África

Marrocos: o regime e os capitalistas são os verdadeiros inimigos

No Marrocos, assim como em todo o mundo, o vírus não é a causa da crise; é simplesmente o gatilho que acelerou um longo processo em andamento.

Por Anass Rahimi, via In Defense of Marxism, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Ordem das forças de segurança para não sair de casa após a declaração de estado de emergência como precaução contra o coronavírus em Rabate, Marrocos, no dia 20 de março de 2020. Foto por Jalal Morchidi.
Ordem das forças de segurança para não sair de casa após a declaração de estado de emergência como precaução contra o coronavírus em Rabate, Marrocos, no dia 20 de março de 2020. Foto por Jalal Morchidi.

Como diz um provérbio marroquino: “a ovelha passa toda sua vida temendo o lobo, mas no fim, quem banqueteia a ovelha? O pastor!”. Bem, alguns meses após a China e 10 dias após a Itália, as autoridades marroquinas anunciaram os primeiros casos de Covid-19 no dia 2 de março e atribuíram-os a “fatores externos”. Especificamente, um marroquino retornando da Itália, e turistas franceses. A epidemia piorou, infectando 2.024 pessoas, das quais 126 morreram (em 15 de abril, 45 dias após as primeiras infecções), de acordo com os dados oficiais.

Inicialmente, as autoridade subestimaram a severidade do perigo. Hoje, temem o impacto que o confinamento terá na economia e nos lucros das corporações. As medidas tomadas têm sido caóticas: por exemplo, o governo suspendeu voos para e vindos da China, ao mesmo tempo que anunciou que um grupo de estudantes marroquinos vivendo na China poderiam retornar ao país. A segurança nos portos e aeroportos tem sido reforçada, mas muitos daqueles que passaram por ela destacaram a falta de equipamentos. A segurança em todo o país tem gradualmente aumentado até o anúncio de uma “quarentena”, e finalmente um estado de emergência sanitária de 20 de março até 20 abril.

Após essas medidas serem impostas, agentes de segurança e veículos blindados do exército saíram às ruas em peso, para “garantir a implementação da quarentena”. O estado tem aproveitado da situação para aumentar o controle, intervindo violentamente contra cidadãos, como testemunhado por diversos vídeos circulando nas redes sociais.

Um plano “efetivo e proativo”?

Todas essas medidas foram acompanhadas de uma campanha midiática que pintou o estado, especialmente “sua majestade”, como a própria encarnação da sabedoria. “O estado não tem ajudado as pessoas desempregadas? (…) A taxa de contágio de Marrocos está entre as menores, com menos de 2000 casos confirmados e menos de 200 mortos. Certamente a situação de Marrocos é melhor que a dos Estados Unidos!”.

Essa é a narrativa oficial, mas a realidade é completamente diferente. Essas pessoas esquecem de mencionar alguns fatos, que para eles, são irrelevantes. A assistência financeira mensal para os desempregados é de apenas 800 dirhams (US$ 86) para uma família de duas pessoas, 1.000 dirhams (US$ 107) para famílias entre três e quatro pessoas, e 1.200 dirhams (US$ 129) para família de quatro ou mais integrantes. Essas quantias seriam suficientes para ascéticos que não precisam comer, beber, encontrar moradias seguras, ou qualquer outra necessidade cotidiana. É revelador comparar esses valores com a soma de € 230 milhões que o Palácio Real recebe todo ano – 19 milhões por mês, ou o equivalente a € 638.000 por dia!

Em relação ao número de casos confirmados, mais de 40 dias já se passaram desde que os primeiros foram detectados, e o Marrocos é um país com uma das menores taxas de testagem. De acordo com os dados do Worldometers, até o dia 15 de abril apenas 10.359 testes foram feitos, em uma população de 36 milhões. Isso é consideravelmente menor do que a taxa de países sitiados como o Iraque (46.135 testes para 38 milhões de habitantes), Palestina (17.329 testes para 5 milhões de habitantes), e outros países que sofrem com o bloqueio imperialista, como Cuba (20.451 testes para 12 milhões de habitantes) e Venezuela (225.009 testes para 29 milhões de habitantes).

Nós estamos bem longe de poder verificar a “eficácia” de “sua majestade” e seu regime! Muito pelo contrário!

Isso, no entanto, é esperado, levando em conta as desastrosas condições da infraestrutura de saúde no Marrocos. Após 60 anos da chamada “independência”, o Marrocos ainda tem poucos hospitais e salas de recuperação. Por que investir em tais coisas quando podemos usar o dinheiro com as forças armadas, ou o salário de altas-autoridades? Os ricos também simplesmente escapam dos impostos: a quantidade de dinheiro que saiu do país para paraísos fiscais e bancos estrangeiros entre 2004 e 2013 já passou de US$ 41 bilhões. Como consequência, o Marrocos tem apenas 1.640 leitos de hospitais para quase 40 milhões de habitantes, e apenas 684 destes são em hospitais públicos. De 1960 a 2014, o número de leitos diminuiu em 31%. Atualmente, existem apenas 3,7 médicos e 2,9 enfermeiros para cada 10.000 pessoas.

Isso é uma catástrofe, mas nem “sua majestade” ou seu governo estão preocupados, já que a maioria dos ministros e da classe dominante possuem dupla cidadania e podem simplesmente voar para a Europa para receberem tratamento. Para eles, o problema surgiu apenas quando as portas da Europa se fecharam, mas eles decidiram alocar os leitos existentes para os de “sangue-azul”, enquanto exigem que o povo fique em casa e tenha fé em uma potencial imunidade ao vírus.

E não esqueçamos que “sua majestade” abandonou o país e se refugiou nas Ilhas Canárias, em seu iate de € 90 milhões!

“No mesmo barco”?

Durante o encontro da Comissão Interior e dos Coletivos Territoriais no parlamento, o Ministro do Interior faz “um apelo ao espírito de cidadania para superar essa crise juntos”, sinalizando que todos os marroquinos devem se considerar no mesmo barco.

Mas que barco maravilhoso! Assim como a Arca de Noé, ele não é capaz apenas de transportar as galinhas ao lado das raposas, mas também os médicos ao lado dos ministros que os reprimiram dois anos atrás quando foram às ruas protestar contra as catastróficas condições do sistema de saúde. Este barco pode até mesmo dar lugar aos trabalhadores explorados com salários miseráveis ao lado dos parasitas que os forçam a trabalhar sem nenhum equipamento de proteção!

Com essa metáfora, devemos nos convencer que o “Makhzen” (o rei, seus ministros, altos-funcionários, e outros representantes da classe dominante) subitamente se importam com a saúde de seus súditos… mas ainda é o mesmo regime que impôs medidas de austeridade em setores vitais como a saúde e que já prendeu centenas de militantes Hirak no Rif (uma distante cadeia montanhosa) e condenou-os a centenas de anos de prisão, simplesmente por reivindicar a construção de um hospital na sua região.

Nós devemos de alguma forma nos convencer que o mesmo estado que assassina manifestantes inocentes – e que matou a tiros uma jovem mulher que cometeu o “crime” de tentar fugir de barco de um país que não lhe deu emprego ou dignidade – está subitamente preocupado com o destino dos milhões de marroquinos. Nós devemos nos convencer também que o mesmo estado que deixa 20.000 crianças morrerem de doenças tratáveis como diarréia e desnutrição todo ano, e ignora a morte de centenas por ano com picadas de escorpiões, subitamente passou a sentir algum afeto por eles. O Makhzen nunca comete tais erros: está sempre certo!

‘Confinamento’ não significa o mesmo para todos

Apesar do número de testes feitos no Marrocos até agora ser um pouco maior de 10.000, o número de presos por “violação das regras de confinamento” já passou de 28.000! É claro, as únicas pessoas punidas são os trabalhadores e pobres que precisam sair de casa para sobreviver nessas difíceis circunstâncias. Aqueles com conexões com o governo, como a irmã do líder do Partido da Justiça e Desenvolvimento, podem simplesmente entrar em contato com o primeiro-ministro ou outra autoridade influente e ter sua saída liberada.

