EUA

A classe dominante diz aos trabalhadores: seu emprego ou sua vida

Trabalhadores estadunidenses em todo o país estão se preparando para um retorno prematuro ao trabalho, apesar dos alertas de saúde pública sobre uma segunda onda de infecções de coronavírus.

Por Bratton Young, via Liberation News, tradução de Eduardo Pessine, revisão por Flávia Nobre

Famílias esperam atendimento na secretaria seguro-desemprego. Foto por Burt Lum.
Famílias esperam atendimento em uma secretaria de seguro-desemprego. Foto por Burt Lum.

Trabalhadores estadunidenses em todo o país estão se preparando para um retorno prematuro ao trabalho, apesar dos alertas de saúde pública sobre uma segunda onda de infecções de coronavírus. Um total de 23 estados, com uma população combinada de 120 milhões de pessoas, emitiram ordens de “retorno ao trabalho” que terão efeitos nos próximos dias. Outros oito estados indicaram que farão o mesmo em meados de maio. Isso fará com que os trabalhadores considerados “não-essenciais” ou que foram afastados retornem ao trabalho, ou correrem o risco de perder seus benefícios de seguro-desemprego.

Em meio a um aumento de infecções na casa de seis vezes nas embaladoras de carne da cidade de Sioux, Iowa, o governador de direita do estado, Kim Reynolds, afirmou descaradamente: “Se você é um empregador e ofereceu ao seu empregado que volte a trabalhar e ele decidir não ir, isso é uma demissão voluntária. (…) Sendo assim, eles não estarão qualificados para receber o seguro-desemprego”.

Ao menos 20 trabalhadores desse setor já perderam suas vidas, e mais de 5.000 já foram infectados. Em algumas fábricas da Tyson Foods, mais de 15% dos trabalhadores já testaram positivo para a Covid-19. Enquanto trabalhadores na Tyson, Smithfield, Purdue, Case Farms, e outras empresas frigoríficas tomavam medidas corajosas contra as más condições sanitárias de trabalho, o presidente Trump assinou uma ordem executiva exigindo a reabertura das empresas sob quaisquer circunstâncias. Isso deu aos patrões um passe livre para burlarem normas sanitárias que alegam ter tornado o negócio “pouco lucrativo” para continuar operando.

Com a retirada do seguro-desemprego, muitos trabalhadores do ramo serão obrigado a escolher entre arriscarem sua renda ou suas vidas. Isso é um sinal do que está por vir, com autoridades do estado atendendo às demandas das gigantes corporações determinadas a jogarem o custo da “recuperação” nas costas dos trabalhadores.

Enquanto isso, o tsunami de demissões, cortes e falências está longe de acabar. No dia 30 de abril, a U.S. Steel notificou a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários dos EUA que está preparada para cortar 6,500 empregos em suas fábricas e usinas, enquanto 7 em cada 10 altos-fornos da companhia nos Estados Unidos estão ociosos. No dia 4 de maio, a divisão de aviação da General Eletric anunciou que planeja cortar sua mão-de-obra global em 25%, impactando mais de 13.000 empregos. Empresas do varejo já em declínio como a J.Crew e J.C. Penney também passaram da linha da falência.

O setor público também registrou uma estimativa da National League of Cities que entre 300.000 e 1 milhão de trabalhadores da educação, saneamento, saúde e segurança públicas provavelmente perderão seus empregos ou salários nas próximas semanas e meses.

Benefícios trancados a sete chaves

Para os cerca de 30 milhões de trabalhadores que entraram com pedidos de seguro-desemprego nas últimas seis semanas, têm sido uma luta para obter os benefícios que têm sido descontados de seus salários por anos.

Um estudo do dia 28 de abril pela Economic Policy Institute descobriu que para cada 10 pessoas que entraram com o pedido do seguro-desemprego, havia 4 que tiveram seus pedidos bloqueados através do sistema. Para cada 10, duas pessoas simplesmente desistiram do pedido devido à dificuldade do processo.

Em antecipação a outro colapso econômico que poderia sobrecarregar seus estabelecimentos, as agências públicas de desemprego criaram sistemas de pedidos para tratarem todos os casos como potencialmente fraudulentos. Nos anos seguintes à crise financeira de 2008, os estados passaram a pedir cada vez mais que os beneficiários documentassem suas buscas por emprego semanalmente, e para que passassem por uma espera de 10 dias antes do primeiro pagamento.

No entanto, essas deficiências massivas nos sistemas de seguro social não podem ser reduzidas apenas à incompetência burocrática. O que isso revela é uma política deliberada da classe dominante de redefinição dos sistemas vigentes de acesso aos benefícios do seguro-desemprego, na intenção de bloquear o máximo de pedidos possível.

O “socorro” fornecido pelo governo até agora para as dezenas de milhares de trabalhadores desempregados tem se provado insuficiente. Na realidade, os patrões e seu governo bolaram um plano para sacrificar os trabalhadores pelo “bem maior” de resgatar a si próprios. Mas a história mostra que ambos podem ser derrotados através da luta popular.

A história de luta e militância

O seguro-desemprego nunca foi um presente entregue aos trabalhadores por seus patrões ou pelo governo. Foi conquistado através de lutas e militância massiva dos desempregados nos anos 1930 durante a Grande Depressão, uma época em que milhares de trabalhadores morreriam de fome todos os anos por falta de emprego. Centenas de milhares tomaram as ruas com o slogan “Lute, não morra de fome”, e foram recebidos com cacetetes e ataques policiais. Com a ajuda dos sindicatos liderados por comunistas e outras organizações trabalhistas, os Conselhos de Desempregados foram formados em cidades em todo o país para organizar as lutas dos desempregados por benefícios, programas de geração de empregos, e subsídios alimentares e de moradia.

O dia 6 de março de 1930 foi declarado o “Dia Internacional do Desemprego”, e manifestações massivas de trabalhadores desempregados, veteranos, sem-terra, avançaram contra o mundo capitalista, especialmente nos Estados Unidos. Os Conselhos de Desempregados rapidamente ganharam força e tamanho, e em 1936 todas as grandes organizações de desempregados já haviam se unido para ajudar na conquista de reformas, como o Works Project Administration, o imposto de renda, o Wagner Act, e a seguridade social.

O impulso de “retorno ao trabalho” deve ser entendido como uma nova ofensiva da classe dominante sobre a seguridade social e as condições de vida da classe trabalhadora. Durante esse período de crescente ódio e enfrentamento contra as políticas sanguinárias e anti-povo de ambos os Democratas e Republicanos em resposta à crise, as lições da década de 1930 servem como idéias centrais de como podemos lutar e vencer a ofensiva dos patrões que colocam tantas vidas em risco.

As visões expressas neste artigo pertencem ao(s) autor(es) e não necessariamente refletem a linha editorial do portal Nova Margem.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: