige que sejam isolados para impedir a propagação de uma ideologia tão perversa e criminosa. Derrubar seus drones, fazer sentirem que as balas não são unidirecionais, aumentar as pressões através da campanha internacional de BDS (boicote, desinvestimento e sanções), assim como levar o sionismo à Corte Penal Internacional.

É necessário solicitar prisões internacionais aos mandantes políticos e militares israelenses, para que não se sintam seguros em nenhuma parte do mundo. Que as sociedades árabes dominadas por monarquias corruptas aliadas ao sionismo se levantem. Reconsiderar as relações que o mundo árabe tem com os Estados Unidos, como sustentou o prêmio Nobel da Paz Muhammad el-Baradei, que recrimina Trump por suas medidas contra os palestinos, clamando aos países árabes que levem em conta essas ações ao tratarem de manter relações com Washington. “Donald Trump adotou a maior quantidade de medidas contra a causa palestina e os palestinos desde a formação de Israel”, escreveu el-Baradei em um tweet.

As provocações e ações israelenses não podem ficar impunes, deve-se agir em todas as frentes possíveis, incluindo a militar. Não se pode aceitar que a entidade nacional-sionista extermine todo um povo e o mundo siga em silêncio. É fundamental que, na medida que as organizações extremistas, formadas e financiadas pelos Estados Unidos, as monarquias feudais da Ásia ocidental, Israel e o apoio de países europeus sejam derrotados, o eixo da resistência, desde o Iêmen, passando pelo Iraque, Síria, Líbano e as próprias forças e movimentos palestinos, enfrentem o sionismo, que só irá retroceder quando sua tecnologia militar seja impotente frente à consciência, o valor e a determinação das forças anti-sionistas. A Palestina nos chama, precisa de nós e nessa questão, não existe a possibilidade de se calar.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s