Além disso, essa lei obviamente não se aplica aos proprietários de fábricas que forçam trabalhadores a trabalharem sem os mais básicos equipamentos de proteção. Eles se deslocam em meios de transporte superlotados e trabalham lado a lado por longas horas sob a ameaça de demissão. Essa é a verdadeira razão pela qual dúzias de trabalhadores em diversas regiões industriais – notavelmente Tangier, Casablanca, Marrakech e Fez – se encontram contaminados, sem mencionar suas famílias e amigos. Até agora, Casablanca já registrou 85 casos, Marrakech 66, Tangier 21 e Fez 68.

O estado tomou medidas para punir esses capitalistas? Obviamente não! Os sindicatos fizeram alguma coisa? Impossível, já que agora eles apoiam a “unidade” e “paz social”, unilateralmente.

Tudo isso confirma que nem o governo nem o sistema capitalista podem ajudar a sociedade a lidar com a pandemia; na verdade, eles impedem as ações efetivas, graças a décadas de austeridade, repressão e políticas que visam o lucro, em detrimento das vidas de milhões de homens e mulheres.

Quem paga o preço?

Apesar das declarações do Ministro do Interior sobre “o barco” que carrega todos os marroquinos, o grosso desta crise não é verdadeiramente dividida por todos os passageiros! Milhões de trabalhadores, camponeses e os setore mais vulneráveis da sociedade estão sendo esmagados pelo desemprego e custo de vida cada vez maiores, além da repressão governamental. Milhões passam fome diariamente e lutam pelo mínimo para a sobrevivência, correndo o risco de se contaminar com o vírus em fábricas, estufas e bairros superlotados, muitos deles sem saneamento básico e água encanada. Mesmo assim, os parasitas capitalistas tiram proveito da situação e acumulam imensos lucros ao aumentarem os preços, incluindo de comidas estragadas e máscaras médicas defeituosas que prejudicam a saúde da população.

A imprensa oficial nos convida a “sermos honestos e não esquecermos as contribuições significativas que muitos dos cidadãos mais ricos e grandes empresas fizeram ao “Fundo Anti-Corona”, estimadas em bilhões. E para não estragar esse belo retrato, devemos ignorar o fato de que suas contribuições são migalhas das imensas fortunas e riqueza que acumularam através da exploração dos trabalhadores e dos recursos do país por décadas, com métodos que os próprios capitalistas consideram criminosos. Não devemos também enfatizar que eles estão tentando apenas salvar seu próprio sistema apodrecido. Acima de tudo, não devemos mencionar que as contribuições foram feitas apenas após o Ministro da Economia confirmar que ele as consideraria “doações dedutíveis dos impostos”, significando que a generosidade seria paga com isenções fiscais! Aparentemente também não é apropriado destacar que eles estão todos agora batendo na porta do governo para obterem apoio desse mesmo fundo, como a Confederação Geral de Negócio do Marrocos declarou abertamente.

O verdadeiro inimigo

No Marrocos, assim como em todo o mundo, o vírus não é a causa da crise; é simplesmente o gatilho que acelerou um longo processo em andamento. Nós marxistas já o explicamos em muitos de nossos artigos.

A verdadeira causa da crise é o sistema capitalista em si. O vírus não é responsável pela destruição de nossos setores de saúde e educação, e nem pelas privatizações que tornaram a sociedade incapaz de lidar com a pandemia.

A busca voraz por lucro, que é o único objetivo do capitalismo, tornou a vida de milhões de pessoas um inferno. Ela devasta os padrões de vida e condições de trabalho e está destruindo o meio-ambiente e a própria civilização.

O futuro será um de explosiva luta de classes, em Marrocos e em todo o mundo. Via Magharebia.
O futuro será um de explosiva luta de classes, em Marrocos e em todo o mundo. Via Magharebia.

A crise se agravou com a propagação do vírus. O Alto Comissário de Planejamento, Ahmed Al-Halimi, previu em meados de março, que a taxa de crescimento econômico não seria maior que 1%. No dia 13 de abril, entretanto, Al-Halimi anunciou uma revisão radical das previsões; declarou à agência espanhola EFE que o crescimento seria negativo (-1,8%) no segundo trimestre de 2020. Ele acrescentou que “o Marrocos registrará seu pior ano econômico deste século”.

É isso que o capitalismo tem a oferecer: crise atrás de crise. A classe trabalhadora e os pobres são os únicos que pagam o preço. Os capitalistas e seus governos já estão afiando suas facas em preparação para o período pós-coronavírus. O governo decidiu congelar as promoções para os trabalhadores e empregados do setor pública e planeja descontar três dias de pagamento dos salários dos servidores públicos e empregados de estabelecimentos públicos, incluindo os trabalhadores da saúde. Empréstimos massivos são muito prováveis. Isso colocará todo o peso da crise nos ombros dos trabalhadores por muitas gerações por vir.

Os capitalista já estão pressionando o estado para intervir em salvação de seus lucros após a pandemia, ao custo do povo, é claro. Nesse contexto, Akhenouch (ministro e empresário) recentemente publicou um artigo – certamente escrito por um de seus apoiadores – apresentando o ponto de vista da classe dominante sobre o que deve ser feito após a crise do coronavírus. Ele disse que o estado deve se endividar para ajudar os “atores econômicos”. Isso significa: “privatizar os lucros e nacionalizar os prejuízos”.

O futuro será muito difícil para a classe trabalhadora. Demissões em massa, desmonte de diversos setores, desaparecimento de muitos pequenos e médios negócios, elevará a taxa de desemprego a níveis inéditos. A redução dos salários, aumento do custo de vida, e os diversos ataques que a classe dominante lançará contra os trabalhadores irão piorar suas condições de vida e de trabalho.

A escala da crise, e da pandemia em si, são um choque para a classe trabalhadora. Os trabalhadores se encontram aprisionados pela criminosa burocracia sindical, que defende o sistema capitalista a todo custo. Isso foi amplamente ilustrado pela traição das lideranças sindicais ao aprovarem a decisão de tributar salários e seu silêncio frente os diversos ataques contra os trabalhadores. A classe trabalhadora não possui um partido político que pode uni-la como classe e propor um programa de luta. Tudo isso terá um impacto na classe trabalhadora e sua habilidade de resposta no curto prazo.

Mas o que é certo é que, após o fim da pandemia, a classe trabalhadora retornará às fábricas e às ruas mais consciente. Ela terá visto onde a austeridade e as privatizações nos levaram; ela terá sentido o total desprezo do estado e dos capitalistas por suas vidas e sofrimento. Ela também terá percebido que o precarizado setor público foi o que melhor contribuiu à crise, ao contrário do setor privado, tão defendido pelos gerentes capitalistas.

E então a classe trabalhadora irá à luta, economicamente e politicamente. Reinvindicará o fim dos ataques aos setores da saúde e educação, e irá se opor à repressão. Essa luta de classes será internacional por natureza: a classe trabalhadora marroquina irá se unir a esse movimento ao resgatar suas tradições revolucionárias, se inspirando nas lutas dos trabalhadores de todo o mundo e os fortalecendo com sua própria experiência.

Nesse contexto, as idéias marxistas – que oferecem uma alternativa revolucionária, com os pilares do controle da riqueza social pelos trabalhadores e a planificação da economia em serviço de toda a sociedade – serão cada vez mais atrativas. Será fácil para os trabalhadores entenderem o porquê não devem entregar seus destinos nas mãos de uma minoria de parasitas, mas sim tomar seu controle por si próprios.

Esse desenvolvimento de consciência não será necessariamente gradual, mas acontecerá em explosões e saltos. Essa é a perspectiva para qual devemos nos preparar para construirmos uma liderança revolucionária que pode liderar os trabalhadores à vitória, para construir uma sociedade socialista na qual a vida será segura, bela e livre de toda opressão e violência!

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

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